“A política não é civilizada. Com a extrema direita é guerra”, diz sociólogo

O presidente Lula (PT)

Dias antes do segundo turno das eleições de 2018, vencidas por Jair Bolsonaro (PL), em um comício do então candidato do PT à Presidência, Fernando Haddad, o rapper Mano Brown acabou com o inexplicável clima de festa ao alertar: “A cegueira que atinge lá, atinge aqui também. Isso é perigoso”. Parte do público reagiu com vaias. Oito anos depois, parece que essa lição ainda é ignorada.

O cientista político Aldo Fornazieri, professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP) e consultor técnico da campanha de Haddad à Prefeitura de São Paulo em 2012, apontou ao DCM os principais erros cometidos pelo governo, pelo PT e pela campanha do presidente Lula.

Fornazieri atribuiu o resultado negativo de Lula e do partido a decisões tomadas pelo próprio campo governista, desde a comunicação sobre as realizações da gestão até a atuação diante do bolsonarismo, da crise do STF e do caso Master. “Eu digo que essa derrota foi autoconstruída, porque o governo e a campanha cometeram muitos erros”, afirma.

Aliados de primeira hora do presidente não foram eleitos, como José Dirceu (PT-SP), Rui Falcão (PT-SP) e Delúbio Soares (PT-GO) para a Câmara, Gleisi Hoffmann (PT-PR), Randolfe Rodrigues (PT-AP), Benedita da Silva (PT-RJ) e Paulo Pimenta (PT-RS) no Senado, além de Fernando Haddad (PT) e João Campos (PSB) para os governos de SP e de Pernambuco.

Dos poucos nomes de esquerda que venceram com uma votação expressiva, nenhum é petista. Erika Hilton (PSOL) se reelegeu deputada federal em SP com 1,6 milhão de votos, assim como Duda Salabert (PSOL) em Minas, com 229 mil. Sâmia Bomfim (PSOL) ficou entre os cinco deputados federais paulistas mais votados e Jones Manoel (PSOL) foi o segundo deputado federal mais votado de Pernambuco.

“O PSOL agora tem que sair da sombra do PT e se instituir como esquerda”, ressalta Fornazieri. Lula não deixou um herdeiro competente, enquanto o bolsonarismo, segundo ele, “preparou uma nova geração de líderes. Fizeram muito curso de direita e de formação de líder. A esquerda só faz curso de política. Uma coisa é formar políticos, outra é formar líderes. Eles sabem como usar as redes sociais. A esquerda não sabe até agora”.

Corrupção, Master e segurança: as bandeiras deixadas para o adversário

Para o cientista político, Lula deveria ter assumido o combate à corrupção como uma das prioridades políticas desde o início do terceiro mandato. A estratégia era necessária para enfrentar a percepção negativa de parte da sociedade sobre o PT. “Quando Lula voltou à Presidência em 2023, deveria ter se definido como paladino do combate à corrupção, porque o PT tem a marca de partido corrupto na sociedade”, diz o professor.

“Maquiavel escreveu: ‘se o príncipe é guerreiro e infiel, tem que proclamar a todo momento a paz e a fé’”. Para Aldo, apesar de o senador Flávio Bolsonaro (PL) estar muito mais envolvido nas duas principais crises de corrupção do país — o INSS e o banco Master —, o filho de Jair Bolsonaro “teve a habilidade, o ardil de se desvencilhar e jogar as polêmicas no colo do Lula”.

Segundo o professor, o petista e a direção partidária trouxeram a crise envolvendo o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes e o escândalo do banco de Daniel Vorcaro “para dentro da campanha”, ampliando a associação entre o governo e a Corte.

Na quinta-feira (1º), durante entrevista ao Flow Podcast, Lula relatou ter cobrado esclarecimentos de Moraes: “Você deve uma explicação à sociedade brasileira”. O presidente também afirmou ter conversado três vezes com o presidente do STF, Edson Fachin, sobre a crise. Na mesma entrevista, defendeu a investigação de todos os citados, independentemente do cargo ocupado.

É essa exposição pública que Fornazieri questiona do ponto de vista eleitoral: “Isso é negativo para a campanha. O Flávio, por exemplo, falou que o André Mendonça tinha que se explicar? Não. Porque, se ele falasse, atrairia culpa”.

Campanha não conseguiu melhorar a avaliação do governo

Outro erro apontado é a dificuldade de transformar as realizações do governo em uma avaliação mais favorável entre os eleitores. Uma disputa com um presidente candidato à reeleição, segundo Aldo, tem como referência principal a percepção sobre sua administração.

Fornazieri considera que a campanha não cumpriu essa tarefa. “Esse foi o principal erro: não conseguir melhorar a avaliação do governo. E a campanha toda errática, sem centralidade e tática estratégica. A campanha do PT, no geral, foi medíocre na TV, na internet e no rádio”.

“O foco do primeiro turno tem que ser a defesa e a divulgação do que o governo fez. Você tem que virar a chave da avaliação mais negativa para a avaliação mais positiva, senão você não ganha eleição”, afirma o professor. “E o que a avaliação do Lula dizia? Que a sociedade brasileira quer mudança”.

Bolsonaro perdeu em 2022, mas o bolsonarismo cresceu

Fornazieri também atribui o avanço da direita à falta de enfrentamento político ao longo do mandato. “Durante o governo Lula, ele e o PT abdicaram da luta política contra o bolsonarismo, que teve uma derrota eleitoral em 2022, mas não uma derrota política”.

Segundo ele, o campo bolsonarista manteve a iniciativa mesmo depois da tentativa de golpe: “Apesar do golpe e de tudo que fizeram, permaneceram na ofensiva o tempo todo, com o governo e o PT na defensiva. Ficar na defensiva é um desastre completo”.

“No governo, o PT não fez luta política. A questão da democracia foi terceirizada para o STF, e o bolsonarismo seguiu ditando as regras. A política não é civilizada. Com a extrema direita é guerra”.

Custo de vida e decisões tardias

O professor também critica a relação do governo com os problemas cotidianos dos eleitores. Fornazieri considera que o custo de vida e o endividamento exigiam respostas anteriores à reta final do mandato. “Eles não perceberam esse problema do custo de vida e do endividamento. Só foram tomar medidas este ano. Todo mês tem divulgação do nível de endividamento das famílias. Eles não viram isso antes?”.

Um exemplo citado é o reajuste do Bolsa Família próximo da votação. O decreto de correção foi assinado em 17 de setembro, elevando o benefício mínimo de R$ 600 para R$ 691, com efeitos a partir de outubro. “O aumento do Bolsa Família aconteceu em cima da eleição, foi uma medida eleitoreira que não surtiu efeito algum”, afirmou.

O governo já havia adotado medidas de renegociação antes do ano eleitoral. O Desenrola Brasil foi lançado em julho de 2023 e, segundo balanço do Ministério da Fazenda, beneficiou 15,5 milhões de pessoas até seu encerramento, em maio de 2024. Mas por que essas conquistas não foram bem comunicadas à população?

Como Mano Brown avisou em 2018, o PT “falhou na comunicação com o povo” e hoje paga o preço.

“A comunicação é a alma. E se não está sabendo falar a língua do povo, vai perder mesmo”, declarou o líder dos Racionais MCs. “O que mata a gente é a cegueira e o fanatismo. Deixou de entender o povão, já era. Se nós somos o Partido dos Trabalhadores, o partido do povo, tem que entender o que o povo quer. E se não sabe, volta para a base, e vai procurar saber!”.

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