Flavio Bolsonaro livrou da cadeia assassino de menina de 5 anos

O candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) usou sua atuação como advogado para livrar de julgamento o policial militar que matou Ana Clara Gomes Machado, de 5 anos. O então senador assinou pessoalmente um recurso contra a realização do júri popular de Bruno Dias Delaroli. Cinco anos depois do crime, o PM continua em liberdade.

O caso ganhou um episódio da série Revelando e foi levado à televisão pela campanha do presidente Lula. A produção mostra que Flávio entrou na defesa justamente quando Delaroli estava perto de finalmente responder perante um júri pela morte da criança.

Ana Clara foi atingida por dois tiros de fuzil na manhã de 2 de fevereiro de 2021, na porta de casa, em Niterói, na Região Metropolitana do Rio. Ela tinha acabado de acordar e estava com a mãe e o irmão, de 2 anos, quando Delaroli abriu fogo.

O policial alegou que havia reagido a criminosos armados. A perícia feita no local desmontou a versão: foram encontradas apenas cápsulas de calibre 7,62, iguais às usadas pelo fuzil de Delaroli. Não havia nenhuma munição de pistola que indicasse troca de tiros. O exame balístico também apontou que os disparos que atingiram Ana Clara partiram da arma do PM.

“Eu escutei o menino falando: ‘É morador’. Aí eu dei aquele estalo, mas foi questão de segundos. Escutei ‘morador’ e escutei quatro tiros”, contou Cristiane Gomes da Silva, mãe da menina.

Delaroli foi preso em flagrante e denunciado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro. O delegado da Polícia Civil que acompanhou o caso afirmou não ter dúvida de que o cabo efetuou os disparos. Mesmo assim, o policial deixou a prisão em novembro de 2021 e passou a responder em liberdade.

Flávio entrou para impedir o julgamento

A Justiça decidiu que Delaroli deveria ser submetido ao Tribunal do Júri. A defesa tentou derrubar a decisão no Superior Tribunal de Justiça (STJ), mas perdeu. Quando o julgamento parecia inevitável, Flávio Bolsonaro apareceu no processo.

O candidato da extrema direita assinou de próprio punho um novo recurso para reverter a decisão e evitar que o policial fosse julgado. A partir daí, a defesa apresentou outras medidas que prolongaram o processo.

Delaroli chegou a ter dois julgamentos marcados para 2026, mas nenhum ocorreu. A nova previsão é de que o júri seja realizado apenas em 5 de maio de 2027, mais de seis anos depois da morte de Ana Clara.

“Ele assumiu o caso de um assassino. Tentou anular o júri do cara que matou minha filha. Tentou anular o júri de um cara que impediu uma criança de 5 anos de viver”, afirmou Cristiane.

A mãe da menina soube depois que o advogado que tentava impedir o julgamento era senador e agora pretende comandar o país. Para ela, a candidatura de Flávio aumenta o medo de que o crime permaneça impune.

“Ele, sem ser presidente, está fazendo o que está fazendo. Como senador, tentou anular o júri de um assassino. Você imagina ele como presidente, o que não vai fazer com o nosso Brasil?”, questionou.

Um histórico de proteção a policiais

A defesa de Delaroli não é um episódio isolado na trajetória de Flávio. O presidenciável já atuou como advogado de outros policiais acusados de homicídio e mantém uma relação antiga com agentes envolvidos em grupos de extermínio e milícias no Rio de Janeiro.

Em 2005, quando era deputado estadual, Flávio concedeu a Medalha Tiradentes, maior honraria da Assembleia Legislativa do Rio, ao então tenente Adriano da Nóbrega. O policial estava preso, acusado de matar um guardador de carros, e não pôde comparecer à cerimônia.

Anos depois, Nóbrega se tornou o principal suspeito de comandar o Escritório do Crime, grupo de matadores de aluguel ligado à milícia. A mãe e a mulher dele permaneceram empregadas no gabinete de Flávio mesmo durante períodos em que o policial respondia a acusações graves.

O programa também lembra que Flávio destinou quase R$ 200 mil em dinheiro público a um projeto indicado por Robson Calixto, o Peixe, ex-PM apontado como participante da articulação do assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes. Uma investigação posterior encontrou indícios de desvio dos recursos.

“Todo mundo tem direito à defesa, até os assassinos. Mas nem todo mundo tem a defesa de alguém com tanto poder político”, afirma Camila Pitanga, apresentadora do episódio.

Para Cristiane, a angustiante espera por Justiça não apagou o nome nem a história da filha, que dizia querer ser médica e que cuidaria de outras crianças. A mãe não pede vingança. Quer apenas que o homem que atirou seja julgado.

“Eu não desejo mal. Só quero que a Justiça seja feita. Que meu filho possa crescer sabendo que o monstro que matou a irmã dele pagou pelo que fez”, disse.

[VÍDEO – O Julgamento que Nunca Aconteceu]

O Julgamento que Nunca Aconteceu é o terceiro episódio da série Revelando, produção do Calma Urgente com distribuição do ICL Notícias, Mídia Ninja, 342 Artes e Intercept Brasil.

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