Duas mulheres seminuas, com os corpos pintados de azul, foram colocadas sobre um carro de som durante uma caminhada da campanha de ACM Neto (União Brasil), candidato ao governo da Bahia, na sexta-feira (28), em São Cristóvão, Salvador. Em plena atividade eleitoral, a campanha escolheu o corpo feminino como chamariz. A cena é tão explícita quanto constrangedora: para disputar votos, mulheres foram transformadas em atração.
A deputada federal Alice Portugal (PCdoB-BA) classificou o episódio como “um retrocesso enorme” e rejeitou qualquer tentativa de tratá-lo como liberdade. “Isso não é liberdade, é objetificação”, afirmou. Para ela, uma campanha deveria apresentar ideias capazes de mudar a vida das pessoas, e não recorrer ao velho expediente de substituir o debate político pela exploração do corpo feminino como espetáculo eleitoral.
“Nosso corpo não é moeda de troca por votos”
Alice situou o episódio na luta pela presença das mulheres na política. “Enquanto lutamos por mais mulheres na política, ainda precisamos combater quem insiste em transformar o corpo feminino em atração eleitoral”, afirmou.
A frase expõe o que está em jogo para a deputada: não basta colocar mulheres em uma atividade política se sua presença continua sendo mobilizada pela aparência, enquanto sua voz e sua capacidade de participar da disputa de poder ficam em segundo plano. “Nosso corpo não é moeda de troca por votos”, resumiu.
Repercussão nacional
A controvérsia ultrapassou a campanha baiana. A revista Veja destacou o episódio no domingo (30), levando à imprensa nacional as imagens da caminhada e as críticas à utilização das mulheres no ato.
Para Alice, a questão não se resolve com a justificativa de uma suposta liberdade de expressão ou de escolha. Uma coisa é a autonomia de uma mulher sobre o próprio corpo; outra é uma campanha eleitoral transformar essa imagem em peça de sua comunicação. “Não podemos tolerar esse tipo de postura”, afirmou.
O que fica quando a proposta sai de cena
A cobrança é simples, mas incômoda: quem pede votos para governar um estado deveria ter algo a dizer sobre como pretende governá-lo. Em São Cristóvão, porém, a imagem que se sobrepôs ao debate foi outra e acabou levando a campanha de ACM Neto para a imprensa nacional por uma razão bem diferente de suas propostas.
“O eleitor exige seriedade, dignidade e, acima de tudo, respeito às mulheres”, disse Alice.