No Instagram, uma jovem dupla negra, com as feições e a sonoridade de Cascatinha e Inhana, canta “Chuá Chuá”. Era uma das músicas preferidas de minha mãe, Terezinha. Se continuo a procurar, reaparecem Inezita Barroso, Dorival Caymmi, Zé do Norte, Ivon Cury — o repertório de meu pai, Oscar, e a trilha sonora de minha infância.
A música destranca gavetas que a memória parecia ter fechado.
Volto a um carnaval em Poços de Caldas, numa roda musical com Lyra, o homem que comprou de meu pai a Farmácia Central. Depois da venda, papai ainda permaneceu ali por alguns meses, preparando tudo para os novos donos e preparando-se para perder seu sonho. Nesse breve convívio, ensinou a Lyra antigas marchinhas de carnaval. Naquele carnaval, quando ele cantou uma delas para mim, senti uma ciumeira danada: era uma canção que papai nunca cantara em casa.
Depois vem “Velho Realejo”, que vô Issa guardava na memória quando viajava e passava alguns dias longe da família. “Dorme, Dorme, Filhinho”, com que vó Martha me embalava até o sono. E “Sons dos Carrilhões”, que o tio Léo ensaiava todas as manhãs, na sala da sua casa, do lado da janela do meu quarto.
O mundo deles já passou. O meu está passando.
Talvez por isso eu me emocione quando vejo uma criança ensaiando as primeiras graças ou um jovem começando no primeiro emprego. São vidas se abrindo justamente quando tantas outras se fecham. Nas ruas mais movimentadas, porém, às vezes tenho a sensação de atravessar um exército de figuras padronizadas: rostos harmonizados, lábios preenchidos, gestos repetidos e mentes intoxicadas pelo mesmo ruído. Às vezes tenho dificuldades em entender o mundo novo.
Então me lembro de como um país é construído devagar, por gente que quase nunca aparece nos livros. Em Poços de Caldas, meu pai ajudou na criação do Conselho Federal de Farmácia; vô Issa participou da organização da Associação Comercial; papai e tio Léo contribuíram para o crescimento da Caldense. Pequenos gestos, associações, clubes, farmácias, amizades e compromissos comunitários iam formando uma cidade — e, com ela, um pedaço do Brasil.
Nossa entrada na adolescência e na vida adulta também coincidiu com a descoberta de um país maior. O Brasil chegava até nós pelas vozes de Chico Buarque, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Edu Lobo e Caetano Veloso. Depois vieram João Bosco, Ivan Lins, Djavan, Paulinho da Viola e Jorge Ben. A música não era apenas trilha sonora. Era uma forma de compreender o país e de imaginar o que ele ainda poderia ser.
Nos tempos dos festivais, conseguimos classificar uma canção na Feira Permanente da Música Popular e, de repente, estávamos no mesmo palco que Jorge Ben, Paulinho da Viola e Suely Costa. Por alguns instantes, Poços de Caldas tocava o centro do país — e nós tocávamos junto.
Depois, um a um, começaram a morrer os amigos de infância e os companheiros de festivais. Foi-se Francha, que imitava a voz grave de “Leva Eu”; Adnei, que fazia a oitava da minha congada; Sérgio Manucci; Zé Grandão; Aref; Arlei e seu pistom. Restamos os resistentes: Fontella e seu violino em Poços, Antônio Geraldo em Santos, Rowilson Meio Quilo, Carlinhos Couto — e eu, tentando juntar os sons, os rostos e as histórias antes que se dispersem de vez.
Agora, assistimos, atarantados, ao desaparecimento daquele país construído lentamente. E vemos a ameaça de outro surgir em seu lugar: um território submetido a milícias, organizações criminosas, oportunistas e fabricantes de ódio. E podendo conquistar a presidência da República.
Não dá para assistir a isso em silêncio. Escrever estas memórias é uma forma de resistência: recompor o caminho, devolver nome aos que partiram e registrar o país que ajudamos a construir — antes que tentem nos convencer de que ele nunca existiu.
Meus ídolos musicais já passaram dos 80 anos. Cada vez que assisto Chico, Gil, Caetano, João Bosco me despeço, como se fosse o último encontro com o país que resistiu. Milton Nascimento já se foi. Fuço nos meus emails para recuperar o e-mail emocionado que ele me mandou, depois de uma crônica falando das lembranças de suas duas mães. Ficamos de nos encontrar para ele relatar o que sofreu durante a ditadura. Nos reencontramos, de fato, duas vezes. Uma assistindo a Noite dos Tambores Silenciosos, em Recife, outra em um Festival em Avaré. Nas duas ocasiões, uma timidez recíproca impediu a conversa.
Milton se foi e os demais continuam, resistentes, com suas músicas e suas posições políticas. Cada vez que vejo meus octagenários em shows, enxergo o fio derradeiro de minha geração, lutando até o último momento.
Dou-me conta de que este país foi formado na música que meus avós ensinaram para meus pais, que ensinaram para seus filhos, que ensinaram para os netos, que ensinarão para os bisnetos. E, com eles, milhões de famílias e gerações que ajudaram na construção da nacionalidade.
E a possibilidade de eleição de um Flávio Bolsonaro jogará pelo ralo tudo o que foi construído pelas gerações que nos antecederam. São como zumbis saindo dos túmulos da contravenção e destruindo, uma a uma, as construções nacionais, os valores, a solidariedade que conseguiu resistir a séculos de desmandos políticos.
Nos dias que me restam irei à luta, ao som de “Dorme, Dorme Filhinho”, do “Velho Realejo”, do “Chuá Chuá”, do “Som dos Carrilhões”. E “Mariana”, de Edu Lobo, “Luiza”, de Tom Jobim, “Beatriz”, de Chico e Edu, “Clareana”, de Joyce Moreno, e “Dora”, de Dorival Caymmi, para sempre as músicas de minhas meninas. E é por elas e por todas que virão que lutaremos até o fim contra os zumbis.
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