EUA atacam juízes, procuradores, empresários e políticos da América Latina

Donald Trump, presidente dos EUA. Foto: reprodução

O governo de Donald Trump abriu uma nova frente de pressão sobre autoridades, empresários e políticos da América Latina. O Departamento de Estado dos Estados Unidos anunciou nesta segunda-feira (28) que vai restringir vistos de cidadãos do Hemisfério Ocidental acusados por Washington de “enfraquecer governos eleitos democraticamente”.

A medida estreou com a revogação dos vistos de 18 sul-americanos e de seus familiares. Treze dos atingidos são bolivianos, a maioria ligada ao sistema de Justiça. A lista também inclui um empresário e uma senadora da Colômbia, dois equatorianos cujos nomes não foram divulgados e um juiz peruano que decidiu recentemente a favor de uma companhia chinesa responsável pelo megaprojeto portuário de Chancay.

O anúncio chama atenção também pelo precedente criado no Brasil. No ano passado, o governo Trump revogou vistos de integrantes do Judiciário brasileiro envolvidos nos processos relacionados à tentativa de golpe de Estado e ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), aliado político do republicano. A nova política amplia o alcance desse instrumento para outros países da região.

O Departamento de Estado afirma que os 18 sul-americanos praticaram atos que “enfraqueceram governos eleitos democraticamente por meio da corrupção ou de ações ligadas ao narcotráfico”. Washington, porém, não apresentou no comunicado provas ou detalhes individualizados sobre a maioria dos casos.

O principal nome da lista é o procurador-geral da Bolívia, Roger Mariaca. Ele conduz uma investigação contra Fernando Cerimedo, operador da extrema direita latino-americana, por suspeitas de enriquecimento ilícito e tentativa de feminicídio. O governo Trump acusa Mariaca de abuso de poder e de receber propinas para favorecer o narcotráfico e permitir que criminosos escapassem da Justiça.

Mariaca rejeitou as acusações e denunciou interferência estrangeira e pressão política. Segundo ele, investigações conduzidas pelo Ministério Público boliviano atingem interesses que ultrapassam as fronteiras do país. “Sabemos que o trabalho que estamos fazendo não agradou a determinados setores políticos, tanto dentro como fora do país”, afirmou.

O procurador citou diretamente a investigação contra Cerimedo. “Se cumprir meu dever significa enfrentar pressões e represálias, assumirei minha responsabilidade”, declarou. O governo boliviano anunciou uma investigação sobre as acusações e solicitou aos Estados Unidos as informações e provas usadas para fundamentar a punição.

Também foram atingidos o integrante do Tribunal Constitucional boliviano Ramiro Campero; o ex-ministro da Justiça Iván Lima; o coronel da polícia William Cabrera; e a juíza Ximena Flores. Em agosto, Flores determinou a libertação de Hebert Zeballos, um dos envolvidos no caso do desaparecimento de mais de 30 malas que não passaram pelo controle aduaneiro e que, segundo as suspeitas, transportavam drogas.

A ofensiva ocorreu depois de representantes de Bolívia, Colômbia, Equador e Peru se reunirem com Trump em Nova York e reafirmarem apoio ao chamado Escudo das Américas, coalizão criada pelo presidente americano sob a justificativa de combater o narcotráfico na região.

Na Colômbia, Washington atingiu dois nomes próximos à esquerda. Um deles é Euclides Torres, empresário de Barranquilla que financiou parte da campanha presidencial do ex-presidente Gustavo Petro. A outra é Martha Peralta, senadora ligada ao petrismo.

A decisão ocorre três meses depois de o presidente colombiano Abelardo de la Espriella enviar uma carta ao Departamento de Estado pedindo a revogação dos vistos de Torres, Peralta e outros políticos do Caribe colombiano. De la Espriella acusava o grupo de compra de votos em favor do senador de esquerda Iván Cepeda. Washington não atendeu integralmente ao pedido, mas retirou os vistos de Torres e Peralta.

No Peru, o alvo foi o juiz Juan Carlos Núñez Matos e sua família. No início do ano, o magistrado decidiu a favor da Cosco Shipping, companhia chinesa que financia e opera o megapuerto de Chancay, ao norte de Lima. O empreendimento se tornou um dos principais pontos da disputa geopolítica entre Estados Unidos e China na América Latina.

Núñez Matos decidiu que o órgão peruano responsável por supervisionar investimentos em infraestrutura de transporte não tem competência para fiscalizar o porto. Inaugurado em novembro de 2024 após investimentos de US$ 1,3 bilhão, Chancay é tratado por Washington como um possível risco estratégico devido à presença chinesa.

O secretário de Estado americano, Marco Rubio, já havia atacado projetos chineses no Peru, alegando que empreendimentos apoiados pelo Partido Comunista Chinês ignoram estruturas legais do país e ameaçam a transparência e a segurança de dados. A embaixada chinesa respondeu às declarações, em mais um episódio da disputa entre as duas potências pela influência na região.

A utilização de vistos como instrumento de pressão política já alcançou outros governos latino-americanos. Além das medidas contra autoridades brasileiras, Washington retirou o visto de Gustavo Petro depois que ele participou de uma manifestação pró-Palestina em Nova York e pediu a militares americanos que não cumprissem determinadas ordens.

No Chile, os Estados Unidos também revogaram neste ano o visto do ministro dos Transportes e Telecomunicações do governo do ex-presidente Gabriel Boric. A medida ocorreu após a aprovação de uma proposta apresentada por duas empresas chinesas para construir um cabo submarino de fibra óptica entre Valparaíso e Hong Kong. No México, o atingido mais recentemente foi Andy López Beltrán, filho do ex-presidente Andrés Manuel López Obrador e dirigente do Morena.

A sequência de medidas mostra que a política de restrição de vistos adotada inicialmente contra autoridades brasileiras passou a integrar uma ofensiva regional mais ampla de Washington. Sob Trump, sanções migratórias passaram a atingir integrantes do Judiciário, do Ministério Público, empresários e políticos latino-americanos envolvidos em decisões ou disputas que contrariam interesses e aliados dos Estados Unidos.

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