Entre o papel e o endereço: o que está em jogo para LGBTQIA+ e periferias neste domingo

Arte: MST

Por Vítor Peruch
Da Página do MST

Em Brasília, um direito é um papel assinado. No assentamento, é ser chamada pelo nome certo no posto de saúde. Na periferia, é acordar sabendo que a casa continua de pé. É nessa distância, entre o que está escrito e o que chega ao endereço, que se decide a eleição deste domingo (4).

Os números dão a medida do que está em disputa. O Brasil tinha, em 2024, um déficit de 5,77 milhões de moradias, e cerca de 62% desse total vinha do aluguel que devora a renda das famílias, segundo dados da Fundação João Pinheiro divulgados pela Abecip. A Campanha Despejo Zero contabilizou, em balanço de 2025, cerca de 2,1 milhões de pessoas despejadas ou ameaçadas de remoção, sendo 1,39 milhão delas negras. E pesquisadoras ouvidas pelo Jornal da USP concluem que boa parte das políticas para a população LGBTQIA+ “ou não saem do papel ou têm efeitos apenas pontuais”.

Duas populações, duas realidades, uma mesma pergunta. O Estado vai aparecer ou vai se retirar? E, se aparecer, para proteger quem?

“Não basta comparar discursos”

Foto: Antônio Cruz/Agência Brasil

Para Luana Oliveira, da Coordenação Nacional do Coletivo LGBTI Sem Terra, o debate eleitoral costuma errar a escala. “Não basta comparar discursos; é preciso perguntar se a pessoa LGBTI consegue viver, estudar, trabalhar, produzir e buscar atendimento com segurança no seu território”, afirma.

A diferença entre os governos de Jair Bolsonaro e Lula, na avaliação dela, aparece na forma como o Estado se relaciona com essa população. “No governo Bolsonaro, houve descontinuidade e enfraquecimento de estruturas e políticas específicas, além de perda de espaços de participação social, e isso tem consequências concretas: quando uma política deixa de ter equipe, orçamento e interlocução com os movimentos, fica mais difícil enfrentar a violência e exigir atendimento digno.”

Um estudo publicado na Revista de Estudios Brasileños, da Universidad de Salamanca, ajuda a documentar essa mudança. O pesquisador Leonam Lucas Nogueira Cunha analisou o primeiro ano do governo Bolsonaro, em 2019, e registrou que o Ministério dos Direitos Humanos foi reorganizado e rebatizado como Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos. As diretrizes de direitos humanos que orientavam o órgão deixaram de mencionar as minorias sexuais, e uma secretaria dedicada às demandas LGBT foi extinta. O autor também descreve a aproximação da então ministra Damares Alves com grupos que defendem rever a norma do Conselho Federal de Psicologia que proíbe terapias de “reorientação sexual” e a presença do Brasil em debates da ONU, onde a diplomacia propôs retirar o termo “gênero” de resoluções.

O mesmo trabalho lista números do período: 2.964 violações de direitos humanos de caráter LGBTIfóbico registradas pelo Ministério dos Direitos Humanos em 2016, e 167 pessoas trans assassinadas entre janeiro de 2017 e setembro de 2018, segundo o dossiê da Antra. Cunha argumenta, a partir da teoria queer, que um discurso oficial que ridiculariza ou deslegitima essas identidades coloca o ódio “num lugar de aceitabilidade e validação social”. É uma interpretação do autor, e não uma relação de causa e efeito comprovada, mas ela aponta para o que as lideranças relatam na prática.

O que o programa de Flávio promete, e o que ele cala

Luana Oliveira lembra que o governo Lula reabriu canais de participação e instituiu políticas voltadas à população LGBTQIA+. Ela cita o Programa Bem Viver+, criado para enfrentar a violência e promover direitos de pessoas LGBTQIA+ nos territórios do campo, das águas e das florestas, e a Política Nacional dos Direitos das Pessoas LGBTQIA+, que articula União, estados e municípios. “Isso não significa que a discriminação acabou”, ressalva. “Significa que há instrumentos públicos que podemos disputar, cobrar e fazer chegar aos territórios.”

Do outro lado, ela lê o programa de governo de Flávio Bolsonaro como um documento de ausências e de restrições. “O programa de Flávio Bolsonaro não apresenta propostas de garantia de direitos LGBTI+. Ele prevê restringir a participação de atletas trans em categorias femininas e impulsionar propostas como as que tramitam no Congresso, de restrição ao acesso de pessoas trans a banheiros e vestiários. Uma bancada ultraconservadora pode ampliar esse tipo de iniciativa e dificultar a consolidação de políticas de proteção.”

A conta do Legislativo importa porque as conquistas LGBTQIA+ no Brasil seguem, em grande parte, frágeis. As pesquisadoras Daniela e Caroline, do OIPP, ouvidas pelo Jornal da USP, lembram que políticas federais são “muitas vezes políticas de governo”, sem orçamento próprio nem garantia de continuidade. O relatório recomenda que conquistas como a criminalização da homotransfobia, o casamento civil igualitário e a doação de sangue sejam reconhecidas em lei, para ficarem menos expostas a desmontes. “Precisamos de políticas consistentes, que vão além de governos, e sejam políticas de Estado”, afirmam. A lacuna, portanto, não pertence a um único governo. Mas quem governa e quem legisla decide se ela encolhe ou se alarga.

O campo também é LGBTI

Foto: LGBTI Via Campesina ENFF

Há uma ideia, ainda comum, de que a diversidade sexual e de gênero é um assunto urbano. Luana Oliveira contesta: “Nós, pessoas LGBTI+, sempre estivemos nos assentamentos, acampamentos e comunidades rurais, embora historicamente invisibilizadas.” O Coletivo LGBTI Sem Terra, os espaços de formação e a campanha permanente contra a LGBTIfobia no campo, diz ela, ajudam a construir pertencimento e acolhimento. Ela evita, porém, romantizar os territórios: “ainda enfrentamos silenciamento, discriminação, rejeição e violência, inclusive nos espaços onde lutamos por transformação.”

Para quem vive nessas áreas, a política pública precisa ser medida em gestos concretos. “Para uma pessoa trans de um assentamento, de um acampamento ou da periferia, a questão é muito concreta: poder usar seu nome, permanecer na escola, ser acolhida no posto de saúde, acessar trabalho e renda e buscar proteção quando sofre violência. Uma política anunciada em Brasília só muda sua vida se chegar ao município, com recursos, profissionais preparados e participação de quem vive essa realidade.”

A própria coordenadora reconhece o tamanho do que falta. Nos municípios, diz, boa parte dos profissionais de saúde nem sabe que existe uma política integral de saúde para a população LGBTQIA+, nem uma específica para o povo do campo, das florestas e das águas. Esse é o tipo de brecha que o relatório citado pelo Jornal da USP descreve ao apontar a falta de dados e de formação como obstáculos ao atendimento, e que só se fecha com um Estado que financie, treine e escute.

A conta de quem mora de aluguel

Se Luana mede o Estado pelo nome no posto de saúde, o advogado popular Antônio Celestino o mede pela chave da porta. Ele é doutorando em Geografia na Universidade Federal de Alagoas, associado ao Instituto Brasileiro de Direito Urbanístico (IBDU) e integrante da Secretaria Nacional da Rede BrCidades.

Celestino recorda que a moradia só entrou na lista de direitos sociais do artigo 6º da Constituição em 2000, por meio da Emenda Constitucional 26. “Uma geração chegou à vida adulta nesse intervalo sem que a promessa constitucional se realizasse plenamente”, diz. Por isso, na avaliação dele, qualquer comparação entre governos precisa ir além do número de casas: “Um governo pode anunciar milhares de casas, mas é necessário saber quem conseguirá acessá-las, onde serão construídas, como serão financiadas e quais garantias terão as famílias que já vivem sob ameaça de perder sua moradia.”

Ele reconhece que o governo Bolsonaro, por meio do Casa Verde e Amarela, manteve financiamentos e subsídios, e dados do próprio Ministério do Desenvolvimento Regional mostram a entrega de cerca de 1,6 milhão de moradias entre 2019 e 2022. A diferença, afirma, está em quem foi atendido. Em abril de 2021, depois do veto ao Orçamento, restaram cerca de R$ 27 milhões para dar continuidade às obras da faixa 1, a de menor renda. “Esse esvaziamento atingia justamente o atendimento à população que mais dependia do subsídio público.”

A retomada do Minha Casa, Minha Vida, em 2023, mudou essa lógica. O programa passou a dispensar beneficiários do Bolsa Família e do BPC do pagamento das prestações nas modalidades abrangidas pela regra e chegou a dois milhões de moradias contratadas em dezembro de 2025, segundo balanço do governo federal. Celestino também destaca o Periferia Viva, que retomou uma agenda federal de urbanização de favelas, desde que garanta a permanência de quem mora no local. “Perder o lugar depois da obra pode significar recompor, em outro território, a precariedade que se pretendia enfrentar.”

Ele resume o que o crédito não resolve. “Ampliar o crédito, por si só, não resolve a situação de famílias cujo orçamento já é insuficiente para sustentar o custo de morar.” E descreve onde a política habitacional precisa mostrar resultado: “O problema aparece no aluguel que consome a renda, no bairro sem saneamento e nas horas de deslocamento até o trabalho.”

Despejo, democracia e a periferia que não é um bloco só

Foto: Yuri Gringo

Há um episódio que, para Celestino, sintetiza as escolhas em disputa. Em 2021, durante a pandemia, Bolsonaro vetou integralmente o projeto que suspendia despejos e remoções, invocando a proteção da propriedade e os riscos às relações contratuais. O Congresso derrubou o veto. A proteção de comunidades contra despejos coletivos, lembra o advogado, foi construída depois pela ADPF 828 e pelas comissões de soluções fundiárias, regulamentadas pelo Conselho Nacional de Justiça.

É daí que ele puxa a ponte entre moradia e democracia: “Para quem vive sob ameaça de remoção, a democracia se realiza também na possibilidade de se organizar, contestar decisões e exigir do Estado condições dignas de moradia.” E acrescenta: “A democracia ganha conteúdo quando uma comunidade consegue contestar uma remoção, conhecer o orçamento de uma obra e exigir que o poder público responda por suas escolhas.”

Ele observa que o programa de Flávio Bolsonaro prevê rever o alcance das ADPFs e de quem pode propor determinadas ações no Supremo, e pede que o conteúdo dessa revisão seja cobrado. Sobre o programa de moradia, propõe retomar o Casa Verde e Amarela, com meta de 2,5 milhões de residências, juros menores, regularização e parcerias público-privadas. “A proposta habitacional não explicita como será subsidiado o atendimento a quem não consegue assumir financiamento”, diz Celestino, que chama isso de “critério decisivo” para avaliar o alcance social da proposta. Do lado de Lula, ele lê no programa a intenção de ampliar o MCMV, preservar o foco na baixa renda, usar áreas da União e apoiar a participação dos movimentos.

O advogado faz questão de separar responsabilidades. Jair Bolsonaro foi condenado pelo STF, em setembro de 2025, por crimes ligados à tentativa de golpe de Estado. “Evidente que a responsabilidade penal é pessoal e não se transfere a Flávio pelo parentesco; no entanto, a responsabilidade política deve ser examinada por seus próprios atos.” Ele lembra que Lula vetou o projeto de redução de penas por crimes contra as instituições democráticas, que o Congresso derrubou o veto em abril, e que Flávio defendeu a derrubada do veto e a continuidade da articulação por anistia geral.

Nada disso, porém, autoriza tratar a periferia como um bloco homogêneo, e a literatura recente é cuidadosa nesse ponto. O sociólogo Leonardo Fontes, professor da Unicamp e pesquisador do Cebrap, argumenta em artigo ainda em formato de preprint (SciELO Preprints, 2024) que é preciso evitar dois erros: “culpar os pobres” pelo avanço da extrema direita e romantizar a pobreza e sua resistência. Segundo ele, a periferia de São Paulo deu maioria a Bolsonaro em 2018, mas Lula venceu nessas áreas na eleição seguinte, o que as torna “mais áreas de oscilação do que consolidadas” em suas preferências.

Laurindo Pereira da Silva, conhecido como seu Pepeu, foi atingido por bala de borracha durante ação violenta de despejo na Bahia. Foto: MST

O que o pesquisador identifica, em suas etnografias, é um discurso que une economia, moral e segurança. Ele descreve três “públicos” conservadores nas periferias: o do empreendedorismo em meio à precariedade, o do conservadorismo religioso e familiar e o do autoritarismo militarista, o que defende “lei e ordem” pela força. Esse conjunto trabalha com uma divisão moral entre “trabalhadores” e “bandidos”, e entre “trabalhadores” e “acomodados” que dependem de benefícios do Estado. Fontes nota que o reforço do conservadorismo religioso e familiar se faz, entre outras coisas, em oposição às “novas formas de sexualidade, emancipação feminina e outras configurações familiares”.

É nesse ponto que as duas pautas se encontram. O mesmo discurso moral que corta uma política de moradia ou de assistência por considerá-la “favor do Estado” também enquadra pessoas LGBTQIA+ como ameaça à ordem. E os dois processos têm vítimas em comum, que Luana descreve como “travestis e pessoas trans, pessoas LGBTI+ negras, camponesas, indígenas e das periferias”.

Fontes também registra a face progressista da periferia, que costuma ser esquecida. Há uma rede de associações, conselhos, coletivos culturais e movimentos que defendem a democracia e os direitos humanos como resposta à violência e à desigualdade, e que, segundo ele, valorizam a periferia como identidade positiva, em oposição ao estigma territorial. O próprio autor admite o desafio: o campo progressista tem dificuldade para construir um discurso na esfera econômica que substitua o antigo público sindical.

O que se cobra, seja quem for eleito

Nenhuma das fontes trata a eleição como ponto final. Celestino diz que o próximo governo precisa subsidiar moradia para quem não tem acesso ao crédito, destinar imóveis públicos vazios e bem localizados à habitação popular, urbanizar favelas garantindo a permanência dos moradores, apoiar a reforma da casa autoconstruída e a produção organizada por entidades populares, desenvolver a locação social e prevenir conflitos com mediação antes de qualquer remoção. “Reduzir a desigualdade entre centro e periferia exige enfrentar o custo de morar na cidade. Água, energia, condomínio e transporte pesam no orçamento”, afirma. Segundo ele, a trajetória de Lula na criação e na retomada do programa “permite cobrar entregas, boa localização e metas verificáveis”.

Luana Oliveira espera, e diz isso abertamente, a vitória de Lula, mas descreve a vitória como o começo de uma cobrança. “Do próximo mandato esperamos que os compromissos sejam concretizados, com orçamento e participação dos movimentos sociais: fortalecer o SUS, criar e fortalecer redes de proteção no campo, formar os profissionais de saúde para garantir acolhimento e atendimento humanizado, responder às denúncias de violência e produzir dados que tornem visíveis as pessoas LGBTI+ do campo. Também assegurar acesso à terra, documentação que respeite o nome social e a identidade de gênero das pessoas e acesso a crédito para melhorar as condições de produção.”

A pauta dos dados, aliás, aparece nas duas frentes. As pesquisadoras do OIPP recomendam um recorte LGBTQIA+ no censo nacional e a coleta sistemática de informações, porque, sem números, a política pública fica cega. Luana pede dados sobre as pessoas LGBTI+ do campo. E Celestino defende que o debate público explique os documentos, esclareça o alcance dos números e demonstre as consequências das decisões, porque uma informação repetida muitas vezes “precisa poder ser confrontada com aquilo que efetivamente ocorreu”.

O que as fontes pedem que o eleitor confira

Lula na ENFF. Foto: MST

Há uma convergência incômoda para qualquer neutralidade de ocasião. Em ambas as pautas, os retrocessos descritos pelos estudos e pelas fontes vêm da mesma lógica: cortar a estrutura que sustenta o direito (a secretaria, o orçamento da faixa 1, a participação dos movimentos) e substituir a política pública por um discurso moral. E em ambas, o governo Lula é descrito como imperfeito, mas como aquele que reabre os canais pelos quais a cobrança é possível.

O que Luana e Celestino pedem, no fundo, é a mesma coisa. Que o direito deixe de ser promessa e vire endereço. “Não é apenas poder permanecer no campo”, resume Luana. “É poder viver nele com segurança, autonomia e liberdade.” E, ao fechar a conta, ela coloca o horizonte da Reforma Agrária Popular no mesmo plano: “não existe Reforma Agrária Popular, nem democracia plena, se parte do povo precisa esconder quem é para viver no seu território.”

No domingo, o voto não decide se haverá casa, posto de saúde e proteção para todos. Decide se haverá um governo disposto a ser cobrado por elas.

*Editado por Fernanda Alcântara

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