De padrinho a aliado silencioso: a relação de Toffoli e Mendonça que amplia crise no STF e irrita Lula

André Mendonça e Dias Toffoli. Foto: reprodução

O silêncio adotado pelo ministro Dias Toffoli no caso Banco Master acabou alterando a correlação de forças dentro do Supremo Tribunal Federal (STF) e favorecendo André Mendonça em meio à crise que atingiu a Corte. Declarado suspeito “por foro íntimo”, Toffoli deixou de votar em processos relacionados ao caso e, na sessão de 15 de setembro, sua ausência contribuiu para impedir que Alexandre de Moraes formasse uma maioria mais confortável no plenário.

De acordo com informações do Uol, Toffoli poderia ter reivindicado participação em parte da discussão, segundo assessores do STF citados no relato, já que a questão de ordem levantada por Gilmar Mendes não atingia diretamente o mérito sobre uma eventual investigação contra Moraes. Ainda assim, preferiu se declarar fora do julgamento.

“Por suspeição de foro íntimo, para preservação da Corte, do ponto de vista de eventuais especulações, eu declaro a minha suspeição para participar desse julgamento, mas não me retirarei”, afirmou.

Toffoli permaneceu sentado no plenário. Durante a sessão, um assessor levou até ele um bilhete escrito à mão por Mendonça. Após ler, o ministro respondeu ao colega com um sinal positivo com o polegar. A cena remete a uma relação construída ao longo de quase duas décadas.

O primeiro elo importante ocorreu em 2007, quando Toffoli assumiu a Advocacia-Geral da União no segundo governo Lula. Uma mudança implementada por ele permitiu a promoção de centenas de integrantes da carreira, entre eles André Mendonça, então com 35 anos. Na AGU, Mendonça ganhou projeção ao atuar em negociações para recuperar recursos desviados no escândalo envolvendo o ex-juiz Nicolau dos Santos Neto e o empresário Luiz Estêvão.

Anos depois, as trajetórias voltariam a se cruzar. Já presidente do STF, Toffoli recomendou Mendonça para comandar a AGU no governo Jair Bolsonaro (PL). Em 2019, Mendonça organizou um livro em homenagem aos dez anos de Toffoli no Supremo, em parceria justamente com Alexandre de Moraes. Os dois exaltaram “a profunda capacidade de diálogo” do homenageado.

Jair Bolsonaro e André Mendonça. Foto: reprodução

Em 2021, quando Bolsonaro buscava um nome para uma vaga no Supremo, Toffoli novamente avalizou Mendonça. O então presidente acabaria escolhendo aquele que se apresentou ao eleitorado como ministro “terrivelmente evangélico”.

A inversão de papéis ocorreu em fevereiro deste ano. Um relatório da Polícia Federal colocou Toffoli sob suspeita por negócios associados à teia financeira do Banco Master e ao resort Tayayá, no Paraná. Após uma reunião reservada dos ministros, ele deixou a relatoria do caso. O substituto sorteado foi justamente Mendonça.

A partir daí, Toffoli passou a evitar decisões sobre o Master, enquanto Mendonça ganhou espaço na Segunda Turma. Em março, o colegiado manteve por unanimidade a prisão de Daniel Vorcaro. Em junho, Mendonça renovou prisões de familiares do banqueiro, com apoio de parte do grupo. Já em agosto, determinou que a PF buscasse identificar o interlocutor de Vorcaro em mensagens atribuídas a Alexandre de Moraes.

Vista aérea do Resort Tayayá, no Paraná. Foto: reprodução

A postura de Toffoli também aprofundou seu distanciamento de Lula. Durante o lançamento de sua campanha à reeleição, o presidente relembrou que o ministro, indicado por ele ao STF em 2009, não autorizou sua saída da prisão para o enterro do irmão Vavá.

“No tempo da ditadura militar, um delegado de polícia permitiu que eu saísse da cadeia pra ir no enterro da minha mãe [Dona Lindu, em 1980] . Agora, no regime democrático, um juiz, um ministro que eu indiquei não permitiu que eu saísse da cadeia para ir no enterro do meu irmão Vavá”, disse Lula.

“Os homens não são medidos por épocas, são medidos pelo caráter, pela dignidade, pela criação que ele teve de berço.”

Ao mesmo tempo, a relação de Lula com Mendonça também se deteriorou. O governo passou a acusar o ministro de conduzir o caso Master de maneira desigual, com maior rapidez em procedimentos que atingiam aliados do Planalto. A tensão explodiu após Mendonça determinar o afastamento do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, decisão posteriormente derrubada por Flávio Dino.

Lula então acusou Mendonça de promover “vazamento seletivo” e agir com “viés político”. O episódio também afastou circunstancialmente o ministro de Jorge Messias, advogado-geral da União, que anteriormente buscava construir pontes entre o Planalto e o magistrado.

Entre Toffoli e Mendonça, porém, permanece uma relação descrita nos bastidores como “mais carinhosa” até do que a mantida entre Mendonça e Messias. Isso não significa alinhamento político automático, mas ajuda a explicar por que o silêncio de Toffoli teve peso relevante na atual disputa interna do Supremo.

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