Sakamoto: Para tirar Lula, há eleitores que engolem até a corrupção de Flávio

Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro. Foto: reprodução

Por Leonardo Sakamoto no Uol

É equivocado classificar como “teflon” todo político em que as denúncias batem e escorregam, sem arranhar sua viabilidade eleitoral. O caso de Flávio Bolsonaro passa longe de ser um fenômeno das panelas antiaderentes, trata-se de um caso crônico de cinismo pragmático de parte do eleitorado.

Não é que as denúncias de corrupção não colem nele. Elas colam, pesam e empesteiam o ambiente. Ocorre que uma fatia expressiva dos eleitores enxerga a eleição não como uma escolha de projeto de país, mas como um plebiscito sobre Lula. E, para tirar Lula, uma turma aceita qualquer coisa. E tem consciência disso.

Para esse grupo, não faz a menor diferença se, do outro lado da urna, estará Flávio, um cone de trânsito alaranjado com listras fosforescentes ou o histórico Rinoceronte Cacareco — que recebeu 100 mil votos para vereador paulistano em 1959. Como o senador é o herdeiro do espólio político do pai e, hoje, o mais bem posicionado para derrotar o petista, o antipetismo não-bolsonarista tampa o nariz para o chorume de corrupção em que o candidato está imerso até a narina e se prepara para digitar seu número.

Esse comportamento não se restringe à direita radical. O mesmo fará uma parte do eleitorado que nem se define como antipetista ferrenha, mas que simplesmente não quer dar mais quatro anos de mandato a Lula. A eleição virou o “Lula versus o Anti-Lula”. Se o Anti-Lula da temporada for um cone, então vai de cone. Com ou sem listras, com ou sem propostas de soluções.

Lula durante entrevista ao Flow. Foto: reprodução

O nível de tolerância dessa parcela da sociedade com atitudes indefensáveis é pedagógico sobre a seletividade da nossa indignação moral.

O candidato que eles estão dispostos a ungir como salvador da pátria é alguém que recebeu ao menos R$ 70 milhões de Daniel Vorcaro. É político umbilicalmente envolvido no desvio de salários de servidores do próprio gabinete (a velha e boa rachadinha), que teria lavado dinheiro via loja de chocolates em shopping center de luxo e transferido R$ 200 mil de grana pública diretamente para o projeto de um miliciano que o chama de “nosso senador”. Sem esquecer, claro, do seu hábito peculiar de contratar familiares de matadores de aluguel para cargos de confiança.

Chegamos a uma situação pitoresca, para não dizer trágica. O propalado voto de protesto, aquele que carrega a ilusão moralista de dar um “basta” no sistema, está sendo depositado em alguém que as pessoas sequer fazem ideia do que fará com o salário mínimo dos aposentados. Não há propostas ou visão de Estado. O que há é o único entre os candidatos que implorou dinheiro a Vorcaro.

Ao fechar os olhos para essa capivara extensa em nome da aversão ao PT, uma parte do eleitorado deixa claro que seu problema nunca foi exatamente com a corrupção, mas apenas com o CPF de quem a pratica.

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