
Bispos católicos elevaram o tom dos alertas sobre religião e política na reta final das eleições de 2026. Em vídeos divulgados por integrantes da Igreja Católica, religiosos condenam a manipulação da fé e das igrejas para conquistar votos, defendem a democracia e a soberania nacional e cobram dos eleitores atenção ao histórico dos candidatos.
Uma das mensagens mais diretas veio de Dom Guilherme Werlang, bispo emérito de Lages (SC): “Atenção à manipulação religiosa que pede votos em nome de Deus. As igrejas não são currais eleitorais”.
Em vídeo, bispos do Regional Norte 1 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), responsável por Amazonas e Roraima falam sobre a preservação da Amazônia, a defesa de povos indígenas, ribeirinhos e das comunidades tradicionais, o combate à compra de votos e proteção dos mais pobres. Dom Frei Samuel Ferreira afirma que a “democracia é um bem precioso a ser cuidado e garantido”, enquanto Dom Adolfo Zon resume o alerta eleitoral: “O voto não tem preço, tem consequência”.
O cardeal Leonardo Ulrich Steiner, arcebispo de Manaus, encerra a gravação reforçando que a Igreja Católica não está indicando uma candidatura. “Nós não temos partido, mas temos uma causa: o Evangelho e os pobres”, afirma. Em seguida, faz um apelo direto aos fiéis: “Vote pela democracia”. A orientação também inclui a defesa da Amazônia como patrimônio brasileiro e a rejeição à ideia de que florestas, águas e povos possam ser tratados como mercadorias.
E a Igreja Católica entra em campo. E sem manipular seus fiéis ou tratá-los como gado que não pensa. O convite é à reflexão. O candidato escolhido no voto pela Democracia, Soberania, Defesa dos mais Pobres e do Meio Ambiente, é uma consequência. pic.twitter.com/6JjyPlQnQe
— Gustavo ⭐ 🇧🇷 (@gu_afonso) September 23, 2026
Em outro vídeo, o cardeal Jaime Spengler, presidente da CNBB, afirma que a Igreja “não indica candidatos nem partidos”, mas sustenta que o eleitor cristão deve considerar a defesa do bem comum, da dignidade humana e das instituições democráticas.
A entidade condena corrupção, compra de votos, abuso de poder econômico e político e a “disseminação deliberada de mentiras, as fake news”. Também pede confiança nos mecanismos de apuração da vontade popular, respeito ao resultado das urnas e à Lei da Ficha Limpa. A mensagem nacional havia sido aprovada pelo Conselho Permanente da CNBB e vem sendo reforçada durante o período eleitoral.
“A Igreja Católica não indica candidatos nem partidos. Movida pelo Evangelho e pela missão de anunciá-lo, promove a vida, a dignidade humana e serve à construção do bem comum”
— Cardeal Jaime Spengler, presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) https://t.co/bsW5KFkVtl pic.twitter.com/kvVTs8SiVG
— Jeff Nascimento (@jnascim) September 23, 2026
O alerta contra o uso eleitoral da religião surge em uma campanha na qual a disputa pelo voto religioso ganhou peso crescente. Flávio Bolsonaro (PL-RJ) montou uma frente específica para ampliar sua presença entre o eleitorado evangélico, com aproximação de lideranças, presença em igrejas e orientação de comunicação voltada aos fiéis. Pesquisa BTG/Nexus mostrou neste mês que Flávio Bolsonaro liderava entre evangélicos, enquanto Lula tinha vantagem entre católicos.
Episódios recentes também colocaram templos e discursos religiosos no centro da campanha. Tarcísio de Freitas foi multado pela Justiça Eleitoral depois de pedir votos para aliados durante um culto da Assembleia de Deus. Em outro evento, o pastor Valdemiro Santiago exibiu um vídeo de André Mendonça diante de Flávio Bolsonaro e Tarcísio, num momento em que parte do ecossistema religioso bolsonarista também passou a apresentar disputas políticas e institucionais em linguagem espiritual.
Os bispos, não citam candidatos, seguindo a orientação institucional de justamente não transformar a Igreja em aparelho partidário. O critério apresentado aos fiéis passa por democracia, justiça social, defesa dos vulneráveis, soberania, preservação ambiental, rejeição às fake news e respeito à escolha popular, mas advertindo que invocar Deus para conduzir o voto não transforma uma igreja em extensão de campanha eleitoral.