Do racismo à violência de gênero, dados expõem o abismo entre Lula e Flávio Bolsonaro 

XII Marcha das Mulheres Negras do Rio de Janeiro, na orla de Copacabana (Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil)

Por Fernanda Alcântara
Da Página do MST

Não há novidade, pelo menos entre os movimentos sociais e o campo progressista, quando falamos que o Brasil carrega marcas profundas de um projeto político conservador que naturalizou o racismo, o machismo e a exclusão social como pilares de organização da sociedade. Embora este conservadorismo seja histórico, entre 2019 e 2022, o governo Bolsonaro promoveu um desmonte sistemático de políticas públicas, com piora em 63 indicadores sociais, entre eles educação, saúde, meio ambiente e assistência social.

Agora, a disputa eleitoral volta a colocar dois projetos frente a frente. De um lado, a retomada das políticas de inclusão social e de enfrentamento às desigualdades raciais e de gênero nos governos Lula. De outro, a ofensiva da bancada conservadora no Congresso, que ameaça desmontar conquistas históricas e aprofundar o racismo estrutural e o machismo institucionalizado.

Para quem ainda tem dúvidas sobre o que está em jogo, o MST reuniu o histórico de retrocessos do modelo conservador, a atuação da bancada de direita no Legislativo e outros riscos de um cenário dominado por esse setor. O foco são as consequências para mulheres e pessoas negras, as principais vítimas da violência de Estado e da negligência social.

Para Simone Magalhães, da coordenação nacional do Coletivo Étnico-Racial Terra, Raça e Classe do MST, o que se decide nas urnas vai além da alternância de governo. “Estas eleições são decisivas para a classe trabalhadora brasileira e as famílias negras do nosso país, pois estão em disputa dois projetos civilizacionais, dois projetos de país: um que quer estabelecer o projeto de morte, que terá o poder de dizer quem pode morrer pela violência de Estado e pela escassez econômica imposta e o outro que quer estabelecer um projeto de vida e de vida em abundância.”

Bancada conservadora no Congresso: o poder da direita e da fé como projeto político

A guinada da extrema direita na política institucional, iniciada em 2018, consolidou-se no pleito de 2022. Enquanto a disputa presidencial consagrou o retorno do campo progressista com Luiz Inácio Lula da Silva, as urnas redesenharam o Congresso Nacional sob forte hegemonia conservadora. Na Câmara dos Deputados, as legendas de direita e de extrema direita, encabeçadas por PL, União Brasil, PP e Republicanos, abrigam quase metade das cadeiras (48%).

Trata-se de um bloco inclinado a pautas armamentistas e a visões autoritárias, que se opõem de forma sistemática desde os direitos sexuais e reprodutivos até a laicidade do Estado. Esse conglomerado parlamentar de direita se articula em dois eixos: o libertarianismo neoliberal e o conservadorismo moral religioso, sendo o segundo uma força consolidada desde a década de 1990, com o protagonismo de lideranças pentecostais e de segmentos católicos tradicionalistas.

Um exemplo da força deste congresso conservador foi o PDL 3/2025, que ficou conhecida como a “PL da Pedofilia”, que revogou o direito ao aborto legal para crianças e adolescentes vítimas de estupro e violência sexual e deixa meninas e adolescentes vulneráveis, especialmente vítimas de abusos dentro da própria casa. De autoria da deputada Chris Tonietto (PL-RJ), o projeto teve parecer favorável do relator, Luiz Gastão (PSD-CE), e a Câmara o aprovou por 317 votos a 111, em regime de urgência. Dos onze nomes ligados ao projeto, contando a autora e o relator, seis são do partido de Jair e Flávio Bolsonaro.

Todos eles estão concorrendo este ano: Tonietto, Nikolas, Pazuello e Jordy disputam novo mandato na Câmara pelo PL, assim como Luiz Gastão (PSD-CE), Kim Kataguiri, que agora está no Missão, e Celso Russomanno (Republicanos-SP). Outros quatro tentam uma vaga no Senado, onde o mandato dura oito anos. Bia Kicis divide a chapa do PL no Distrito Federal com Michelle Bolsonaro. Caroline de Toni concorre pelo PL de Santa Catarina. Marcel van Hattem, do Novo, diz ter Flávio Bolsonaro no seu palanque gaúcho. 

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Um levantamento da Agência Patrícia Galvão identificou 63 PDLs, apresentados entre 2020 e julho de 2026, que citam o aborto legal ou interferem no acesso a ele, e 31 ainda tramitam. Com a direita já detendo 48% das cadeiras da Câmara, ampliar essa maioria é ampliar a chance de que votações assim se repitam. O voto para deputado e senador decide se Lula, ou qualquer outro presidente, encontrará um Congresso disposto a proteger as vítimas de violência sexual ou a restringir ainda mais o acesso delas aos seus direitos.

A socióloga e professora da USP Jacqueline Moraes Teixeira, em entrevista ao Brasil de Fato, lembra que essa relação tem raízes na formação do Estado. Ela lembra que, embora o país seja constitucionalmente laico, as diferentes constituições mantiveram mecanismos que permitiram a atuação de grupos religiosos na política e em parceria com o poder público. Instituições cristãs passaram a atuar em áreas como saúde, educação e assistência, e organizações confessionais ocuparam, com legitimidade, espaços que seriam do Estado. Para Teixeira, esse percurso ajuda a explicar a aproximação entre setores católicos e evangélicos e a direita contemporânea, além da dificuldade de formular políticas públicas sem a participação de atores religiosos.

O episódio mais recente dessa mistura entre fé e poder envolve a eleição de Flávio Bolsonaro à presidência. Alas da Igreja Católica se preocuparam com o debate sobre a retirada de Nossa Senhora Aparecida como Padroeira do Brasil, tema de um PL do ex-deputado e ex-assessor de Bolsonaro, Victório Galli. Flávio negou a intenção, mas gerou controvérsia ao declarar que, se eleito, decretará que “o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”, tese defendida por sua igreja evangélica atual. Ele também acusou integrantes da CNBB de disseminarem desinformação, sem apresentar provas, e a CNBB negou publicamente.

A polêmica ataca a pluralidade que sustenta a democracia e abre caminho para a intolerância contra religiões de matriz africana, comunidades indígenas, mulheres, população LGBTQIA+, além de todos os grupos considerados inconvenientes a esse projeto de poder. Hoje, o preconceito estrutural contra mulheres e negros deixou de ser um tabu envergonhado e virou ferramenta de projeção política.

Lizandra Guedes, da coordenação nacional do setor de Gênero do MST, aponta que isso não é acaso. “É importante que tenhamos clareza de que o antifeminismo compõe o projeto de poder da direita no Brasil e no mundo e que há uma articulação internacional que aponta para o retrocesso dos direitos das mulheres e meninas. Um caso emblemático é a tentativa de retirada do direito ao aborto legal em caso de estupro, que vem acontecendo no Brasil.”

Antifeminismo, misoginia e violência: como a extrema direita fala às mulheres

Enquanto as estatísticas de violência doméstica, crimes sexuais e feminicídios seguem em alta, a sociedade assiste à normalização de ofensas e discursos de ódio que, no passado recente, sofreram condenação pública imediata. Influenciadores digitais, parlamentares, ministros e ocupantes de cargos executivos impulsionam essa guinada reacionária. Sem pudor, voltam a questionar direitos consolidados, como o voto feminino, a autonomia no mercado de trabalho e o acesso ao esporte, e defendem o confinamento das mulheres ao espaço doméstico e sua subordinação aos maridos.

O aspecto mais inquietante da ofensiva é a capacidade de expansão. O discurso antifeminista ganha atração entre os homens e também encontra apoio em parcelas do público feminino. Para Jacqueline Moraes Teixeira, isso é fruto de uma construção política deliberada, com símbolos religiosos que dialogam com a vida concreta das mulheres. Ela explica que a associação de Michelle Bolsonaro à rainha Ester ganhou força na campanha de 2022 e retomou uma representação difundida por novelas da Record apoiadas pela Igreja Universal, e isso repercute ainda agora, na campanha de Flávio Bolsonaro e os constantes escândalos sexuais envolvendo o ex-senador. 

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

“Essa metáfora é realmente muito forte para as mulheres evangélicas. A ideia de uma mulher casada com um homem de virtudes duvidosas, mas capaz de administrar um reino, administrar essa relação e inclusive melhorar a figura desse marido desastrado é bastante forte”, afirma a pesquisadora. Ela acrescenta que as mulheres de direita difundem a ideia de que nem toda mulher consegue ser feminista, mas toda mulher consegue ser feminina. Trata-se, segundo Teixeira, de uma estratégia de disputa que apresenta o feminismo como algo que “não é para qualquer pessoa”, enquanto o feminino seria para todas.

Esse ambiente tem efeitos materiais. Embora a misoginia digital seja um fenômeno global, o ambiente incentivado nos discursos e nas ações de Jair Bolsonaro estimulou o avanço de ataques online e de discursos radicais, como os conteúdos redpill e a plataformização do ódio. Pesquisa do Observatório NetLab-UFRJ aponta que 88% dos vídeos analisados nas redes contêm desprezo ostensivo às mulheres, alimentando um ciclo que termina em agressões físicas e assassinatos. Os dados do Conselho Nacional de Justiça registraram 947 novos casos de feminicídio só em janeiro de 2026.

A socióloga Analba Brazão Teixeira, do Levante Feminista contra o Feminicídio, Lesbocídio e Transfeminicídio, afirma que a ascensão dos governos de direita desmantelou os programas de enfrentamento à violência de gênero. Em entrevista ao Instituto Humanitas Unisinos (IHU), ela diz que a facilitação do acesso às armas de fogo se somou ao menosprezo público promovido pelo governo Bolsonaro: “armando física e verbalmente, inflamaram e naturalizaram a sanha machista da sociedade brasileira”.

A ausência de prevenção também tem responsáveis. Juliana Brandão, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em entrevista à Agência Pública em agosto de 2026, é direta.

 “Quando a gente se abstém de pensar em saídas preventivas, a gente está consentindo com essa escalada. A gente está dando de ombros e está jogando, muitas vezes, no colo das próprias mulheres a responsabilidade pela proteção delas, porque significa que elas só viram cidadãs, só começam a importar para o Estado quando registram um boletim de ocorrência de uma violência que já estão sofrendo.”

No campo, o problema é mais agudo. Lizandra Guedes, do MST, descreve que “uma dificuldade concreta na proteção das mulheres rurais contra todo tipo de violência, pois faltam dados concretos sobre o que se passa com as mulheres no âmbito rural.” Para Simone Magalhães, a violência tem endereço de classe e raça. Na visão dela, o “projeto de morte” pesa primeiro sobre as famílias negras, submetidas à violência de Estado e à escassez econômica.

Dados dos governos Lula e Bolsonaro: pobreza, igualdade racial e políticas para as mulheres

A comparação entre os governos de Jair Bolsonaro e de Lula revela um abismo na condução das políticas públicas e na garantia dos direitos humanos e Flávio Bolsonaro se apresenta como continuidade da gestão do pai. A gestão bolsonarista foi marcada pelo esvaziamento de programas de proteção social, pela retórica discriminatória e pelo recrudescimento da violência estrutural. Os governos Lula, por sua vez, consolidaram marcos de combate à pobreza, de promoção da igualdade racial e de proteção às mulheres. Esse contraste aparece nos indicadores socioeconômicos e no cotidiano das populações mais vulneráveis.

No campo dos direitos humanos e das ações afirmativas, a gestão Lula criou a Lei Maria da Penha (2006) e o Ligue 180, e instituiu a Política Nacional de Promoção da Igualdade Racial (2003), o Estatuto da Igualdade Racial (2010) e a Lei de Cotas (2012). Em 2026, o governo lançou o novo Plano Nacional de Enfrentamento ao Racismo Estrutural, reconhecido pelo STF e com metas orçamentárias e indicadores detalhados para fortalecer a equidade racial. Sob Jair Bolsonaro, o esvaziamento das políticas afirmativas e a institucionalização do racismo no âmbito estatal aprofundaram esse cenário.

O preconceito racial apareceu em declarações públicas do então presidente Bolsonaro e em ações concretas com cortes profundos no orçamento voltado às comunidades tradicionais e redução de 60% nas verbas do programa de Enfrentamento ao Racismo e Promoção da Igualdade Racial. Denunciado pelo Ministério Público Federal por danos morais coletivos, Bolsonaro foi absolvido sob a justificativa de imunidade parlamentar e do uso de “piadas e bom humor”. A decisão evidencia os privilégios jurídicos que sustentam a impunidade do discurso de ódio.

Para as mulheres do campo, Lizandra Guedes vê avanços concretos no atual governo. Ela cita a criação de um fórum sobre o tema, vinculado ao Ministério das Mulheres, que reúne movimentos e organizações sociais do campo. “As novas políticas de enfrentamento à violência contra as mulheres tornaram o acesso à denúncia mais adequado e possível de ser materializado nos municípios menores, como a criação da sala lilás nas delegacias de polícia”, diz. Para ela, a continuidade do governo Lula pode ampliar a produção de dados que subsidiem políticas de proteção às mulheres do campo, das águas e das florestas.

Em um ponto, todas concordam: a questão econômica é central. “As mulheres são as que vivem em maior desigualdade social, política e econômica. Segundo a FAO, apenas 10% consegue ter acesso a crédito”, afirma Lizandra. O governo Lula formulou políticas voltadas à autonomia econômica das camponesas, como os quintais produtivos e a ATER Mulher, e que essas iniciativas estão ameaçadas se a direita ampliar sua maioria no Legislativo, “dado que a prioridade da direita sempre foi o Agronegócio em detrimento das políticas que favorecem a agricultura familiar e alimentam o país”.

O que ainda falta fazer também está na pauta. Simone Magalhães defende que o “projeto de vida” exige políticas públicas concretas: “enfrentamento à fome (para isso precisa fazer a Reforma Agrária popular), de trabalho e geração de renda, melhorar o salário, desconcentrar a riqueza e a renda, taxar os mais ricos, garantir o acesso e a permanência da juventude à educação, desenvolver uma economia do cuidado para desonerar as mulheres negras das inúmeras jornadas domésticas, com lavanderias públicas, mais cozinhas solidárias, creches em tempo integral, e fortalecer e financiar o SUS”. Segundo ela, “esses são os temas e projetos que estão em jogo nesta eleição e que impactam sobremaneira as famílias negras do nosso país”.

Esse diagnóstico converge com o alerta de Juliana Brandão. A pesquisadora do Fórum Brasileiro de Segurança Pública sustenta que a prevenção precisa ser política de Estado, e não uma tarefa que recai sobre as vítimas. Diante da ofensiva, e em paralelo a esta disputa de projetos de país, os movimentos sociais pressionam pela aprovação do PL da Misoginia (PL 896/2023), que criminaliza o preconceito de gênero na Lei do Racismo. Essa e outras pautas progressistas enfrentam forte resistência de uma bancada conservadora que reúne cerca de 40% dos parlamentares e atua para desacreditar o movimento feminista e enfraquecer os mecanismos de controle social.

O contraste entre as duas gestões mostra que garantir vida, dignidade e igualdade exige fortalecer políticas públicas inclusivas e desconstruir estruturas machistas e racistas. Jair Bolsonaro, representado agora por Flávio, deixou desmonte, pobreza e incitação ao ódio. A retomada da proteção social e da reparação sob a liderança de Lula aponta, para o MST, o único caminho capaz de assegurar o progresso democrático e a justiça no país. Não é uma escolha difícil: mulheres e negros devem analisar qual projeto os quer vivos e quais são o caminho mais rápido para a exclusão e a morte. 

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