O Brasil tinha 1,499 milhão de crianças e adolescentes de 5 a 17 anos em situação de trabalho infantil em 2025, o equivalente a 4% da população nessa faixa etária, segundo dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua).
O resultado representa o menor nível da série histórica, iniciada em 2016, e corresponde a 151 mil crianças e adolescentes a menos em situação de trabalho infantil em relação ao ano anterior. Apesar da redução de 9,2% em relação a 2024, quando o contingente era de aproximadamente 1,65 milhão, o país ainda registrava quase 1,5 milhão de jovens nessa condição.
A redução, contudo, não elimina a dimensão do problema. Do total registrado em 2025, 525 mil crianças e adolescentes estavam ocupados em atividades incluídas na Lista das Piores Formas de Trabalho Infantil (Lista TIP), que reúne trabalhos considerados perigosos ou prejudiciais à saúde, à segurança e ao desenvolvimento de crianças e adolescentes.
Bolsa Família responde por mais de 95% da queda
A redução do trabalho infantil foi mais intensa entre crianças e adolescentes que viviam em domicílios beneficiados pelo Bolsa Família. Nesse grupo, o número de pessoas de 5 a 17 anos nessa condição caiu de 717 mil, em 2024, para 573 mil, em 2025 — uma diminuição de 144 mil pessoas, ou 20,1%.
Segundo os dados do IBGE, essa redução correspondeu a mais de 95% da queda total registrada no país no período, de 151 mil crianças e adolescentes.
A proporção de jovens em situação de trabalho infantil nos domicílios atendidos pelo programa recuou de 5,2% para 4,4% entre 2024 e 2025. O índice permanece acima da média nacional, de 4%, mas a diferença entre os dois grupos vem diminuindo desde o início da série histórica.
Em 2016, a distância entre a incidência do trabalho infantil nos domicílios beneficiados pelo programa e no conjunto da população de 5 a 17 anos era de 2,1 pontos percentuais.
Os números mostram que os domicílios beneficiários tiveram papel expressivo na redução observada em 2025. A coincidência entre a queda no grupo atendido pelo programa e a retração nacional, porém, não permite atribuir exclusivamente ao Bolsa Família toda a mudança: os dados descrevem a evolução dos dois indicadores, sem isolar todos os fatores envolvidos.
Os adolescentes de 16 e 17 anos representavam 58,1% do total de crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil em 2025. O grupo de 14 e 15 anos correspondia a 23,2%, enquanto crianças de 5 a 13 anos representavam 18,7%.
A incidência do trabalho infantil também aumenta conforme a idade. Entre crianças de 5 a 13 anos, a taxa era de 1,1%. Na faixa de 14 e 15 anos, chegava a 5,9%, alcançando 14,5% entre adolescentes de 16 e 17 anos.
A jornada de trabalho é outro aspecto preocupante. Entre os adolescentes de 16 e 17 anos em situação de trabalho infantil, 29,6% trabalhavam 40 horas ou mais por semana, segundo o levantamento.
A legislação brasileira proíbe o trabalho antes dos 16 anos, exceto na condição de aprendiz a partir dos 14. Mesmo para adolescentes que já podem trabalhar legalmente, existem restrições destinadas a protegê-los de atividades perigosas, insalubres ou prejudiciais à formação e à escolarização.
Sudeste tem mais casos; Norte registra maior proporção
Em números absolutos, o Sudeste concentrava o maior contingente de crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil: 481 mil pessoas, equivalentes a 3,3% da população regional de 5 a 17 anos.
O Norte, por sua vez, apresentava a maior proporção, de 6,3%, correspondente a 249 mil crianças e adolescentes. A distinção entre números absolutos e proporções é importante porque as regiões têm tamanhos populacionais diferentes.
O perfil por sexo e cor ou raça também revela desigualdades. Os meninos representavam 65,4% do total, cerca de 980 mil pessoas. A incidência era maior entre a população negra, de 4,4%, do que entre a população branca, de 3,2%.
As atividades não agrícolas respondiam por 83,3% dos casos. O comércio e a reparação de veículos concentravam 29% das crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil, enquanto a agricultura correspondia a 16,7%.