Às vésperas do primeiro turno, a nova edição do Entrelinhas Vermelhas trouxe uma análise técnica e estratégica do cenário eleitoral brasileiro. O convidado foi Hajj Mangolin, diretor da Amangolin Comunicação e Estratégia, que atua no setor desde 1984. A conversa desmistificou o papel das pesquisas de opinião, expôs os verdadeiros fatores que movem o eleitor em um contexto de extrema polarização e apontou caminhos para as disputas proporcionais.
Assista a íntegra da entrevista:
Do “retrato” ao “filme”: a evolução das pesquisas
Mangolin explicou que a pesquisa de opinião tradicional é uma “fotografia” exata do momento em que foi feita, mas com limitações logísticas. Para superar isso, sua empresa utiliza métodos digitais e algoritmos de inteligência artificial para criar um “streaming” do comportamento eleitoral, para avançar de uma foto para um filme.
Ao cruzar dados de perfil (renda, localização, histórico de voto e comportamento), é possível prever tendências com mais assertividade do que os métodos presenciais, que muitas vezes falham em alcançar periferias ou trabalhadores em horário comercial.
No entanto, o especialista alertou para o risco da exclusão digital, que ainda marginaliza parcelas mais pobres da população e deve ser pauta de políticas públicas.
A questão, portanto, não se resume ao tamanho da amostra. Para Mangolin, quem é ouvido, onde é ouvido e como é convidado a responder são elementos fundamentais para compreender o resultado.
Polarização e a “sinceridade” do eleitor
Um dos pontos mais analíticos da entrevista foi a desconstrução do mito do “eleitor indeciso”. Segundo Mangolin, o contingente realmente oscilante é mínimo. A polarização é tão intensa que distorce até a percepção de realidade do cidadão.
Em testes, eleitores de ambos os lados respondem a perguntas sobre os “maiores problemas do país” não com base em suas vivências, mas no que acreditam ser a narrativa que beneficia seu candidato. Mangolin afirma que eleitores com posições políticas muito consolidadas tendem a apresentar menor disposição para alterar suas escolhas em função de acontecimentos pontuais.
“O eleitor não responde pensando na vida dele, mas com medo de beneficiar o outro lado”, apontou, citando como exemplos a distorção sobre carga tributária ou desigualdade social, dependendo da preferência partidária.
O consenso nacional: o fim das bets
Para Mangolin, uma das tarefas da pesquisa é justamente identificar quais temas ultrapassam as bolhas políticas e efetivamente alteram percepções, distinguindo o debate altamente mobilizado nas redes daquele que repercute na vida cotidiana.
Em meio a tanto ruído político, um tema emergiu com força nacional: o combate e o fim do modelo atual das casas de apostas esportivas (bets). De acordo com os levantamentos da Amangolin, 83% dos brasileiros são favoráveis ao fim do setor. O dado é contundente até mesmo entre o eleitorado de Flávio Bolsonaro, onde 71% apoiam a medida.
Mangolin reforçou o argumento econômico e social: além da drenagem estimada em R$ 140 bilhões da economia real, a ludopatia já impõe um custo superior a R$ 38 bilhões ao SUS, superando qualquer arrecadação gerada pelo setor e destruindo cadeias de comércio local.
O voto proporcional e a previsão de segundo turno
Para as eleições proporcionais, a estratégia vencedora combina o “efeito carona” da candidatura presidencial com propostas hipersegmentadas. O eleitor decide seu voto para deputado ou senador com base em pautas que afetam sua rotina imediata, como a escala de trabalho 6×1 para comerciários, demandas de sua profissão ou necessidades específicas de seu bairro.
Por fim, questionado sobre a possibilidade de vitória em primeiro turno, Mangolin foi categórico: os dados indicam segundo turno. A única chance de resolução ainda no primeiro turno seria uma abstenção em massa de eleitores conservadores “sinceros”.
Segundo o especialista, se novas denúncias de corrupção ou milícia contra a candidatura de Flávio Bolsonaro emergirem, esse eleitorado, repelido moralmente, poderia optar por não votar, em vez de migrar seus votos para o campo progressista.
A nova edição do programa mostra, dessa forma, que compreender uma eleição exige mais do que observar quem aparece na frente ou atrás em uma determinada pesquisa. É preciso entender como os dados foram produzidos, o que eles conseguem medir e quais fenômenos sociais permanecem fora da fotografia.