
Um site de criptomoedas passou a oferecer tokens a usuários que compartilharem mensagens e vídeos com incentivo ao voto no senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência. A plataforma B22 lançou a iniciativa na terça-feira (6) e condiciona a distribuição dos ativos à divulgação do projeto nas redes sociais. Com informações da Folha.
O esquema ganhou divulgação pelo perfil HypersKidsAfrica, no Instagram, que reúne 12,9 milhões de seguidores e arrecada recursos para a construção de casas para crianças em Uganda. Um vídeo de crianças com camisetas amarelas estampadas com “B22 token”, cantando “vota, vota e confirma, 22 é Bolsonaro”, alcançou 1,2 milhão de visualizações.
Na gravação, as crianças pedem que o público compre e compartilhe a B22 e afirmam: “Por favor, confiem em Nikolas Ferreira, Flávio Bolsonaro, Pablo Marçal”. O site diz que uma parte das vendas da criptomoeda irá financiar projetos para as crianças em Kampala, capital de Uganda.
A página informa que os participantes podem receber tokens, com eventual benefício financeiro por valorização, caso publiquem em suas redes que fazem parte da comunidade B22. A plataforma se apresenta como “um movimento que une apoio ao voto 22 e a proposta de ajudar as HypersKids a concluir sua casa em Kampala”.
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Especialistas comparam modelo a concurso de cortes de Pablo Marçal
O advogado eleitoral Hélio Silveira, que coordenou a equipe jurídica de Tabata Amaral na eleição municipal de São Paulo em 2024, afirmou que a estrutura se assemelha aos campeonatos de cortes promovidos por Pablo Marçal. “Trata-se da mesma lógica e estrutura do que Marçal fazia, oferece incentivos financeiros para as pessoas divulgarem a campanha e o candidato”, disse.
Para Silveira, a operação pode caracterizar doação empresarial à campanha de Flávio Bolsonaro, por usar incentivos financeiros e a estrutura de uma empresa para promover o voto no número 22. A legislação eleitoral veda a concessão de vantagem econômica em troca de propaganda eleitoral na internet.
Marçal recebeu condenação por abuso de poder econômico pelos campeonatos de cortes de vídeo durante a disputa pela Prefeitura de São Paulo. Em dezembro de 2025, o Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo manteve sua inelegibilidade por oito anos no processo sobre o concurso que premiava participantes com maior número de visualizações.
O site B22 afirma que a distribuição dos tokens é “independente de voto, preferência eleitoral ou divulgação de propaganda eleitoral” e nega vínculo oficial com políticos, partidos, candidaturas ou campanhas. A campanha de Flávio Bolsonaro informou que responderia aos questionamentos.
Perfis atribuídos a Kevim Flores no X e no Instagram divulgaram o lançamento da B22, imagens de urnas com o número 22 e previsões de valorização da moeda em caso de vitória de Flávio Bolsonaro. O registro do site aparece como privado em repositórios, e Flores não se identifica claramente como proprietário da plataforma.
A pesquisadora Nina Santos, do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital, avaliou que a iniciativa mistura criptoativos, ação humanitária, visibilidade nas redes e campanha eleitoral. “Primeiro que uma pessoa jurídica não pode fazer campanha eleitoral, então isso por si só já deveria ser proibido”, afirmou.