A juventude brasileira decidiu ocupar as ruas para enfrentar o avanço da extrema direita e defender a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Desde o início da semana, estudantes universitários e secundaristas protagonizam manifestações, assembleias e passeatas em diferentes regiões do país, transformando a reação ao resultado do primeiro turno em uma nova onda de mobilização popular.
O movimento, iniciado na última segunda-feira (5), na Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói, já alcançou mais de 40 universidades, em 14 estados e no Distrito Federal, segundo levantamento divulgado nesta quinta-feira (8). A mobilização ganhou força com o lançamento da campanha “Estudantes com Lula”, organizada pela União Nacional dos Estudantes (UNE), que estabeleceu um calendário nacional de ações até a véspera do segundo turno, marcado para o dia 25 de outubro.
A resposta das universidades ocorre depois do candidato da extrema-direita, Flávio Bolsonaro (PL), terminar o primeiro turno à frente de Lula, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% do presidente. Diante do resultado, o movimento estudantil assumiu a tarefa de ampliar o diálogo com a população, combater a desinformação e defender a democracia, os direitos sociais e a soberania nacional.
A presidente da UNE, Bianca Borges, anunciou que a entidade manterá uma mobilização permanente. “A partir de agora é estado permanente de mobilização. Os estudantes serão decisivos para reeleger Lula. Não sairemos das ruas!”
De Niterói ao Recife, estudantes iniciam reação nacional
A primeira grande mobilização aconteceu na segunda (5), quando estudantes da Faculdade de Direito da UFF se reuniram para discutir o cenário eleitoral. O que seria uma assembleia transformou-se em passeata, com jovens marchando do campus do Gragoatá até Icaraí, em Niterói. Na terça-feira (6), os estudantes voltaram às ruas da cidade, mesmo debaixo de chuva e com mais barulho, seguindo em direção à Praça Arariboia.
No Recife, estudantes da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) também se mobilizaram na terça, em um ato realizado no Centro de Artes e Comunicação. A manifestação defendeu a universidade pública, o financiamento da ciência e a autonomia universitária.
Na quarta-feira (7), o movimento ganhou ainda mais força. No Rio, estudantes da UFRJ, UFF, Unirio e de escolas públicas ocuparam o centro da capital, em uma caminhada da Candelária à Cinelândia. Na Bahia, universitários da UFBA saíram da Faculdade de Educação, no campus do Canela, e seguiram até o Largo da Vitória, em Salvador.
Em Porto Alegre, estudantes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) realizaram uma assembleia que reuniu expressiva participação da comunidade universitária.
Para o presidente da Federação Nacional de Estudantes de Direito (Fened), Hugo Silva, a mobilização é uma resposta à ameaça de retrocessos democráticos. “Costumam dizer que a juventude é o futuro do Brasil, mas nós somos o presente. E é agora que queremos ter garantido o nosso direito à universidade pública, à saúde de qualidade, à educação e às políticas sociais que transformam a vida do nosso povo.”
A mobilização também envolve entidades sindicais, movimentos populares e organizações da juventude, que buscam ampliar a presença nas ruas durante o segundo turno.
Mackenzie e Rua Maria Antônia: a memória de 1968 volta à cena
Já em São Paulo, na noite desta quinta (8), a histórica Rua Maria Antônia voltou a ser palco de uma disputa política. Estudantes da Universidade Presbiteriana Mackenzie, acompanhados por alunos da USP, da PUC-SP e integrantes do movimento estudantil, realizaram uma manifestação em apoio à reeleição de Lula, marcada por momentos de tensão com apoiadores de Flávio Bolsonaro (PL).
O ato começou por volta das 19h, depois que a reitoria do Mackenzie proibiu manifestações político-partidárias dentro do campus, em resposta à convocação de uma assembleia pró-Lula. A decisão provocou a reação de estudantes organizados no coletivo “Mack com Lula”, que levaram a mobilização para a rua.
Durante a manifestação, apoiadores de Flávio Bolsonaro, reunidos em estabelecimentos da região, trocaram provocações e xingamentos com participantes do ato estudantil. A Polícia Militar interveio, interditou a Rua Maria Antônia e acompanhou a passeata, que seguiu em direção à Praça Roosevelt sem confrontos diretos.
O episódio tem um signficado de peso. Foi nessa mesma rua que, em outubro de 1968, durante a ditadura militar, ocorreu a chamada Batalha da Maria Antônia quando estudantes da antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP enfrentaram grupos de extrema direita, entre eles integrantes do Comando de Caça aos Comunistas (CCC).
O confronto terminou com a morte do estudante José Guimarães. Passados 58 anos, a mesma rua volta a reunir estudantes em uma manifestação política, recuperando a memória das lutas democráticas.
UNE quer levar mobilização dos campi para os bairros
A campanha “Estudantes com Lula” pretende transformar as manifestações em uma mobilização permanente até o segundo turno. A orientação da UNE é que cada assembleia se desdobre em ações concretas, com panfletagens, conversas com eleitores e atividades em bairros populares, terminais de transporte e espaços públicos.
A entidade considera que a disputa não pode ficar restrita às redes sociais ou aos estudantes que já apoiam o presidente. O objetivo é conversar com os indecisos, com quem não votou no primeiro turno ou ainda não está convencido.
Bianca Borges resumiu a estratégia adotada pela juventude: “Temos combinado ruas e redes: a rede para alcançar uma geração que recebe informação pelo celular, mas também entendendo que nenhuma estratégia digital substitui a conversa olho no olho.”
A aposta é que a energia dos estudantes alcance outros setores sociais e ajude a transformar a mobilização estudantil em uma força de participação popular na reta final da eleição.
Atos estudantis se espalham pelo Brasil
A programação divulgada pelos organizadores reúne atividades nas cinco regiões do país. Além das manifestações realizadas ao longo desta semana, novos atos estão previstos até o dia 19 de outubro. *Confira a agenda dos próximos atos estudantis.
Sexta-feira, 9 de outubro
Sudeste
- Belo Horizonte (MG) — 17h, Praça Afonso Arinos (UFMG).
- Ouro Preto (MG) — 17h, campus Morro do Cruzeiro (UFOP).
- São João del-Rei (MG) — 17h30, campus Dom Bosco (UFSJ).
- São Gonçalo (RJ) — 16h, Praça dos Ex-Combatentes (UERJ/FFP).
- Maricá (RJ) — 17h, Praça Orlando de Barros Pimentel.
Nordeste
- Maceió (AL) — 18h, campus Maceió do IFAL; 19h, Reitoria da UFAL.
- Salvador (BA) — 15h30, em frente ao Shopping da Bahia (UFBA).
- Crato (CE) — 16h30, campus São Miguel (URCA).
Norte
- Altamira (PA) — 18h, portão da Área II da UFPA.
Sábado, 10 de outubro
Norte
- Manaus (AM) — 16h, mobilização da UEA; local não informado.
- Bragança (PA) — 18h, Praça do Minha Casa Minha Vida (IFPA e UFPA).
Domingo, 11 de outubro
Sudeste
- Campinas (SP) — 11h, Largo do Rosário (Unicamp).
Norte
- Manaus (AM) — 16h, Largo São Sebastião (UFAM).
Terça-feira, 13 de outubro
Sudeste
- Vitória (ES) — 16h30, Teatro da UFES, campus Goiabeiras.
Nordeste
- Feira de Santana (BA) — 16h, em frente ao Colégio Gastão (UEFS).
- Pau dos Ferros (RN) — 9h, UERN.
- Caicó (RN) — 18h13, campus da UFRN.
Sul
- Pelotas (RS) — 12h, campus Pelotas do IFSul.
Centro-Oeste
- Brasília (DF) — 16h, Museu da República (UnB).
Sábado, 17 de outubro
Nordeste
- São Luís (MA) — 16h, Praça João Lisboa, Centro (UFMA).
Segunda-feira, 19 de outubro
Sudeste
- Niterói (RJ) — 12h, em frente ao Colégio Estadual Liceu Nilo Peçanha.
*Datas, horários e locais estão sujeitos a alterações pelos organizadores.
__
com agências