Flávio Bolsonaro domina cidades mais afetadas pelo tarifaço dos EUA

Flávio Bolsonaro e Donald Trump no Salão Oval da Casa Branca
Flávio Bolsonaro e Donald Trump no Salão Oval da Casa Branca. Foto: Reprodução/Redes sociais

O senador Flávio Bolsonaro (PL) venceu em 92 dos 100 municípios brasileiros mais afetados pelas tarifas impostas pelos Estados Unidos a produtos do Brasil. O resultado contrasta com a estratégia do presidente Lula (PT) de associar o candidato do PL à política comercial de Donald Trump. Com informações de Folha de S.Paulo.

O levantamento cruzou as exportações municipais aos Estados Unidos em 2025 com a relação de produtos submetidos às novas tarifas americanas. Lula liderou em apenas oito das cem cidades selecionadas.

Em Piracicaba, no interior de São Paulo, primeiro lugar do ranking de municípios mais expostos, a estimativa aponta R$ 5,4 bilhões anuais em exportações sujeitas às tarifas. Flávio recebeu 63,4% dos votos válidos no domingo (4), ante 27,6% de Lula.

Vista aérea da cidade de Piracicaba (SP). Foto: Reprodução/depositphotos.com

O desempenho do senador em Piracicaba superou o de Jair Bolsonaro (PL) no primeiro turno de 2022, quando o ex-presidente teve 61,1% dos votos e Lula somou 29,4%. A cidade concentra indústrias de máquinas e equipamentos.

Municípios mudaram de lado desde a eleição de 2022

Oito das cem cidades mais atingidas pelo tarifaço inverteram o resultado eleitoral em relação a 2022 e escolheram Flávio Bolsonaro. Entre elas estão Ouro Branco, em Minas Gerais, onde a siderurgia tem peso na economia local, Ribeirão Pires, em São Paulo, e Bituruna, no Paraná.

O levantamento deixou as capitais fora do ranking porque, embora algumas tenham exportações taxadas em valores elevados, suas economias são mais diversificadas. A classificação considerou o valor dos bens exportados em 2025 que podem sofrer cobrança adicional nos Estados Unidos.

A gestão Trump anunciou as tarifas em julho, após investigar práticas comerciais brasileiras. Os Estados Unidos aplicaram duas rodadas de alíquotas, de 25% e 12,5%, que se somam em muitos produtos e alcançam 37,5%.

Estudo da Confederação Nacional da Indústria estima que cerca de R$ 55 bilhões em mercadorias brasileiras enfrentam a dupla tributação. A análise classificou como taxados os produtos que sofrem ao menos uma das duas alíquotas, ainda que a categorização por mercadorias não seja idêntica nos dois países.

Durante a campanha, o PT passou a usar o termo “tariflávio” para vincular o senador às medidas de Trump e à proximidade da família Bolsonaro com o presidente americano. Em 2025, Eduardo Bolsonaro agradeceu nas redes sociais a Trump pelo anúncio de uma tarifa de 50% contra exportações brasileiras, medida que Washington revogou depois.

Para o professor Feliciano Guimarães, do Instituto de Relações Internacionais da USP, uma hipótese é que eleitores das regiões diretamente prejudicadas tenham responsabilizado Lula pelos efeitos da cobrança. “Acho que nessas regiões, em que as tarifas têm um impacto direto, há uma penalização maior do presidente por não defender aquele setor em particular”, afirmou.

O cientista político José Niemeyer, professor do Ibmec no Rio de Janeiro, avaliou que o discurso de soberania econômica defendido por Lula pode não ter alcançado parte desse eleitorado. “Talvez os temas internacionais não tenham sido tão impactantes para o resultado da eleição”, disse.

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