PF refaz perícia de material de “Dark Horse” que estava com polícia de Tarcísio

Mário Frias, Flávio Bolsonaro e Jim Caviezel nas gravações de “Dark Horse”. Foto: reprodução

A Polícia Federal realiza, por ordem do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), uma nova perícia no material apreendido na Operação Wi-Fi, conduzida pela Polícia Civil de São Paulo, subordinada ao governo Tarcísio de Freitas (Republicanos). Os peritos federais refazem análises feitas no estado e examinam aparelhos e documentos que ficaram sem perícia na investigação sobre suspeitas de desvios de recursos públicos para financiar “Dark Horse”, filme sobre Jair Bolsonaro (PL).

A PF recebeu o material no fim de agosto, por determinação de Dino. Em decisão de 13 de setembro, quando levantou o sigilo do inquérito, o ministro ordenou que peritos federais analisassem celulares, computadores e documentos entregues pelo secretário da Segurança Pública paulista, Oswaldo Nico Gonçalves.

A nova perícia abrange tanto itens já examinados pelo Instituto de Criminalística de São Paulo quanto materiais que o órgão estadual não havia periciado. Entre os celulares sem análise anterior está o aparelho de Karina Ferreira da Gama, empresária ligada à produção do longa.

Karina preside o Instituto Conhecer Brasil (ICB) e é sócia da Go Up Entertainment, produtora de “Dark Horse”. O ICB mantém contrato de R$ 108 milhões anuais com a Prefeitura de São Paulo para instalar wi-fi em áreas periféricas da capital.

Relatório aponta suspeitas de desvio para financiar o filme

Um relatório da própria Polícia Civil paulista apontou “consistentes suspeitas” de confusão patrimonial e de desvio de recursos do programa WiFi Livre SP para custear a produção do filme. O documento cita o uso de contas de empresas subcontratadas e de outras organizações administradas por Karina para movimentar os valores sob investigação.

“Há consistentes suspeitas de confusão patrimonial e de que os recursos públicos do programa ‘WiFi Livre SP’ tenham sido desviados para custear as atividades de produção do referido filme”, diz o relatório. Os investigadores tratam Karina como figura central das entidades e empresas examinadas no caso.

Karina Ferreira da Gama, produtora de “Dark Horse”. Foto: reprodução

A Polícia Civil também registrou que o Tribunal de Contas de São Paulo apontou ao menos 20 irregularidades graves no edital que resultou na contratação do ICB. Entre os problemas, o relatório menciona critérios genéricos para selecionar uma organização sem experiência prévia no setor de telecomunicações.
Os investigadores compararam os valores do contrato com os preços cobrados pela empresa pública Prodam. Enquanto a empresa municipal cobrava R$ 230 para implantar cada ponto de internet e R$ 306 pela manutenção mensal, o contrato com o ICB previa R$ 1.800 por ponto, valor que a polícia considerou pelo menos duas vezes superior aos preços usuais da administração municipal.

O relatório afirma que a instalação dos pontos avançou durante o período eleitoral de 2024 e chegou a 1.605 unidades ativas no fim de outubro daquele ano. Após a eleição, o ritmo caiu: em junho de 2025, havia 3.200 pontos ativos, e os 1.800 restantes não chegaram a ser instalados.

Com base no fornecimento efetivo de internet, a Polícia Civil calculou que o município deveria ter pago cerca de R$ 43 milhões. Os investigadores apontaram transferências de R$ 69 milhões e estimaram uma diferença de R$ 26 milhões por serviços que não teriam sido prestados.

Em investigação separada, autorizada pelo ministro André Mendonça, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) figura entre os investigados por possíveis crimes ligados ao financiamento de “Dark Horse”. A PF apura suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção envolvendo, em tese, recursos relacionados a Daniel Vorcaro, dono do extinto Banco Master.

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