A ultrapassagem de Flávio Bolsonaro sobre Lula no primeiro turno não foi provocada por uma explosão de votos no candidato do PL. Na análise do cientista político Antonio Lavareda, o movimento ocorreu principalmente porque Lula perdeu eleitores entre a pesquisa e a urna e esses votos foram parar na abstenção. “Isso é uma ilusão de ótica”, afirmou Lavareda em entrevista ao Programa do Noblat, do Metrópoles.
Para ele, a ideia de que Flávio teria produzido uma arrancada decisiva na reta final não resiste à comparação entre as pesquisas e o resultado do primeiro turno. Às vésperas da eleição, Flávio aparecia com cerca de 35% do eleitorado total. Terminou com 35,34%. “Ou seja, arredondando, os mesmos 35% que estavam projetados para ele”, observou.
Lula aparecia com aproximadamente 39% e chegou às urnas com cerca de 34%. É a diferença que explica a ultrapassagem. “E por que é que ele passou o Lula? Não foi que ele tenha passado o Lula. O Lula perdeu votos e ficou atrás dele, como se um corredor numa disputa começasse a correr para trás”, disse Lavareda. Na sequência, resumiu a conta de forma ainda mais simples: “O Lula tinha 39 no total e chegou na urna com 34, perdeu cinco pontos. Perdeu para quem? Perdeu para a abstenção.”
A vantagem de Flávio existe. O que muda é a explicação para ela. O senador chegou ao primeiro turno preservando praticamente o tamanho que as pesquisas projetavam; Lula não conseguiu levar para a urna toda a força que aparecia nas intenções de voto.
Quem deixou de votar
Lavareda chama atenção para um detalhe que fica escondido quando o resultado é resumido apenas pela posição dos candidatos: a abstenção quase não mudou em relação à eleição anterior. A alta ficou entre 0,13% e 0,16%. Para ele, o ponto está em quem deixou de votar.
O cientista político retoma sua análise de 2022 e afirma que parcelas mais pobres da população têm maior dificuldade de comparecer às urnas e estão concentradas entre os eleitores de Lula. Isso ajuda a explicar por que parte dos votos perdidos pelo presidente não migrou para Flávio, mas ficou fora da urna.
Flávio, por outro lado, cresceu durante a campanha e recebeu votos de candidatos da chamada terceira via. Mas, segundo Lavareda, esse movimento já estava captado pelas pesquisas. Assim, o raciocínio fica mais claro: Lula perdeu votos para a abstenção; Flávio incorporou votos ao longo da campanha, mas não teve uma arrancada que explique, por si só, a ultrapassagem no primeiro turno.
O segundo turno começa com outra conta
No segundo turno, Lula terá pela frente a disputa pelos votos dos candidatos que ficaram fora da nova etapa e, ao mesmo tempo, a possibilidade de recuperar eleitores que não compareceram às urnas no primeiro turno. Lavareda avalia que parte dos votos da chamada terceira via deve migrar para Flávio, movimento que já aparecia nas pesquisas.
Para o cientista político, a mobilização do eleitorado será um dos pontos centrais da nova disputa. Em 2022, cerca de 560 mil eleitores a mais foram às urnas no segundo turno em relação ao primeiro. A disputa, portanto, não estará apenas nos votos que mudam de candidato, mas também na capacidade de cada campanha de levar seu eleitor às urnas.
A disputa pela presença
O primeiro turno deixou Flávio à frente, mas, na análise de Lavareda, sem uma arrancada acima do que as pesquisas já indicavam. O senador manteve seu patamar, enquanto Lula perdeu parte dos votos que apareciam nas intenções de voto.
Para o segundo turno, isso abre outra frente de disputa: além de conquistar novos eleitores, Lula pode recuperar parte dos que já estavam com ele, mas não foram às urnas. A mobilização, portanto, passa a ter peso na nova etapa da eleição. O desafio não está apenas em mudar a escolha de quem votou em outro candidato, mas também em transformar intenção em presença nas urnas.