Wagner Gomes
A escalada diplomática entre Brasil e Estados Unidos deixou de ser apenas um conflito entre governos. Às vésperas da eleição presidencial, tarifas, sanções e gestos diplomáticos de Washington passaram a influenciar a disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro. Marco Rubio(foto: Andrew Caballero Reynolds/ AFP) ocupa posição central nessa política. Secretário de Estado e figura influente na estratégia americana para a América Latina, participa das decisões para a região. Atribuir-lhe, entretanto, uma guerra pessoal contra Lula simplificaria uma política que passa também por Donald Trump, por interesses econômicos americanos e pela disputa geopolítica por influência no continente.
A revogação do visto da embaixadora brasileira Maria Luiza Ribeiro Viotti, em meio à demora do Brasil em aprovar o indicado de Trump para a embaixada americana em Brasília, Daniel Perez, expôs a deterioração das relações bilaterais. O governo Lula acusa Washington de interferência política; os Estados Unidos apresentam suas medidas como reação a divergências diplomáticas, comerciais e políticas. É difícil, porém, separar política externa e eleição. Lula incorporou a defesa da soberania nacional ao discurso eleitoral. As tarifas americanas, longe de produzirem benefício automático para a oposição, fortaleceram a narrativa governista de que o Brasil estaria sob pressões externas. Seria precipitado transformar Marco Rubio no grande eleitor do Brasil. As pesquisas revelam uma disputa cerrada e instável. Levantamentos recentes apresentam diferenças conforme o instituto, e alguns até registram empate estatístico entre Lula e Flávio Bolsonaro.
O quadro vai além de uma guerra pessoal de Rubio contra Lula. Há um choque de projetos de política externa. O governo Trump busca ampliar a influência americana sobre a América Latina; Lula procura responder às pressões de Washington afirmando a autonomia brasileira e incorporou essa resistência à sua narrativa eleitoral. Ao tirar proveito do discurso da soberania, Lula tenta eliminar o debate sobre a responsabilidade de seu governo na deterioração das relações bilaterais. A eleição será decidida pelos brasileiros, mas a propalada intervenção americana cedeu o palco à intervenção escancarada do próprio STF. Washington não precisou subir ao palanque: a Corte ocupou esse espaço com decisões atabalhoadas e interpretações enviesadas de seu papel constitucional, confundindo a defesa das instituições com a ampliação do próprio poder. Foi nesse ambiente que Flávio Dino, ao final da melancólica sessão de 15 de setembro, leu notícias sobre possíveis novas sanções americanas contra ministros e as apresentou como pressão ilegítima sobre o Judiciário. O gesto trouxe Washington para o plenário, mas também expôs uma contradição: enquanto denunciava a interferência externa, o Supremo aprofundava sua presença no debate eleitoral. O efeito sobre as urnas permanece incerto. A suspeita de tutela estrangeira, porém, deu lugar à percepção de uma tutela doméstica, exercida de toga e justificada por uma Constituição interpretada à conveniência de seus guardiões.
Wagner Gomes – Articulista