Wagner Gomes
Revisitando Chico Buarque de Holanda (foto ), percebo que, em 2026, o Brasil parece caminhar com um copo na mão e um nó na garganta. Um país onde o ruído é ensurdecedor, mas a conversa verdadeira continua interditada pelos idiotas da objetividade, tão decantados por Nelson Rodrigues. Eles fazem com que a política passe a ocupar o espaço antes reservado à ética, à fé ou à consciência crítica e, a partir de então, fazem brotar uma devoção perigosa: o cidadão deixa de pensar como indivíduo e passa apenas a aderir. A velha ferida nacional não desaparece; apenas troca de roupa, ganha algoritmo, assessor de imprensa e filtro de rede social. O silêncio, hoje, não vem mais da censura explícita. Vem do excesso. Informação demais, profundidade de menos. Todo mundo fala. Pouquíssimos escutam. A canção Cálice continua assustadoramente atual porque nunca tratou apenas da ditadura militar. Tratava do sufocamento humano. Da impossibilidade de dizer o óbvio sem medo. Hoje, o cálice mudou de forma: virou dependência econômica, polarização histérica, fanatismo político e uma fadiga moral coletiva. O brasileiro médio acorda cedo, trabalha muito, paga caro por tudo e dorme com a sensação de que o país sempre promete futuro, mas entrega sobrevivência. Há algo de profundamente simbólico no Brasil contemporâneo: o povo canta enquanto afunda. Faz meme do próprio desespero. Ri da tragédia porque descobriu que o humor é mais barato que terapia e mais seguro que revolta. Enquanto isso, Brasília, com seus penduricalhos travestidos de três podres poderes, continua sendo uma espécie de teatro barroco: figurinos caros, discursos inflamados e nenhuma conexão real com a rua quente onde o ônibus atrasa e o arroz pesa no bolso. O mais perverso é que a opressão moderna não precisa mais proibir canções. Basta transformar tudo em entretenimento contínuo. Escândalos duram quarenta e oito horas. A indignação vem com prazo de validade. O cidadão é empurrado para um labirinto onde discutir se torna mais importante do que compreender. O debate público virou ringue de ego patrocinado por cliques. E, no entanto, o Brasil segue estranhamente vivo. Talvez porque exista uma força subterrânea impossível de matar. Está no camelô que reinventa a renda do dia. Na mãe que sustenta três empregos. No jovem periférico que transforma celular velho em ferramenta de trabalho. O país real continua produzindo dignidade apesar do Estado, apesar das falsas elites, apesar das crises recicladas. “Cálice” permanece atual porque o brasileiro ainda engole seco. Ainda há muito engarrafamento emocional num país treinado para suportar tudo sem explodir. Mas existe perigo nisso: nação que aprende a tolerar absurdos, como rotina, começa a perder a capacidade de sonhar grande. E um povo sem sonho vira apenas mão de obra barata para projetos pequenos. O Brasil de hoje não precisa apenas de crescimento econômico. Precisa recuperar linguagem, confiança e coragem. Precisa voltar a distinguir esperança de propaganda. Porque, no fim, o maior silêncio não é aquele imposto pelos poderosos. É o silêncio conformado de quem já desistiu de acreditar que pode mudar alguma coisa. E aí mora o verdadeiro abismo. Não no grito abafado — mas na ausência dele escancarado.