A nova engenharia da extrema-direita para 2026
por Reynaldo Aragon
O Projeto DV revela uma engrenagem muito maior do que uma campanha de reputação. Ao mostrar como uma rede política pode ser observada para localizar intermediários de confiança, e como dinheiro, inteligência e mercados de influência podem reorganizar essa capacidade para outros interesses, o caso expõe uma transformação decisiva da política contemporânea. Às vésperas da eleição de 2026, compreender essa arquitetura é compreender uma vantagem estratégica acumulada pela extrema direita: a capacidade de converter comunidades, relações e credibilidade em poder organizado de influência.
O Projeto DV é o sintoma, não a doença
Quando o Banco Central liquidou o Banco Master, em 18 de novembro de 2025, a disputa em torno de Daniel Vorcaro deixou de ser apenas financeira e judicial. Nas semanas seguintes, entrou em funcionamento uma operação profissional de gestão de crise destinada a reconstruir sua imagem, questionar a atuação da autoridade monetária e disputar publicamente o sentido da liquidação. Documentos do chamado Projeto DV mostram contratos firmados pela MiThi, de Thiago Miranda, que somavam cerca de R$ 8 milhões. Aproximadamente R$ 3,5 milhões chegaram a ser pagos antes que a investigação da Polícia Federal interrompesse a maior parte da operação. Influenciadores e páginas receberam orientações específicas de títulos, textos, imagens, vídeos e tom editorial. O objetivo não era apenas comprar alcance. Era organizar uma narrativa e fazê-la circular por vozes diferentes, ajustadas a públicos diferentes.
A operação encontrou uma oportunidade numa controvérsia real do Estado. Em 18 de dezembro, o ministro Jhonatan de Jesus, do Tribunal de Contas da União, determinou que o Banco Central explicasse em 72 horas os fundamentos da liquidação e levantou, em análise preliminar, a hipótese de que a medida pudesse ter sido precipitada. O Projeto DV não criou essa fissura. Seu valor estratégico estava precisamente em explorá-la. Uma dúvida formulada dentro de uma instituição da República podia ganhar outra escala ao reaparecer, com enquadramentos convergentes, em influenciadores, páginas de entretenimento e perfis políticos percebidos como independentes. A influência contemporânea não precisa fabricar a realidade. Pode selecionar uma fratura verdadeira, amplificá-la e reorganizar sua circulação.
É nesse ponto que um episódio aparentemente lateral revela a dimensão mais importante do caso. Em 20 de dezembro de 2025, André Salvador, da UNLTD, empresa que posteriormente reconheceu ter atuado como fornecedora terceirizada da MiThi no Projeto DV, procurou o vereador e influenciador Rony Gabriel. Ao explicar como chegara até ele, Salvador escreveu que a agência também fazia monitoramento das redes de Flávio Bolsonaro e havia encontrado o perfil de Rony nas publicações do então senador. Em seguida, deixou claro que o novo contato dizia respeito a outro trabalho, de gerenciamento de reputação e gestão de crise para um grande executivo. Rony declarou à Polícia Federal que participava com frequência das redes de Flávio e que isso explicaria como fora localizado.
A evidência precisa ser mantida dentro de seus limites. Não há prova pública de que Flávio Bolsonaro tenha participado do Projeto DV, conhecido sua existência ou autorizado o uso de seu ecossistema digital para a prospecção de Rony. Também não há demonstração de que todos os influenciadores procurados pela operação tenham sido extraídos de suas redes. A conclusão sustentada pelos documentos é mais restrita e, justamente por isso, mais profunda: pelo menos uma vez, o conhecimento produzido pelo monitoramento de uma comunidade política foi reutilizado por um operador privado para localizar um intermediário considerado útil a outro cliente e a outra disputa.
Esse deslocamento muda a escala do problema. O ativo escondido numa rede política não é apenas sua audiência. É o conhecimento sobre a estrutura da confiança dentro dela. Uma comunidade revela quem traduz determinada linguagem, quem mobiliza, quem valida argumentos, quem atravessa bolhas e quem pode transportar uma mensagem sem que ela pareça estranha ao grupo. Quando esse conhecimento pode ser observado, classificado e reutilizado, a política passa a produzir algo além de votos: produz inteligência relacional com valor econômico e operacional.
A mercadoria invisível é a confiança
Uma comunidade política não nasce como mercado. Ela é construída por conflito, pertencimento, identidade, trabalho cotidiano de mobilização e reconhecimento mútuo. Pessoas produzem conteúdos, compartilham mensagens, estabelecem vínculos e aprendem, ao longo do tempo, quem merece confiança dentro daquele universo. No ciclo aberto em 2018, a extrema direita brasileira transformou plataformas digitais em espaços permanentes de sociabilidade política. O resultado não foi apenas uma base eleitoral, mas um estoque distribuído de relações, linguagens, símbolos, intermediários e autoridades informais capaz de sobreviver à campanha e conservar valor entre uma eleição e outra.
A economia política das redes começa onde termina a contagem de seguidores. Uma audiência numerosa contém hierarquias. Alguns atores apenas repetem mensagens. Outros traduzem argumentos, conectam comunidades, atravessam fronteiras ideológicas ou emprestam credibilidade a informações que seriam rejeitadas se viessem diretamente de um partido, candidato ou empresário. A rede produz, portanto, uma cartografia da própria confiança. Quem consegue lê-la deixa de enxergar apenas eleitores e passa a enxergar posições estratégicas.
É nesse sentido que podemos falar em capital político de rede: o valor acumulado numa comunidade formada por identidade, linguagem compartilhada, autoridade distribuída e canais capazes de mobilizar públicos diferentes. Esse capital é produzido socialmente. Sua exploração, porém, pode ser privada. Quando um operador identifica onde a confiança está concentrada e oferece dinheiro para ativá-la em favor de outro interesse, recursos econômicos compram acesso a uma relação que não produziram.
A contradição é decisiva. A comunidade constrói legitimidade ao longo de anos, mas terceiros podem transformar sinais públicos de sociabilidade em inteligência operacional. O conteúdo deixa de ser a única mercadoria. Torna-se igualmente valiosa a capacidade de localizar quem pode conferir credibilidade ao conteúdo. O salto está aí: de comprar exposição para comprar acesso à arquitetura social que torna a exposição persuasiva.
Por isso, a mercadoria mais valiosa de uma rede política pode não ser sua audiência. Pode ser o mapa da confiança existente dentro dela.
O poder acima dos influenciadores
O influenciador é a parte visível da operação. Tem rosto, voz, seguidores e reputação. Por isso concentra quase toda a atenção pública quando uma campanha coordenada é descoberta. A pergunta imediata é quem publicou, quanto recebeu e o que disse. Ela é necessária, mas insuficiente. O poder mais sofisticado está na estrutura capaz de decidir quem deve falar, para qual comunidade, em qual linguagem e no momento em que determinada narrativa encontra a melhor oportunidade para produzir efeito.
Os documentos do Projeto DV permitem observar essa camada. As orientações variavam conforme a identidade editorial dos perfis. Um poderia assumir linguagem liberal e institucional; outro, registro mais técnico; outro, comunicação popular ou agressiva. A forma mudava, mas determinados objetivos estratégicos permaneciam. A coordenação não exigia transformar dezenas de páginas numa voz idêntica. Sua sofisticação estava justamente em preservar diferenças de estilo enquanto intermediários distintos conduziam públicos distintos para enquadramentos convergentes.
É nesse nível que surge a metaintermediação político-econômica da influência. O conceito não descreve simplesmente uma agência que aproxima anunciante e influenciador. Descreve uma posição superior na arquitetura comunicacional: a capacidade de observar intermediários, avaliar seu valor, selecioná-los, combiná-los e ativá-los conforme objetivos definidos por quem dispõe de recursos econômicos e interesse político, empresarial ou institucional. O influenciador continua mediando a relação com sua comunidade. O metaintermediário passa a operar sobre os próprios mediadores.
Essa formulação prolonga, para o terreno político-econômico, uma questão já colocada pela ideia de metaintermediário algorítmico. O salto ocorre quando uma estrutura deixa de apenas conectar sujeitos e informações e passa a observar o ambiente, interpretar sinais, organizar prioridades e antecipar a mediação. No universo algorítmico, plataformas e sistemas inteligentes exercem progressivamente essa função. No mercado da influência, ela pode ser exercida por combinações de agências, operadores, capital, dados e conhecimento das redes. A tecnologia importa, mas a essência do poder é outra: governar a mediação.
O Projeto DV mostra por que essa diferença é material. Thiago Miranda assumiu perante a Polícia Federal a responsabilidade pela contratação de influenciadores e pela apresentação do projeto a Daniel Vorcaro. A UNLTD participou da prospecção como fornecedora. Os materiais conhecidos mostram adaptação de conteúdo por perfil. Em outras frentes da investigação, operadores ligados a esse universo aparecem associados a levantamentos sobre adversários e tentativas de intervenção sobre conteúdos considerados prejudiciais. Esses episódios não devem ser fundidos artificialmente numa única operação. Juntos, porém, mostram a ampliação de uma função: administrar reputação pode envolver observar o ambiente, reconhecer ameaças, localizar intermediários e organizar capacidade de resposta.
A consequência é histórica. Durante grande parte do século XX, produzir influência em escala exigia possuir meios de comunicação, aparelhos partidários ou relações estáveis com grandes veículos. A sociedade em rede fragmentou as audiências entre milhares de intermediários, mas essa descentralização abriu espaço para uma nova concentração. Uma estrutura pode não possuir página, canal ou seguidor algum e ainda assim adquirir capacidade semelhante à de uma infraestrutura de comunicação se souber encontrar os intermediários relevantes, classificá-los, financiá-los e combinar suas audiências.
O ativo estratégico passa da propriedade do canal para o controle da combinação. Quem controla uma audiência possui alcance. Quem consegue organizar aqueles em quem diferentes audiências confiam possui poder sobre a própria arquitetura da influência.
O laboratório de 2026
Seria um erro concluir que a estrutura do Projeto DV simplesmente migrou para a campanha presidencial de Flávio Bolsonaro. A evidência disponível não autoriza essa afirmação. A campanha de 2026 possui outro comando e outra organização formal, e MiThi e UNLTD não aparecem entre seus principais fornecedores diretamente declarados. A tese relevante não é a existência de uma máquina única atravessando Master e eleição. É a consolidação de um ambiente no qual comunicação, tecnologia, dados, inteligência e produção digital se tornaram infraestrutura material da disputa política.
A própria campanha de Flávio oferece uma imagem clara dessa transformação. Em setembro, lançou uma televisão digital com programação permanente no YouTube, estrutura de estúdios, entrevistas, transmissões, cortes para redes sociais e participação de aliados e influenciadores. O projeto foi concebido não apenas como canal, mas como usina de produção de materiais destinados a recircular por outras plataformas e comunidades. Em paralelo, os gastos eleitorais nacionais mostram a centralidade adquirida por publicidade digital, empresas de dados, tecnologia e audiovisual. Até 12 de setembro, o Facebook já aparecia como o maior fornecedor individual das campanhas no levantamento das prestações registradas naquele momento.
O Projeto DV importa para 2026 porque revela um método adaptado a esse ambiente. Uma operação não precisa concentrar todas as capacidades dentro da mesma empresa. Pode combinar operadores diferentes, reconhecer comunidades já constituídas, localizar intermediários com autoridade própria, financiar determinados canais e modular a mensagem segundo o público. O que se torna portátil não é necessariamente uma organização. É a capacidade de recombinar peças que já existem.
A extrema direita brasileira chega a essa disputa com uma vantagem acumulada desde 2018. Sua expansão foi inseparável da construção de comunidades digitais densas, influenciadores, canais paralelos de informação, linguagens identitárias e circuitos permanentes de mobilização. O bolsonarismo não inventou essas tecnologias nem possui monopólio sobre elas. Sua vantagem foi compreender cedo que plataformas não serviam apenas para divulgar campanhas. Podiam funcionar como ambientes permanentes de organização política.
Isso produz uma estrutura resistente porque não depende de comando central absoluto. Influenciadores competem, empresas perseguem lucro, militantes agem por convicção e páginas buscam audiência. Em momentos específicos, esses interesses podem convergir. Uma empresa desaparece e outra assume sua função; um canal perde força e outros crescem; um influenciador rompe com determinada liderança sem abandonar a comunidade ideológica na qual construiu autoridade. O poder reside menos na permanência de cada peça do que na densidade do ecossistema e na capacidade de recombiná-lo.
Por isso, procurar uma sala secreta de onde todas as mensagens seriam comandadas pode ser a maneira errada de compreender a extrema direita em 2026. Coordenação deve ser demonstrada quando existe. Mas o fenômeno estrutural é mais complexo: concentração política pode ocorrer sem centralização organizacional permanente. A nova engenharia funciona precisamente porque transforma fragmentação em recurso.
A disputa não será apenas pelo voto
Eleições continuam sendo decididas nas urnas, mas a formação da vontade política começa muito antes delas. O voto é o momento terminal de um processo atravessado por plataformas privadas, sistemas de recomendação, mercados de publicidade, empresas de dados, influenciadores e estruturas capazes de alterar a visibilidade relativa de temas, interpretações e vozes. Em sociedades profundamente digitalizadas, disputar eleições significa disputar também as condições materiais em que a realidade política é percebida.
Esse deslocamento produz um problema particular para países do Sul Global. Estados como o Brasil possuem soberania jurídica, instituições regulatórias e sistemas eleitorais nacionais, mas parcela decisiva da infraestrutura por onde circula a vida pública pertence a empresas privadas transnacionais. Dados, mecanismos de recomendação, publicidade digital, métricas e capacidade de segmentação estão concentrados fora do controle direto das instituições democráticas. A soberania permanece nacional enquanto parte da infraestrutura informacional que ajuda a formar escolhas coletivas é privada e transfronteiriça.
A assimetria é também econômica. Grandes grupos empresariais, campanhas bem financiadas e operadores especializados podem adquirir capacidades de monitoramento, inteligência e distribuição em escala superior à disponível para movimentos sociais ou organizações políticas tradicionais. O problema democrático não está na comunicação profissional, que sempre fez parte da política, mas na concentração dos meios capazes de transformar recursos econômicos em presença contínua dentro da esfera pública.
É nesse terreno que a extrema direita encontrou uma vantagem histórica. Sua ascensão coincidiu com plataformas cuja lógica econômica recompensa intensidade, conflito, identificação emocional e permanência. Não foi o algoritmo que criou a extrema direita, nem foram as redes que produziram as contradições materiais que alimentam sua expansão. Crise econômica, desigualdade, insegurança social, perda de expectativas e desorganização das formas tradicionais de representação forneceram a base. As plataformas ofereceram velocidade, escala e infraestrutura para transformar ressentimentos dispersos em comunidades politicamente reconhecíveis.
Reduzir o problema à desinformação, portanto, é insuficiente. Uma operação de influência não precisa mentir para ser poderosa. Pode partir de um fato verdadeiro, de uma divergência institucional real ou de uma opinião legítima. O trabalho estratégico consiste em selecionar o fragmento mais útil, escolher os intermediários adequados, adaptar a linguagem, financiar a circulação e ampliar sua presença até que determinada interpretação ocupe uma parcela desproporcional do ambiente. O poder não consiste em determinar mecanicamente o que as pessoas pensam. Consiste em interferir nas condições em que pensam.
Para uma democracia periférica, soberania informacional deixa então de ser um tema técnico e passa a integrar a questão maior da autonomia política. Um país capaz de realizar eleições livres, mas incapaz de compreender suficientemente os sistemas privados que modulam sua esfera pública, preserva o direito formal de escolher enquanto terceiriza parte das condições em que a escolha é formada. Isso não exige isolamento digital ou autarquia tecnológica. Exige reconhecer um princípio elementar do poder contemporâneo: infraestrutura é poder.
Para a democracia brasileira, a consequência é direta: disputar esse ambiente exige mais do que produzir conteúdos melhores dentro de plataformas alheias. Autonomia política depende de capacidade material de inteligência, tecnologia, comunicação distribuída, formação política e organização social permanente, além de vínculos de confiança que não existam apenas como audiência comercializável. Quem organiza comunidade apenas durante a eleição enfrenta quem acumulou relações durante anos. Quem pensa comunicação como divulgação enfrenta quem a trata como infraestrutura.
Quem controla a arquitetura da confiança?
O poder político sempre dependeu de mediações. Igrejas, partidos, sindicatos, jornais, associações, empresários e lideranças locais organizaram durante décadas a passagem entre experiência social e decisão política. A transformação contemporânea não eliminou esses intermediários. Multiplicou-os, privatizou parte de suas infraestruturas e criou uma camada capaz de observar, selecionar e recombinar aqueles que conquistaram autoridade dentro de comunidades diferentes.
O Projeto DV tornou essa camada visível. Seu verdadeiro significado não está apenas nos contratos, pagamentos ou perfis envolvidos, mas na possibilidade de converter relações acumuladas numa comunidade em inteligência acionável por outros interesses. O capital já não compra apenas publicidade. Pode comprar acesso a intermediários, adaptação narrativa e capacidade de circulação dentro de ambientes que parecem independentes. Não é preciso possuir toda a rede. Basta conhecer suficientemente sua estrutura para localizar os pontos onde dinheiro pode encontrar confiança social.
Essa é a fronteira que 2026 coloca diante da democracia brasileira. Candidatos, partidos, programas, economia e alianças continuarão decidindo eleições. Mas uma camada adicional consolidou-se entre essas forças e a sociedade: a capacidade de organizar a circulação da credibilidade.
Compreendê-la é uma questão de estratégia.
Porque, em 2026, talvez a pergunta mais importante não seja apenas em quem o brasileiro confiará.
Será também quem adquiriu poder para organizar o caminho pelo qual essa confiança será construída.
Artigo publicado originalmente em <código aberto>
Reynaldo Aragon é jornalista especializado em geopolítica da informação e da tecnologia, com foco nas relações entre tecnologia, cognição e comportamento. Editor do codigoaberto.net É pesquisador do Núcleo de Estudos Estratégicos em Comunicação, Cognição e Computação (NEECCC – INCT DSI) e integra o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Disputas e Soberania Informacional (INCT DSI), onde investiga os impactos da tecnopolítica sobre os processos cognitivos e as dinâmicas sociais no Sul Global.
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