Ao longo da vida, as perdas se acumulam. Vão-se o pai e a mãe, os avós, os tios e até o enteado querido. Cada ausência marca a contagem regressiva da própria vida. O envelhecimento se revela aos poucos: os filhos tornam-se adultos, encontram seus caminhos, têm seus filhos. E as famílias se recompõem, como podem, depois de cada morte.
Mas nunca havia me deparado com a perspectiva de outra morte: o desaparecimento de uma história. Não apenas da minha história pessoal, mas da construção civilizatória de que participaram gerações. De repente, ganha forma a possibilidade de que tudo seja varrido do mapa nesta eleição. Não apenas direitos sociais, projetos de país e laços de solidariedade, mas o sentido das lutas de nossos pais e avós.
É essa a dimensão da tragédia que vejo numa eventual eleição de Flávio Bolsonaro: a consagração política do homem abrutalhado. A celebração de um tempo em que a civilização pede desculpas à barbárie por ter tentado contê-la.
Liberto das amarras da convivência, dos escrúpulos morais e desse incômodo resíduo de humanidade que os antigos chamavam de decência, o país poderia, enfim, celebrar o reencontro com a brutalidade. O grito no lugar da palavra. A força no lugar do direito.
Durante séculos, uma conspiração de educadores, filósofos, legisladores e moralistas procurou conter os impulsos do bruto. Inventaram a cortesia, o respeito, o pudor, a responsabilidade. Criaram leis para proteger os fracos, regras para limitar os fortes, escolas para enfrentar a ignorância. Chegaram ao desplante de estabelecer que a vontade de um não poderia anular a dignidade do outro.
Que tempos obscuros!
Felizmente — dirão os arautos da nova era —, chegou a emancipação definitiva do bruto.
O homem novo já não precisa distinguir liberdade de licença. A vontade individual, elevada à condição de princípio supremo, dispensa a consideração pelo próximo.
Orgias e surubas podem ser exibidas como troféus de uma suposta liberdade sem limites. A proteção de crianças e adolescentes deveria ser uma fronteira inegociável. No novo mundo, serão normalizadas atitudes como a declaração de Jair Bolsonaro sobre ter “pintado um clima” com adolescentes.
A escola, esse antigo espaço de formação humana, também deve render-se aos novos tempos. Para que professores, se toda autoridade pedagógica pode ser desqualificada como opressão? Para que regras de convivência, se qualquer limite contraria uma vontade? Para que ensinar respeito, se respeitar exige reconhecer a existência do outro?
Que desapareçam os limites nas salas de aula, nos corredores, nos pátios. Que o professor se torne refém da intimidação, que o estudante mais vulnerável aprenda a lei do mais forte e que a comunidade escolar descubra as virtudes pedagógicas do medo.
Eis a glória do homem abrutalhado: chamar de liberdade o poder de constranger; a disposição de humilhar; de autenticidade, a incapacidade de conviver.
É contra essa consagração que o país precisa se erguer. Não para defender um passado idealizado, que nunca existiu, mas para preservar e ampliar os valores, os princípios e os escrúpulos que ajudaram a moldar uma nação, ainda que profundamente imperfeita.
As perdas da vida são inevitáveis. A destruição de uma herança civilizatória, não. Essa ainda podemos impedir.
LEIA TAMBÉM: