Uma característica chama atenção na cobertura da eleição presidencial de 2026: o segundo turno passou a ocupar espaço relevante no noticiário antes mesmo de o primeiro turno estar politicamente definido.
Isso representa uma mudança de intensidade em relação a 2014, 2018 e 2022. Segundo levantamento da Rede de Estudos Democráticos – ReDem, as referências ao segundo turno representavam 8,6% da cobertura eleitoral em 2014, 7,2% em 2018 e 9,6% em 2022. Em 2026, chegaram a 14,6% até 10 de junho e a 22% apenas no mês de junho.
A questão, portanto, não está simplesmente na existência das simulações de segundo turno. Elas já eram utilizadas anteriormente. O que chama atenção é a centralidade que passaram a ocupar na construção cotidiana da narrativa eleitoral.
Uma eleição marcada pela ausência de Bolsonaro
O contexto político ajuda a entender essa mudança. Jair Bolsonaro, principal polo da direita nas eleições de 2018 e 2022, chegou ao ciclo eleitoral de 2026 inelegível. A sucessão desse campo passou a ser disputada por diferentes nomes, enquanto as pesquisas começaram a testar com frequência confrontos individuais contra Lula.
Ainda em 2025, a Quaest já apresentava cenários envolvendo Tarcísio de Freitas, Michelle Bolsonaro, Ratinho Júnior, Romeu Zema e Ronaldo Caiado. Em junho daquele ano, por exemplo, Lula aparecia tecnicamente empatado com Tarcísio em uma simulação de segundo turno, enquanto Michelle, Ratinho e Zema também eram testados em confrontos diretos.
Isso é importante porque mostra que a presença de candidatos com votação mais baixa no primeiro turno não surgiu apenas posteriormente. O que mudou foi a dimensão política e midiática atribuída a esses confrontos.
Em julho de 2025, Donald Trump anunciou uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros e vinculou publicamente a medida ao processo contra Bolsonaro. O episódio acrescentou uma dimensão internacional à disputa política brasileira, enquanto o processo contra o ex-presidente avançava no Supremo Tribunal Federal.
Não é possível estabelecer, apenas a partir desses acontecimentos, uma relação causal entre a crise política e a mudança na cobertura das pesquisas. É possível, porém, observar que a disputa sucessória passou a ser acompanhada em um ambiente de forte polarização e de definição antecipada dos possíveis adversários de Lula.
O primeiro turno e o segundo turno medem coisas diferentes
É nesse ponto que a cobertura das pesquisas merece atenção.
Uma pesquisa de primeiro turno apresenta ao eleitor um conjunto de candidatos e procura medir a distribuição das preferências entre eles. Já uma simulação de segundo turno elimina todos os demais nomes e coloca dois candidatos frente a frente.
Essa diferença pode produzir um efeito importante na percepção pública. Um candidato que aparece com poucos pontos no primeiro turno pode alcançar uma votação muito maior quando colocado sozinho contra Lula.
A própria Quaest mostrou isso em diferentes levantamentos. Em junho de 2025, por exemplo, Zema tinha 33% contra 42% de Lula em um eventual segundo turno, enquanto Caiado aparecia em patamares próximos em outros cenários.
O dado não significa que esses candidatos tenham o mesmo tamanho eleitoral no primeiro turno. Significa que uma parcela relevante do eleitorado pode escolher um nome quando a pergunta deixa de ser “em quem você votaria entre várias opções?” e passa a ser “em quem você votaria entre esses dois?”.
A diferença é metodológica, mas também pode produzir consequências na comunicação política.
Quando a pesquisa vira narrativa
Institutos de pesquisa não precisam fabricar um candidato para contribuir para sua visibilidade. O mecanismo pode ser mais simples: medir, publicar, repercutir e repetir.
Quando um nome aparece sucessivamente em gráficos, manchetes, entrevistas e simulações de segundo turno, ele passa a integrar o repertório cotidiano da eleição. Mesmo que sua intenção de voto no primeiro turno seja pequena, sua presença recorrente pode reforçar a percepção de que se trata de um candidato efetivamente competitivo.
É nesse ponto que entra o conceito de agendamento. A mídia não precisa alterar os números de uma pesquisa para interferir na percepção sobre a eleição. A seleção dos dados que ganham destaque também ajuda a definir quais temas, candidatos e confrontos merecem atenção pública.
Forma-se, então, um possível circuito: a pesquisa mede uma hipótese, a imprensa transforma essa hipótese em notícia, a exposição amplia o conhecimento sobre determinado candidato e novas pesquisas passam a medir novamente esse nome.
Isso não significa que a mídia determine o resultado ou que um candidato seja artificialmente criado. A hipótese é mais específica: a cobertura pode contribuir para fabricar a percepção de viabilidade política ao definir quais possibilidades recebem centralidade antes de serem efetivamente testadas nas urnas.
O que há de novo em 2026
Pesquisas de segundo turno não são novidade. A polarização também não. A diferença está na combinação entre esses elementos em um momento no qual a própria sucessão da principal liderança da direita ainda está em disputa.
Em 2014, 2018 e 2022, o eleitorado chegou ao período eleitoral com campos políticos mais claramente identificados. Em 2026, a ausência de Bolsonaro abriu uma disputa sucessória que vem sendo acompanhada pelas pesquisas antes da definição formal das candidaturas.
Nesse ambiente, a pergunta “quem pode derrotar Lula?” pode ganhar mais espaço do que a pergunta anterior, “quem será escolhido pelo eleitor no primeiro turno?”.
A mudança parece pequena, mas altera o enquadramento da eleição. O segundo turno deixa de ser apenas uma etapa posterior da disputa e passa a funcionar como referência para interpretar o primeiro turno.
É justamente aí que está a questão central. A pesquisa mede possibilidades, mas a cobertura decide quais dessas possibilidades ganham centralidade.
A eleição de 2026, portanto, oferece um caso particularmente interessante para observar a fronteira entre medir uma disputa e ajudar a definir quais disputas parecem reais antes que elas aconteçam.