
Por Leonardo Sakamoto, publicado no UOL
O ministro Kassio Nunes Marques decidiu sentar em cima do pedido de soltura de Jair Bolsonaro, disse que vê exageros na condenação e avisou que vai analisar o caso logo após o segundo turno das eleições. Traduzindo: se Flávio Bolsonaro vencer a disputa presidencial contra Lula, o magistrado se sentirá muito mais à vontade para votar pela sonhada liberdade ao ex-presidente. Por mais que a decisão passe pelo plenário da corte, na prática, Kassio transformou o segundo turno em um grande plebiscito para perdoar um criminoso.
É preciso desenhar e frisar o óbvio, pois a memória no Brasil é péssima. Jair Bolsonaro não está preso porque esqueceu de pagar multas por excesso de velocidade na Via Dutra, mas foi condenado a 27 anos e três meses de prisão porque orquestrar um golpe de Estado. Foi uma tentativa de ruptura, fracassada e tosca, mas ainda assim criminosa.
Se eleito, Flávio Bolsonaro irá tirar o pai da cadeia, tendo inclusive já prometido um indulto presidencial e projetado subir a rampa do Palácio do Planalto ao lado dele em 1º de Janeiro de 2027. Prometeu também não buscar a reeleição, o que não deveria alegrar o governador Tarcísio de Freitas, natural pretendente ao Planalto. O próprio presidente do PL, Valdemar da Costa Neto, já deixou o roteiro claro: Flávio vai apenas esquentar a cadeira por quatro anos para que, em 2030, Jair tente sentar a bunda nela novamente.

Neste momento, Kassio, assim como Flávio Bolsonaro, estão ligados por laços muito maiores do que o fato de o segundo ter sido fundamental na indicação do primeiro so STF. Ambos são citados em relações para lá de constrangedoras com o bandido-Master do Brasil, Daniel Vorcaro. Além de a “Turma do KN” ter fechado um contrato de R$ 427 milhões com o banqueiro, há citações diretas sobre o pagamento de garotas de programa e o aluguel de casas de luxo ao ministro.
Já Flávio pediu R$ 130 milhões sob a esfarrapada justificativa de fazer um filmes sobre o pai. Ele é formalmente investigado por corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas, pois essa fortuna colossal pode ter desviada direto para o bolso da própria família.
Ao afirmar a interlocutores que não quer “interferir nas eleições” segurando o processo na gaveta, Kassio Nunes Marques faz exatamente a maior das interferências. Se ele julgasse o caso agora, prejudicaria a campanha de Flávio, pois ficaria claro que o apadrinhado ajudaria o padrinho. E, neste momento, há uma chance maior de o pedido ser rapidamente levado ao plenário e negado. Assim, terceiriza para as urnas o papel do Poder Judiciário e condiciona a soltura de um golpista condenado na cadeia à conveniência do resultado eleitoral.