Inquérito sobre morte da estudante de 22 anos foi concluído pela Polícia Civil do Ceará; investigação não responsabilizou João Munhoz por induzimento ou auxílio ao suicídio
Da Redação
A Polícia Civil do Ceará concluiu o inquérito sobre a morte da estudante de Direito Isabelle Caracristi, de 22 anos, e indiciou o namorado dela, João Munhoz Neto, pelos crimes de violência psicológica e obstrução de Justiça. As informações foram divulgadas nesta terça-feira (6) pelo Diário do Nordeste. A investigação, segundo o jornal, não responsabilizou o bacharel em Direito por induzimento, instigação ou auxílio ao suicídio.
Isabelle morreu em 13 de setembro, após cair do 23º andar de um edifício residencial no bairro Aldeota, em Fortaleza. A investigação passou a examinar não apenas as circunstâncias da queda, mas também o relacionamento mantido pela jovem com João, que havia começado cerca de dois meses antes da morte. Segundo os elementos reunidos pela polícia, Isabelle teria passado por uma sequência progressiva de violência psicológica e apresentado manifestações cada vez mais intensas de sofrimento.
De acordo com a investigação, a estudante relatava sentir-se ameaçada, manipulada, pressionada, sobrecarregada e presa. As autoridades também apontaram que ela dizia que determinadas condutas do namorado lhe faziam mal e estavam afetando sua saúde. João e Isabelle também tinham uma relação profissional. Ela havia conseguido uma vaga de estágio no escritório de advocacia onde ele trabalhava.
A investigação encontrou relatos de que João teria ampliado rapidamente sua participação na vida da estudante. Conforme documentos citados pelo Diário do Nordeste, ele teria passado a interferir em aspectos familiares, financeiros, sexuais e profissionais da vida de Isabelle, além de exigir acesso permanente à localização dela. O conjunto foi apontado pelos investigadores como indicativo de controle coercitivo.
A jovem chegou a deixar a casa da mãe para morar com João, o irmão e a mãe dele. Segundo depoimento citado na investigação, o proprietário do escritório onde os dois trabalhavam teria ouvido de Isabelle que o namorado, que também ocupava uma posição profissional superior à dela, não permitia que ela desempenhasse determinadas funções sozinha.
Um dos elementos mais relevantes reunidos no inquérito é um áudio enviado por Isabelle a um familiar aproximadamente uma hora antes de sua morte. Por volta das 19h40 daquele 13 de setembro, ela pediu que o áudio não fosse apagado e solicitou uma resposta. Segundo o depoimento do familiar, a estudante afirmou que, caso alguma coisa acontecesse com ela, aquela gravação seria uma prova.
Na mesma conversa, Isabelle relatou que se sentia explorada pelo namorado e que não suportava mais os jogos emocionais que, segundo ela, eram praticados por João. Também afirmou que pretendia denunciá-lo à Justiça do Trabalho por causa da rotina que enfrentava no escritório de advocacia. Cerca de uma hora depois, às 20h40, foi registrado o impacto da queda.
Indiciamento não inclui acusação de indução ao suicídio
Apesar de ter identificado violência psicológica, a Polícia Civil não indiciou João Munhoz por induzimento, instigação ou auxílio ao suicídio. Essa diferença é importante porque a investigação buscou inicialmente esclarecer também se as condutas atribuídas ao namorado poderiam ter contribuído diretamente para a morte da estudante. Ao concluir o inquérito, a polícia não responsabilizou João por esse crime.
João chegou a ser preso preventivamente em 22 de setembro, durante a investigação. A Justiça do Ceará posteriormente revogou a prisão após manifestação favorável do Ministério Público. A decisão estabeleceu medidas cautelares, incluindo monitoramento eletrônico, proibição de deixar a comarca e distanciamento dos familiares de Isabelle.
A defesa de João contesta as conclusões da investigação. Em manifestação divulgada após o indiciamento, a advogada Lígia Peixe afirmou que não houve obstrução de Justiça e sustentou que o cliente colaborou com as autoridades desde o início. Segundo ela, João entregou o próprio telefone à polícia e se apresentou para prestar esclarecimentos quando solicitado.
A defesa também rejeita a acusação de violência psicológica e afirma que o relacionamento teria sido muito breve para produzir o quadro descrito pela investigação. A advogada sustenta ainda que problemas pessoais anteriores da estudante deveriam ser considerados na apuração e afirma confiar na Justiça para demonstrar a inocência de João.
O caso, portanto, chega a uma nova etapa com uma distinção importante entre o que foi apontado pela polícia e aquilo que ainda será submetido à análise do Ministério Público e da Justiça. O indiciamento representa a conclusão da investigação policial sobre a existência de indícios de determinados crimes, mas não equivale a uma condenação.
A morte de Isabelle mobilizou familiares, amigos e colegas de universidade desde setembro. O irmão da estudante, Rafael Magalhães, contou ao Diário do Nordeste que ela pretendia seguir carreira no Direito e tinha interesse em atuar na defesa de direitos de crianças e mulheres. A família também vem acompanhando o processo judicial em busca do esclarecimento das circunstâncias que antecederam a morte.
Com o encerramento do inquérito, caberá agora às instituições responsáveis pela persecução penal avaliar as conclusões da Polícia Civil e decidir os próximos passos do caso. A investigação estabelece, de um lado, a existência de elementos que levaram ao indiciamento por violência psicológica e obstrução de Justiça. De outro, não atribui a João Munhoz responsabilidade pelo crime de induzimento, instigação ou auxílio ao suicídio.
A apuração sobre a morte de Isabelle, que tinha 22 anos, entra assim em uma fase judicial na qual as provas reunidas pela polícia serão analisadas pelas demais autoridades responsáveis pelo caso.