Levantamento do projeto VigIA, da agência de checagem Lupa, identificou 554 vídeos e imagens classificados como deepfakes durante o período analisado da campanha para o primeiro turno das eleições de 2026. O número representa 60% dos 920 conteúdos produzidos ou modificados com inteligência artificial (IA) examinados entre 16 de agosto e 28 de setembro.
Do total de deepfakes identificados, 29 foram publicados por perfis de candidatos ou partidos. A utilização desse tipo de conteúdo pode resultar em sanções eleitorais, conforme as regras estabelecidas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Deepfakes são materiais criados ou manipulados por ferramentas de inteligência artificial para fazer uma pessoa real parecer dizer ou fazer algo que não ocorreu. Entre os casos mais frequentes encontrados pelo levantamento estão vídeos que simulam jornalistas divulgando informações falsas e gravações em que celebridades aparecem, sem que isso tenha ocorrido, declarando apoio a candidatos.
O TSE proibiu o uso de deepfakes em propaganda eleitoral quando o conteúdo tiver potencial de enganar o eleitor. Dependendo do caso, a prática pode levar à cassação de candidatura ou mandato.
Publicações
O levantamento aponta que a maior parte dos conteúdos falsos foi produzida por usuários comuns. Ao todo, 525 das publicações foram atribuídas a esse grupo, que inclui contas anônimas.
Para Beatriz Farrugia, pesquisadora responsável pelo relatório, a predominância de usuários comuns representa um desafio para a fiscalização eleitoral, especialmente diante da dificuldade de identificar os responsáveis por conteúdos publicados por contas anônimas ou avatares.
O VigIA registrou inicialmente 1.941 conteúdos político-eleitorais considerados suspeitos. Até o momento, 972 imagens e vídeos passaram por análise, com 920 casos confirmados de utilização de inteligência artificial.
A pesquisa é realizada em parceria com o Laboratório de Inteligência Artificial (Recod.ai), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Três ferramentas de detecção são utilizadas para identificar possíveis sinais de manipulação por IA, e os resultados são posteriormente avaliados pelos pesquisadores.
Maioria dos conteúdos não informa uso de IA
O levantamento também identificou problemas relacionados à identificação dos conteúdos produzidos com inteligência artificial. A legislação permite o uso da tecnologia em materiais eleitorais, desde que a utilização de IA seja informada de maneira adequada.
Dos 920 conteúdos analisados, apenas 371, cerca de 40%, estavam identificados como produzidos ou modificados com inteligência artificial. Os outros 549 não apresentavam a sinalização exigida. Entre estes, 75 foram publicados por candidatos ou partidos.
Além dos deepfakes, o estudo encontrou conteúdos sintéticos nos quais a inteligência artificial foi usada para criar ou alterar elementos das publicações, sem necessariamente atribuir a pessoas reais declarações ou comportamentos que não ocorreram.
Para Cristina Tardáguila, fundadora e gerente de Inteligência e Formação da Lupa, os resultados indicam que a inteligência artificial já está incorporada à comunicação política durante o período eleitoral.
Promoção de candidaturas
A promoção de candidaturas foi a finalidade mais frequente entre os 920 conteúdos analisados. Foram 414 casos, equivalentes a 45% do total.
Em cerca de um quarto das publicações, a inteligência artificial foi utilizada para produzir ataques contra candidatos ou outras pessoas. Uma proporção semelhante envolveu conteúdos de humor ou sátira.
As eleições presidenciais concentraram a maior parte das publicações. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição, foi a figura pública mais retratada, aparecendo em 379 conteúdos. Flávio Bolsonaro (PL) apareceu em 190.
Entre os conteúdos que retratavam Lula, 39% tinham caráter humorístico ou satírico e 34% apresentavam ataques à candidatura. Já entre as publicações envolvendo Flávio Bolsonaro, 40% buscavam favorecer sua candidatura e 28% tinham conteúdo de humor ou sátira.
Perfis desconhecidos
Na análise geral, 47% dos conteúdos foram publicados por usuários comuns. Perfis desconhecidos responderam por 27% das publicações, enquanto 24,5% foram associados a contas oficiais de candidaturas.
Os dados indicam que o uso de inteligência artificial na comunicação eleitoral ocorre tanto em perfis ligados diretamente às campanhas quanto entre usuários comuns e contas cuja identificação é mais difícil. Para os pesquisadores, esse cenário amplia os desafios de fiscalização e de aplicação das regras eleitorais durante a campanha.
*Com informações da Agência Brasil.
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