Os bastidores do alerta da Abin à França e à Alemanha sobre interferência dos EUA

ABIN agência brasileira de inteligência
Foto: Pedro Ladeira/Folhapress

Autoridades francesas observam a eleição brasileira como um possível alerta antecipado para a disputa presidencial de 2027 em seu próprio país. Essa preocupação aparece nos bastidores da visita de uma delegação francesa e alemã a Brasília, onde representantes da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) relataram suspeitas de interferência dos Estados Unidos e da Rússia no pleito de outubro.

Segundo reportagem de Gabriel Stargardter, da Reuters, fontes e documentos mostram que os governos estão trocando informações sobre riscos de ingerência externa enquanto Donald Trump amplia o apoio a candidatos alinhados à direita em outros países.

A missão esteve no Brasil entre 9 e 11 de setembro e tinha entre seus objetivos “preparar respostas coordenadas antes das eleições de 2026”, conforme um documento consultado pela agência. A pauta incluía a aplicação da Lei de Serviços Digitais da União Europeia, que exige das plataformas medidas contra conteúdos ilegais e nocivos e é criticada por Washington sob a alegação de discriminar as big techs estadunidenses. A composição da delegação reunia especialistas diretamente ligados ao tema: a Viginum, responsável por detectar desinformação estrangeira na França; a Arcom, reguladora francesa de mídia e comunicações; e a Agência Federal de Redes da Alemanha.

Foi nesses encontros que integrantes da Abin afirmaram haver interferência dos dois países, segundo um relato elaborado por um participante. A descrição da atuação estadunidense ia do lawfare, uso do sistema jurídico como instrumento de disputa política, à interferência assumida abertamente. O alerta apresentado aos europeus também mencionou a Rússia, mas o relato não detalha quais ações seriam atribuídas a Moscou. Trata-se da avaliação comunicada pela inteligência brasileira, sem demonstração pública, na reportagem, de cada operação mencionada.

A preocupação também alcançou a segurança digital da Presidência da República. Uma alta autoridade brasileira da área cibernética, presente na reunião e ouvida sob anonimato, afirmou que os ataques cibernéticos no país quase dobraram em relação a 2025. A mesma fonte relatou uma alta acentuada de invasões e tentativas de phishing contra a Presidência, que é uma forma de fraudes que procuram induzir usuários a entregar informações ou credenciais, e associou essa escalada ao período eleitoral. O relato não identifica os responsáveis por essas investidas nem apresenta elementos para atribuí-las aos governos estadunidense ou russo.

Urnas
Servidores do Tribunal Regional Eleitoral do Distrito Federal (TRE-DF) testam lacre das urnas que serão usadas no primeiro turno. Foto: Pedro Ladeira/Folhapress

Os europeus acompanham precedentes concretos de apoio político de Washington no exterior. Os Estados Unidos ofereceram um socorro financeiro potencial de US$ 40 bilhões à Argentina antes das eleições legislativas, favorecendo Javier Milei, enquanto o vice-presidente JD Vance viajou à Hungria para apoiar Viktor Orbán em sua tentativa frustrada de reeleição. Na França, onde Marine Le Pen lidera pesquisas, autoridades rejeitam publicamente uma intervenção estadunidense e, em privado, acompanham o Brasil como sinal do que pode ocorrer em 2027. Na Alemanha, o apoio do governo Trump à Alternativa para a Alemanha (AfD), partido de extrema direita que ficou em primeiro lugar em duas eleições estaduais em agosto, também provoca críticas oficiais.

No Brasil, a reunião ocorreu depois de a Abin enviar à Presidência, ao Tribunal Superior Eleitoral e ao Ministério da Justiça um relatório que elevou o risco de interferência estadunidense a nível “crítico”, no fim de agosto. A agência relacionou a pressão à busca de hegemonia regional e de controle sobre ativos estratégicos. Havia ainda um antecedente diplomático: em outubro de 2025, nas negociações após o tarifaço, Washington apresentou uma exigência sobre a participação de “dissidentes políticos” nas eleições brasileiras. Integrantes do governo interpretaram a cláusula como uma referência a Jair Bolsonaro, e o chanceler Mauro Vieira determinou que a proposta fosse rejeitada como inaceitável.

Outra frente documentada envolve a contratação de serviços para operações psicológicas e de informação do Comando Sul, unidade militar estadunidense responsável pela América Latina e pelo Caribe. Duas ordens de 2026 destinadas à Halcyon Group International, para avaliação dessas operações e serviços da revista militar Diálogo, somam cerca de US$ 1,37 milhão em obrigações financeiras, com execução prevista até 29 de outubro. O termo de referência inclui português brasileiro e atividades de influência digital. Esses registros, porém, não descrevem uma operação dirigida à eleição brasileira, e os relatos disponíveis sobre o alerta da Abin não estabelecem vínculo com os contratos.

Arcom e Viginum confirmaram a participação na missão a Brasília. A agência alemã afirmou que uma eventual interferência dos Estados Unidos nas eleições da Alemanha não foi discutida no encontro. O Departamento de Estado não respondeu aos questionamentos sobre as reuniões, mas já havia negado tentar interferir na eleição brasileira. A revelação chega a quatro dias do primeiro turno, marcado para domingo (4), com Lula e Flávio Bolsonaro na disputa pela Presidência.

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