Vendas externas crescem 11,5% em 2026 e saldo comercial chega a US$ 61,77 bilhões; desempenho mostra capacidade de redirecionamento do comércio brasileiro, embora exportações para os Estados Unidos continuem sentindo os efeitos das barreiras impostas por Washington
Da Redação
O Brasil chega ao fim de setembro com um resultado que contraria o cenário mais pessimista desenhado quando o governo de Donald Trump intensificou sua ofensiva tarifária contra produtos brasileiros. As exportações do país não encolheram. Cresceram 11,5% no acumulado de 2026, enquanto o superávit comercial avançou 36,3% e atingiu US$ 61,77 bilhões.
Os números foram divulgados nesta segunda-feira, 28, pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços e abrangem o período de janeiro até a quarta semana de setembro. Nesse intervalo, o Brasil exportou US$ 281,34 bilhões, contra US$ 252,3 bilhões aproximadamente no mesmo período do ano anterior. As importações chegaram a US$ 219,57 bilhões, crescimento de 6%. A corrente de comércio, soma de tudo o que o país vendeu e comprou no exterior, alcançou US$ 500,92 bilhões, alta de 9%. Agência Gov
O resultado permite afirmar que o tarifaço norte-americano não conseguiu interromper o crescimento do comércio exterior brasileiro. Isso, entretanto, não significa que as medidas de Trump tenham sido inócuas. Há uma diferença fundamental entre o desempenho global das exportações brasileiras e o comércio específico com os Estados Unidos.
É justamente essa diferença que ajuda a compreender o que está acontecendo.
As vendas brasileiras para o mercado norte-americano sofreram. No primeiro semestre de 2026, caíram 13% em relação ao mesmo período do ano anterior, de acordo com o próprio MDIC. Entre janeiro e agosto, ainda acumulavam retração de 9,7%. O movimento reduziu a participação dos Estados Unidos nas exportações brasileiras e atingiu particularmente setores e empresas mais dependentes daquele mercado. Serviços e Informações do Brasil
O que os números gerais mostram é outra coisa: a redução das vendas para os Estados Unidos não se transformou numa redução das exportações brasileiras como um todo.
O país conseguiu compensar a perda de dinamismo no mercado americano com vendas para outros destinos, aumento das exportações de determinados produtos e forte desempenho de diferentes segmentos da economia. É nesse sentido que o Brasil, até agora, conseguiu driblar parte do efeito macroeconômico da pressão comercial de Washington.
Tarifaço atingiu os EUA, não paralisou o comércio brasileiro
A distinção é importante porque as medidas norte-americanas foram significativas.
Em julho, os Estados Unidos adotaram duas novas sobretaxas que, combinadas, alcançam 23,1% das exportações brasileiras destinadas ao mercado americano. Parte dos produtos passou a enfrentar adicional de 12,5%, outra parcela recebeu 25%, e aproximadamente 16,5% das exportações brasileiras para os EUA ficaram submetidas às duas medidas simultaneamente, chegando a uma sobretaxa adicional de 37,5%.
Outros produtos estão sujeitos a tarifas setoriais adotadas pelos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, 52,7% das exportações brasileiras para aquele mercado permaneceram fora dessas sobretaxas adicionais, segundo cálculo oficial do MDIC baseado na estrutura comercial de 2024. Serviços e Informações do Brasil
Portanto, o chamado tarifaço não significa que toda mercadoria brasileira tenha recebido a mesma taxação. O impacto varia profundamente conforme o produto.
Mas o efeito sobre o comércio bilateral já apareceu.
As exportações brasileiras para os Estados Unidos haviam alcançado US$ 40,4 bilhões em 2024. Caíram para US$ 37,7 bilhões em 2025 e continuaram perdendo força durante boa parte de 2026. A participação norte-americana nas vendas externas brasileiras recuou de 12,1% no primeiro semestre de 2025 para 9,4% no primeiro semestre deste ano. Serviços e Informações do Brasil
Em outras palavras, Trump conseguiu dificultar a entrada de uma parcela dos produtos brasileiros nos Estados Unidos. O que não conseguiu, até aqui, foi transformar essa dificuldade numa retração do comércio exterior do Brasil.
Essa diferença revela os limites de uma política tarifária aplicada a uma economia com relações comerciais espalhadas por diferentes regiões do mundo.
O mercado norte-americano continua extremamente importante, especialmente para determinados produtos industrializados e cadeias produtivas. Mas já não possui peso suficiente para determinar sozinho o desempenho agregado das exportações brasileiras.
O Brasil vende para China, União Europeia, América Latina, Oriente Médio, África e diferentes economias asiáticas. Quanto maior essa diversificação, menor a capacidade de uma única potência de utilizar o acesso ao seu mercado como instrumento de pressão sobre toda a economia brasileira.
É justamente aí que o resultado de 2026 ganha dimensão geopolítica.
Indústria de transformação aparece na frente
Os dados mais recentes também ajudam a relativizar a imagem de uma pauta exportadora sustentada exclusivamente pelo agronegócio.
No período analisado pelo MDIC, a indústria de transformação movimentou US$ 15,6 bilhões em exportações e liderou em valor entre os grandes setores, ficando à frente tanto da agropecuária quanto da indústria extrativa.
Um dos destaques foram aviões e outros equipamentos aeronáuticos, com US$ 455,8 milhões exportados. Agência Gov
Isso não elimina a enorme importância das commodities. Pelo contrário. Petróleo, minério de ferro e produtos agrícolas continuam fundamentais para o saldo externo brasileiro. Na quarta semana de setembro, por exemplo, a indústria extrativa apresentou crescimento expressivo, impulsionada por petróleo bruto, minério de ferro e cobre. TV Sim Brasil
A China ocupa posição central nesse desenho.
No primeiro semestre, segundo dados comerciais compilados a partir das estatísticas oficiais, o mercado chinês absorveu 69,5% da soja, 68,6% do minério de ferro e 54% do petróleo exportados pelo Brasil. Somente as vendas de petróleo bruto para a China alcançaram US$ 15,1 bilhões no período. TV Sim Brasil
É uma mudança estrutural importante quando comparada ao padrão de dependência comercial que marcou outros períodos da história brasileira.
Os Estados Unidos continuam sendo parceiros relevantes, mas já não ocupam a posição dominante de décadas passadas. A China se consolidou como principal destino das exportações brasileiras, enquanto outros mercados aumentaram sua importância.
Essa redistribuição cria margem de manobra diante de pressões comerciais, mas também produz novas dependências. A concentração de petróleo, minério e soja no mercado chinês significa que uma desaceleração significativa da economia chinesa poderia atingir diretamente o desempenho externo brasileiro.
Diversificar em relação aos Estados Unidos, portanto, não resolve por si só o problema da dependência externa. A questão estratégica é diversificar mercados e, simultaneamente, aumentar a participação de produtos de maior valor agregado nas exportações.
O desempenho da indústria de transformação em setembro torna-se relevante justamente por isso.
O limite da pressão de Washington
A experiência de 2026 ajuda a revelar uma contradição da política tarifária de Trump.
Tarifas podem fechar ou dificultar um mercado específico. Podem reduzir margens de empresas exportadoras, obrigar produtores a buscar outros compradores e causar perdas significativas nos setores diretamente atingidos.
Mas a capacidade de transformar esse instrumento numa pressão econômica sobre um país inteiro depende do grau de dependência desse país em relação ao mercado norte-americano.
No caso brasileiro, essa dependência diminuiu.
O próprio MDIC registrou que a participação dos Estados Unidos nas exportações brasileiras caiu de 12% em 2024 para 10,8% em 2025 e continuou recuando em 2026. Serviços e Informações do Brasil
Há um paradoxo evidente: uma política destinada a utilizar o peso do mercado americano para pressionar parceiros comerciais pode incentivar esses mesmos parceiros a acelerar a procura por outros mercados.
Isso não significa que substituir compradores seja simples. Produtos industriais possuem certificações, redes de distribuição, contratos, padrões técnicos e cadeias logísticas específicas. Uma empresa brasileira que produza determinado componente para clientes norte-americanos não encontra necessariamente um comprador equivalente na China ou na Europa da noite para o dia.
Por isso, os números agregados não devem esconder os prejuízos localizados.
Mas eles demonstram que o efeito nacional foi diferente daquele observado na relação bilateral.
Enquanto as exportações brasileiras para os Estados Unidos perderam força, as exportações totais cresceram.
E cresceram bastante.
Em agosto já havia aparecido um sinal adicional dessa capacidade de adaptação. As vendas brasileiras para os próprios Estados Unidos voltaram a crescer naquele mês em valor, embora o acumulado do ano permanecesse negativo. O resultado mostrou também que os efeitos das tarifas não são lineares e podem variar conforme preços, produtos e volumes negociados. BOL
Comércio exterior vira peça da autonomia brasileira
A discussão, portanto, ultrapassa o saldo da balança comercial.
O tarifaço de Trump colocou novamente no centro uma velha questão brasileira: quanto espaço um país possui para conduzir política externa própria quando depende economicamente de grandes potências?
Quanto mais concentrado estiver seu comércio, menor tende a ser essa margem.
A diversificação das relações econômicas brasileiras, construída ao longo de décadas e aprofundada pela expansão comercial com a Ásia e o Sul Global, altera essa equação. Não elimina assimetrias, mas reduz a capacidade de um único parceiro de transformar barreiras comerciais em instrumento decisivo de coerção.
Os números divulgados agora pelo MDIC oferecem uma medida concreta desse processo.
De janeiro até a quarta semana de setembro, os Estados Unidos continuaram impondo barreiras a parcelas relevantes das mercadorias brasileiras. Empresas afetadas tiveram de absorver custos, redirecionar vendas ou enfrentar perda de mercado.
Mesmo assim, o Brasil exportou US$ 281,34 bilhões.
As vendas externas cresceram 11,5%.
O comércio total ultrapassou meio trilhão de dólares.
E o superávit avançou 36,3%, para US$ 61,77 bilhões. Agência Gov
Ainda é cedo para transformar nove meses de dados numa conclusão definitiva sobre os efeitos de longo prazo da política comercial americana. Os números consolidados de setembro serão divulgados pelo MDIC em 6 de outubro, e preços internacionais de commodities, demanda chinesa, câmbio e atividade econômica mundial continuarão influenciando fortemente o resultado brasileiro. Serviços e Informações do Brasil
Mas o quadro disponível permite uma conclusão mais precisa do que simplesmente dizer que o tarifaço fracassou ou funcionou.
Ele atingiu o comércio bilateral e prejudicou parcelas das exportações brasileiras destinadas aos Estados Unidos. O que não conseguiu foi impor essa retração ao conjunto do comércio exterior do Brasil.
Até setembro, ocorreu justamente o contrário.
Enquanto o mercado americano se tornou mais difícil, o Brasil vendeu mais para o mundo.