Emendas parlamentares de Flávio chegaram a cartel e ONG que não existe

Por que um parlamentar enviaria uma emenda para uma empresa suspeita de cartel? E uma outra para uma ONG que não existe? Essas são novas respostas que o senador Flávio Bolsonaro (PL) deve apresentar, de forma robusta, para a sociedade.

O candidato à presidência já teve uma emenda parlamentar sob suspeita da Polícia Federal (PF), pois teria sido utilizada para financiar milicianos condenados pela morte de Marielle Franco. Agora, novas acusações públicas sobre a destinação de recursos em seu gabinete ganharam a mídia.

Dinheiro para cartel

De acordo com reportagem do Uol, Flávio contou com mais de R$ 300 milhões reservados para suas emendas desde 2020. O problema do alto valor do orçamento nacional que está nas mãos dos parlamentares é tratado no Supremo Tribunal Federal (STF), mas aqui o problema não é este. A preocupação levantada pelo site é a destinação de valores para o chamado “cartel dos coletes”.

Segundo consta, o senador destinou R$ 569 mil para a Glágio do Brasil. Já para a Inbra-Tecnologia, foram R$ 1,1 milhão e uma nota identifica ao menos a compra de 342 capacetes balísticos. Os valores para ambas as empresas foram empregados em forma de convênios com o Governo do Rio de Janeiro. Nesse modelo, o parlamentar indica onde os recursos serão executados por estados, municípios ou entidades parceiras.

Leia mais: Flávio bancou projeto de milicianos condenados pela morte de Marielle

O problema com as emendas é que tanto a Glágio quanto uma empresa do grupo Inbra são investigadas pela Polícia Federal por fraude em licitações. As duas empresas foram contratadas para fornecer coletes à prova de balas para as forças de segurança do Rio de Janeiro e fizeram parte, em 2023, da Operação Perfídia, em que se investigou a divisão alternada dos contratos de proteção balística firmados com o governo.

Essa identificação do “cartel dos coletes” ainda envolve o general Walter Braga Netto, preso pela participação na tentativa de golpe de Estado. Ele foi ministro de Jair Bolsonaro e teve o nome apontado como interlocutor para que os contratos fossem realizados.

Dinheiro para ONG que não existe

Outro problema com emendas de Flávio se refere ao envio, em 2024, de R$ 3,1 milhões para a área da saúde do município de Mesquita (RJ), governado pelo mesmo partido do senador, o PL. Desse total, R$ 666 mil de Flávio Bolsonaro chegaram, em agosto de 2025, ao Instituto de Medicina e Projeto (IMP), porém, desde junho deste ano, o órgão é enquadrado como “inexistente de fato” pela Receita Federal, pois aponta “razões que evidenciam que a empresa foi constituída para prática de fraude fiscal, inclusive em proveito de terceiras empresas”.

Como trazido pela reportagem, apesar de ter firmado mais de R$ 580 milhões em contratos com Mesquita, o IMP desapareceu na prática: está sem site desde 2021, não responde aos contatos informados e teve até documentos assinados em nome de uma pessoa morta desde 2017. Em acórdão de 2025, o TCE-RJ apontou suspeitas de irregularidades, incluindo falta de estudos técnicos para a transferência da gestão da saúde e indícios de conluio na concorrência vencida pelo instituto.

Problemas em emendas

A relação com Daniel Vorcaro, o safári na África com investigados na fraude do INSS, os casos de rachadinhas, sua relação com milicianos e sua evolução patrimonial de 370%: tudo isso está no caldo de Flávio Bolsonaro, que agora também puxa para si essa suspeita sobre o emprego de emendas.

Como destaca a reportagem, além das suspeitas das emendas com o cartel e a ONG, já pesam contra o senador o caso de uma emenda de R$ 4 milhões para projeto esportivo ligado ao Vasco, da qual R$ 684 mil foram destinados a um único fornecedor; outra de R$ 200 mil para um projeto esportivo do Ifop, com indícios de irregularidades; e uma de R$ 6,61 milhões para obras no aeroporto de Resende, paga à Valle Sul, cujas máquinas foram flagradas em uma propriedade privada de um amigo de Flávio Bolsonaro.

Leia mais: Nova investigação da CGU atinge emenda de R$ 4 milhões de Flávio Bolsonaro ao Vasco

Em nota, o senador respondeu para o Uol que “a atuação do gabinete limita-se às atribuições institucionais relacionadas à indicação das emendas, de acordo com a legislação e critérios de cada ministério. As decisões e procedimentos relativos à contratação são de responsabilidade dos respectivos beneficiários, observadas as normas legais e os procedimentos aplicáveis. Eventuais irregularidades devem ser apuradas pelos órgãos de controle, como determina a lei.”

Por sua vez, a prefeitura de Mesquita disse: “As contratações da área da saúde observam rigorosamente a legislação vigente, com análise dos órgãos jurídicos e de controle do Município e cumprimento dos procedimentos de planejamento e fiscalização aplicáveis. Os contratos, pagamentos e demais atos administrativos estão disponíveis no Portal da Transparência.”

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