Entidades de imprensa indignadas com intervenção judicial em debate da Globo são controladas pela emissora

Debate da Globo foi cancelado pela Globo, para a indignação de entidades controladas pela Globo (crédito: Rede Globo)

Os veículos de comunicação do Grupo Globo anunciaram ontem que “entidades e associações de imprensa” manifestaram “profunda indignação contra a intervenção jurídica indevida” que a emissora teria sofrido na última quinta-feira (1), levando-a a cancelar o debate entre os candidatos a presidente da República que realizaria naquela noite.

Na realidade, porém, todas as entidades que assinaram a nota pública exibida pela empresa são controladas por executivos que trabalham na própria Rede Globo ou em alguma de suas TVs afiliadas.

Além disso, as ditas “associações de imprensa” são, em verdade, entidades sindicais patronais, por força de lei defensoras dos interesses econômicos da Globo e demais empresas de comunicação associadas, e não de direitos sociais, como a ter eleições livres e liberdade de expressão.

Minutos antes das 20h40 da noite da última quinta, a Globo cancelou o debate, que teria início dali a 50 minutos, às 21h30. Para justificar sua decisão, a empresa alegou “intervenção judicial indevida” nas regras do programa, seja lá o que isso signifique.

Depois, a partir das 22h19 da mesma noite de quinta, os veículos de comunicação do grupo passaram a divulgar que a emissora estava recebendo a solidariedade de “associações e entidades de imprensa”, que manifestavam “profunda indignação” com a tal “intervenção judicial”. Veja reprodução abaixo.

“Associações e entidades de imprensa” restaram “profundamente indignadas” com “intervenção judicial” em debate da TV Globo, de acordo com a própria Globo (fonte: Grupo Globo)

As assim chamadas “entidades ou associações de imprensa” referidas, que assinam a nota, são três: a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), a Associação Nacional de Editores de Revistas (Aner) e a Associação Nacional de Jornais (ANJ).

As ditas “associações de imprensa”, na realidade, são sindicatos patronais, entidades exclusivamente compostas por representantes dos donos das empresas de comunicação do país, que têm na Rede Globo seu principal, mais forte e mais influente membro afiliado.

A função dessas associações não é lutar pela liberdade de imprensa ou pela democracia no Brasil, mas sim defender os interesses dos empresários de mídia em debates políticos ou jurídicos e, principalmente, em negociações por direitos e reajustes salariais, contra os sindicatos de trabalhadores do ramo da comunicação e do jornalismo.

Só por isso, já não seria surpresa que tais entidades tivessem tão rapidamente aderido e saído em defesa do posicionamento da TV Globo sobre o cancelamento de seu próprio debate. São entidades que servem para defender os interesses de seus associados, e a Globo é o maior deles. Mas é mais do que isso.

A três entidades que assinam a nota em defesa da Globo têm em seu mais alto cargo executivos indicados pelo Grupo Globo, que fizeram sua carreira na empresa. Quer dizer: a indignação que noticia a Globo não é a de entidades da Imprensa nacional, mas tão somente da própria emissora e de seus representantes.

Veja, abaixo, quem são os executivos que comandam as três associações patronais que assinam a nota divulgada pelo Grupo Globo.

1 – Associação Nacional de Editores de Revistas (Aner). Presidente: Rafael Menin Soriano, diretor financeiro da Editora Globo

Aner, “entidade de imprensa” que assinou nota em favor da Globo, é presidida pelo diretor financeiro da Editora Globo (crédito: reprodução

Ninguém melhor que o próprio presidente da Aner para descrever sua trajetória profissional e a quem ele representa:

“Executivo com mais de 20 anos de trajetória no Grupo Globo, construindo uma carreira na interseção entre negócios, estratégia, governança e gestão.

Ao longo dessa jornada, atuei em diferentes áreas e contextos, desenvolvendo uma visão ampla do negócio e experiência em gestão de riscos, planejamento, orçamento, governança e tomada de decisões.

Atualmente, sou Diretor Financeiro (CFO) do grupo de empresas Editora Globo, Sistema Globo de Rádio e CASACOR.

Também sou atualmente Presidente da ANER – Associação Nacional dos Editores de Revistas.

Minha trajetória é marcada pela combinação entre visão estratégica, disciplina de gestão e profundo conhecimento do mercado de mídia e comunicação.”


2 – Associação Nacional de Jornais (ANJ). Presidente: Carlos Fernando Lindenberg Neto, dono da afiliada da Globo no ES

“Café” Lindenberg, dono da TV Gazeta, afiliada da TV Globo no Espírito Santo (crédito: TV Globo)

Carlos Fernando Lindenberg Neto, ou simplesmente Café Lindenberg, como é mais conhecido, é presidente da ANJ e também dono do jornal A Gazeta e da TV Gazeta, empresas do grupo de comunicação que tem o mesmo nome, e que é o maior do estado do Espírito Santo.

A Rede Gazeta possui quatro emissoras afiliadas à TV Globo, cobrindo todos os 78 municípios do estado. A empresa do presidente da ANJ é sócia dos Marinho desde a década de 1970, quando o dono do grupo “A Gazeta” era ainda Cariê Lindenberg, pai de Café.

Em outubro do ano passado, quando o Grupo Globo comemorava seus 100 anos de existência, Café Lindenberg disse a Paulo Marinho, um dos atuais donos a TV carioca:

“Quero te dizer, Paulo, o quanto me orgulha ver a Gazeta fazer parte desta trajetória. Sei o quanto meu pai, Cariê, e seu avô, Roberto Marinho, imprimiram em seus negócios a paixão pelo que acreditaram”

 

3 – Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert). Presidente-executivo: Cristiano Lobato Flôres, advogado-chefe da RBS, filial da Globo no RS

O advogado Cristiano Lobato Flôres: da RBS para a Abert (Crédito: RBS)

O advogado Cristiano Lobato Flôres, atual presidente-executivo da Abert, foi levado ao cargo que ocupa pelo Grupo RBS, ou Rede Brasil Sul, empresa em que fez carreira até chegar ao topo do departamento jurídico, para depois (2013) ser indicado para a diretoria da entidade patronal que atualmente preside.

O Grupo RBS, fundado em 1962 como “TV Gaúcha”, tornou-se a primeira afiliada regional da Rede Globo no Brasil em 1967. A RBS TV cobre 98,8% dos municípios gaúchos por meio de 12 emissoras integradas, todas retransmitindo o sinal da TV dos Marinho. O Grupo RBS também controla veículos de comunicação como o portal GZH, o jornal Zero Hora e a Rádio Gaúcha.

O presidente da Abert assim descreve qual era sua função quando era contratado e representava os interesses da afiliada da Globo:

“Eu era responsável pelo mapeamento, definição e implementação da estratégia institucional e jurídica do Grupo RBS perante os órgãos governamentais e não governamentais.”

Ao que parece, continua sendo.

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