
O CEO do Estadão, Erick Bretas, reagiu neste domingo (28) a uma publicação do humorista Antonio Tabet que ironizava o jornal e retomava o controverso editorial “Uma escolha muito difícil”, de 2018.
Em um longo texto, Bretas disse ter estranhado a crítica, defendeu a cobertura do Estadão sobre Flávio Bolsonaro e o caso envolvendo Nossa Senhora Aparecida, e passou a questionar o que chamou de “súbito interesse” de Tabet por símbolos católicos, associando a controvérsia à reta final da disputa presidencial.
Confira o texto:
Confesso que estranhei essa postagem do Tabet, meu colega na Escola de Comunicação da UFRJ, com quem sempre mantive uma relação cordial e respeitosa. A referência ao editorial de 2018 “Uma escolha muito difícil” é evidente. A piada eu entendi, o que me escapa é o pecado que o Estadão teria cometido desta vez, na visão dele. Fico portanto a imaginar que o Tabet tenha lido no jornal algo que o desagradou. Talvez o editorial que aponta o caráter partidário da atuação de Flávio Dino no episódio. Talvez a cobertura crítica à circulação da fake news segundo a qual Flávio Bolsonaro pretendia retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil. (Flávio, convém lembrar, não é uma figura exatamente aplaudida pelo Estadão, que na última quarta-feira publicou o editorial “Flávio e a sombra dos milicianos”, alertando para o risco de uma eventual eleição do candidato do PL facilitar o acesso das milícias do Rio de Janeiro ao topo do poder da República.)
Sempre acompanhei com interesse e até admiração o trabalho do Tabet como humorista, em especial seu melhor personagem, o policial Pessanha. Mas a única ligação que conhecia entre ele e temas religiosos vinha dos especiais de Natal do Porta dos Fundos para a Netflix. O primeiro, “Se Beber, Não Ceie”, de 2018 — os apóstolos de ressaca depois da Última Ceia, sem saber onde foi parar o Messias —, rendeu ao grupo o Emmy Internacional de melhor comédia. Uma semana depois de receber o prêmio, o grupo dobrou a aposta com “A Primeira Tentação de Cristo”.
Vale lembrar a história. Jesus, interpretado por Gregório Duvivier, volta de quarenta dias no deserto para a festa surpresa dos seus trinta anos e apresenta à família o namorado, Orlando, personagem de Fábio Porchat — que no fim se revela ninguém menos que Lúcifer (desculpem o spoiler). Na festa, Maria e José contam ao aniversariante que ele é adotado e que o pai verdadeiro é Deus. E Deus, Ele mesmo, é interpretado pelo Tabet: um Deus autoritário, egocêntrico e com um interesse pouco católico por Maria.
Houve protestos, acusações de blasfêmia e pedidos de censura. Até aí, manifestações que podiam ser discutidas e contestadas publicamente. Mas um tal Eduardo Fauzi entrou no debate de outra forma: com coquetéis molotov atirados contra a sede da produtora, na véspera do Natal de 2019. Depois, fugiu para a Rússia. Neste ano, foi condenado a quatro anos e oito meses de prisão.
Não sou católico nem sigo religião alguma. Defendo o direito de Tabet fazer piadas com Jesus e seus apóstolos, assim como o dos cartunistas do Charlie Hebdo de caricaturar Maomé. Esse direito não pode depender da disposição do ofendido para rir. Como aprendemos com Orwell, a liberdade inclui o direito de dizer às pessoas o que elas não querem ouvir.
Por isso mesmo, acho perfeitamente defensável o ponto de quem se voltou contra o ministro André Mendonça pela derrubada em massa de mais de mil postagens sobre o tema — como fez o próprio Tabet, na reclamação que acabou levando à decisão do ministro Flávio Dino.
Sejam bem-vindos os que só agora descobriram o valor da liberdade de expressão, inclusive os que até anteontem aplaudiam os arroubos autoritários do ministro Alexandre de Moraes no agora moribundo inquérito das fake news. (Millôr já tinha explicado o fenômeno: democracia é quando eu mando em você; ditadura é quando você manda em mim.) Mas também entendo os argumentos jurídicos de quem sustenta que o ambiente eleitoral, ainda mais na sua derradeira semana, não pode ser um vale-tudo.
O que é mais difícil de defender é o súbito interesse por símbolos do catolicismo. E que aflora, não por acaso, na reta final de uma eleição muito difícil para o presidente Lula, em que cada dia traz um tema novo — Nossa Senhora Aparecida na quinta, as bets na sexta —, sempre apresentado como a bala de prata que vai selar o resultado das urnas. Resultado que, a julgar por pesquisas e trackings, segue teimosamente em aberto. E que se decide nas urnas, não no altar.
Apesar de especulações em contrário, não é o cargo de padroeira do Brasil que está em disputa. É o de presidente.
Confesso que estranhei essa postagem do Tabet, meu colega na Escola de Comunicação da UFRJ, com quem sempre mantive uma relação cordial e respeitosa. A referência ao editorial de 2018 “Uma escolha muito difícil” é evidente. A piada eu entendi, o que me escapa é o pecado que o… https://t.co/wImIj98M3l
— Erick Bretas (@bretas_erick) September 28, 2026