Da Redação
Ciro Gomes perdeu a eleição para o governo do Ceará. Dois dias depois, em vez de reconhecer a vitória de Elmano de Freitas e apresentar sua leitura sobre o resultado, publicou um manifesto no qual contesta a própria legitimidade da escolha feita nas urnas. A derrota eleitoral, então, ganha uma segunda dimensão: Ciro também parece perder a capacidade de encerrar uma disputa estadual como uma disputa estadual. O manifesto rapidamente abandona o Ceará e volta a colocá-lo diante de uma suposta missão nacional.
Elmano foi reeleito no primeiro turno com 2.875.573 votos, 53,19% dos votos válidos. Ciro recebeu 2.498.891, 46,22%. Foram 376.682 votos de diferença. Ciro, entretanto, afirma que “ele não ganhou” e que Elmano e sua “organização criminosa tomaram as eleições”. Também diz que não cumprimentou o governador reeleito e anuncia que sua campanha pretende levar a contestação à Justiça Eleitoral. As acusações de fraude são apresentadas por Ciro, sem que tenham sido estabelecidas como fato.
O manifesto poderia terminar na contestação eleitoral. Não termina. Depois de falar sobre pobreza, segurança, alfabetização, contas públicas e fila da regulação no Ceará, Ciro amplia o alvo e transforma a derrota estadual em uma acusação contra as instituições nacionais. Ataca Dias Toffoli, questiona decisões do STF e conclui que “a República brasileira apodreceu”. O resultado é um texto em que a eleição para governador passa a servir também como palco para Ciro reafirmar uma posição que pretende ultrapassar os limites do Ceará.
Essa ambição nacional não surgiu depois da derrota. Ela estava presente antes mesmo da campanha. Em maio, Ciro havia sido convidado pelo PSDB para disputar a Presidência da República, mas decidiu concorrer ao governo do Ceará. Segundo a Folha, a escolha ocorreu depois de conversas com integrantes do PL e foi apresentada como uma decisão de concentração política no Estado. A CNN registrou que Ciro entendia ser necessário “recuperar” o Ceará e que havia sido chamado para voltar à disputa presidencial.
O movimento produz uma situação curiosa. Ciro abriu mão da disputa presidencial para tentar retornar ao governo que já havia ocupado. Perdeu para Elmano. Na sequência, seu manifesto recupera precisamente a escala nacional que havia deixado de lado na hora de escolher a candidatura. O adversário já não é apenas Elmano. Entram no texto Lula, o STF, Dias Toffoli e a própria República brasileira.
É nesse deslocamento que a dimensão de egotrip do manifesto se torna mais evidente. O texto começa como uma prestação de contas aos 2.498.890 eleitores que votaram em Ciro, mas rapidamente se transforma em uma narrativa sobre o papel histórico do próprio candidato. Ele diz que “lutou para mudar o Ceará”, afirma que “segue lutando” e apresenta sua derrota como parte de uma batalha maior contra aquilo que considera a degradação das instituições brasileiras.
A escolha das palavras também revela a dificuldade de lidar com o resultado. Ciro afirma que já ganhou e perdeu eleições e que “nunca repudiou o resultado das urnas”. Logo depois, porém, escreve que não cumprimentou o candidato vitorioso porque, segundo sua interpretação, ele não venceu. A contradição está registrada no próprio manifesto.
Há ainda uma segunda derrota eleitoral que aparece no resultado político da chapa. Além de perder o governo para Elmano, Ciro viu os dois candidatos ao Senado que apoiava, Capitão Wagner e Alcides Mendonça, serem derrotados. Seu irmão, Cid Gomes, foi reeleito senador, ao lado de Luizianne Lins. O balanço das urnas, portanto, não produziu apenas a derrota pessoal de Ciro na disputa pelo governo. Também mostrou os limites da composição política que sustentou sua candidatura.
Mesmo assim, o manifesto praticamente não dedica espaço à análise dessa derrota política. O foco retorna ao próprio Ciro e à tese de que sua candidatura teria sido impedida de vencer por forças externas. A explicação para o resultado passa a ser uma narrativa de fraude, propaganda irregular e interferência judicial.
A primeira derrota de Ciro foi definida pelos votos. A segunda aparece na tentativa de substituir o resultado por uma narrativa na qual sua derrota deixa de ser uma derrota e passa a ser apresentada como prova de que ele estava certo sobre o Ceará, sobre o PT, sobre o STF e, em última instância, sobre o Brasil.
O eleitor cearense escolheu. Ciro não reconhece essa escolha como suficiente para explicar o resultado. Seu manifesto faz outra operação: transforma a eleição que perdeu em mais um capítulo da história política que ele continua escrevendo sobre si mesmo.
Depois de escolher o Ceará em vez da Presidência, perder o Ceará e contestar a escolha dos cearenses, Ciro volta ao plano nacional. A eleição termina nas urnas. Para ele, aparentemente, a derrota continua como destino.