O legado de Apolônio de Carvalho inspira o internacionalismo do MST

Foto: Reprodução

Por Rosana Fernandes
Da Página do MST

O contexto atual nos apresenta elementos de análise da América Latina que contribuem para reafirmar o legado de Apolônio de Carvalho observando duas dimensões complementares: a dimensão estrutural que universaliza a desigualdade através da superexploração e espoliação de matérias-primas e bens da natureza. A outra dimensão é a histórico-cultural que apresenta uma herança colonial, pois a classe trabalhadora latino-americana é atravessada por questões étnico-raciais e lutas de resistências históricas contra a opressão antes mesmo da consolidação do modelo capitalista industrial moderno. Essas duas dimensões se conectam à nova ordem de pressão geopolítica, especialmente pela ingerência comercial de Washington com imposições de tarifas, sanções e as disputas por recursos estratégicos que reconfiguram as dinâmicas de exploração e acirram as desigualdades materiais entre os trabalhadores. Esse cenário político regional vive uma retomada da extrema direita e o ressurgimento de velhas doutrinas perpetuadas sob o uso da violência e enfraquecem a governabilidade democrática que impacta diretamente nas pautas territoriais e nos direitos das populações marginalizadas.

A conjuntura política da América Latina escancara que o internacionalismo de classe não é uma escolha retórica, mas uma necessidade de sobrevivência frente ao avanço coordenado das forças reacionárias na região. Por um lado, o ordenamento hegemônico do capital se traduz politicamente em uma violenta ofensiva imperialista, caracterizada pelo retorno agressivo da lógica de “zonas de influência” conduzida por Washington e pela consolidação de governos subalternos de extrema-direita. Esse bloco reacionário utiliza o aparato do Estado para impor pacotes brutais de austeridade, criminalizar os movimentos populares e aplicar a “guerra jurídica”, através de distorções de leis e de sistema judicial contra a esquerda, com o único objetivo de garantir o fluxo de espoliação de riquezas. Por outro lado, a resistência a esse projeto não se organiza a partir de um reformismo institucional conciliador, mas sim no protagonismo das massas populares, camponesas e dos povos indígenas e negros, que historicamente guardam a memória das lutas anticoloniais. Ao pautarem a defesa de seus territórios contra o extrativismo transnacional e enfrentarem a violência política patrocinada pelas burguesias locais, esses setores marginalizados transformam a revolta étnico-racial em combustível para a luta anticapitalista. Portanto, a visão política do internacionalismo latino-americano exige romper com o pragmatismo eleitoral e reconstruir a solidariedade de base com o horizonte de libertação anti-imperialista e socialista.

O que nos diria hoje Apolônio de Carvalho sobre esse cenário geopolítico? Ele que desde as terras pantaneiras transcendeu as fronteiras não só do seu Estado, mas de alguns países, erguendo a voz contra o fascismo, um movimento político autoritário, nacionalista e antidemocrático, que defende a concentração do poder em um líder; defende o militarismo e culto à violência através da repressão; que censura e persegue os opositores; que busca o enfraquecimento ou fim das instituições democráticas, além de controle da sociedade através dos meios de comunicação burgueses. O fascismo italiano que surgiu após a I Guerra Mundial influenciou outros regimes autoritários.

Apolônio de Carvalho foi um militar, revolucionário e político brasileiro conhecido por sua luta contra o fascismo e por sua participação na resistência democrática. Em 1935 participou da Intentona Comunista como militar ligado à Aliança Nacional Libertadora (ANL), movimento que reunia setores comunistas, socialistas, tenentistas e outros opositores de Getúlio Vargas. A Intentona defendia a derrubada do governo autoritário de Vargas; a implantação de um governo popular, reformas sociais e políticas, entre outras questões. O Partido Comunista Brasileiro (PCB) foi um dos principais organizadores, impulsionando um levante em diversas cidades, dentre elas, o Rio de Janeiro, onde Apolônio servia como oficial do exército e participou ativamente. A história já conhecida de derrota do movimento resultou em prisão, expulsão do exército e perseguição política contra Apolônio e outros combatentes. Essa experiência marcou sua trajetória e reforçou seu compromisso na luta contra regimes autoritários, o que o levou a combater o fascismo na Guerra Civil Espanhola (1936-1939) ao lado de brigadas internacionais e a participar da Resistência Francesa contra o nazismo durante a II Guerra Mundial (1939-1945).

A sua militância política seguiu após o seu retorno ao Brasil e durante a ditadura civil-militar viveu na clandestinidade e passou alguns anos no exílio. A partir da anistia de 1979, retorna às terras brasileiras contribuindo com a fundação do Partido dos Trabalhadores (PT).

Apesar das limitações da saúde e da idade, Apolônio prossegue militante que não se furta jamais aos debates e à manifestação pública de suas posições de socialista convicto. Um socialista que soube combater criticamente as distorções do socialismo real, mas que, nem por isto (ou por isto mesmo), a queda do muro de Berlim ou o diversionismo das teorias propagadas pelo capital conseguiram dobrar (ESTEVAM SILVA, 2024).

Na incansável atuação combativa, a luta e o afeto se encontraram, Apolônio e a jovem comunista Renée viveram uma história de amor entre a clandestinidade e a constituição familiar. Amor que perdurou por décadas e talvez pela infinitude no plano celestial com a sua partida física em 23 de setembro de 2005 e dela em 13 de setembro de 2018, após 13 anos da partida física de seu companheiro.

A vida de Apolônio de Carvalho e a sua trajetória representa o internacionalismo, a defesa da democracia e a resistência à opressão. O internacionalismo de Apolônio foi a ideia de que as lutas não deveriam ficar limitadas às fronteiras do Brasil, podendo construir unidade entre diferentes povos e países em defesa da liberdade e da justiça social. Acreditou que lutar contra as forças fascistas em qualquer parte do mundo deveria ser uma luta de todos os povos, em resistência, como causa comum. Por isso, mesmo estando no Brasil, manteve vínculos com setores comunistas e democráticos de outros países. Defendia a solidariedade internacional como forma de resistência.
Pela maneira de compreender essa necessidade, o lutador internacionalista inspira o Movimento Sem Terra (MST) a reafirmar a sua concepção de internacionalismo de classe:

O internacionalismo de classe trata de um processo que articula o resgate histórico da memória de lutas e da formação social com a construção de um projeto político de superação da ordem hegemônica. Pois da mesma forma que a gênese, desenvolvimento, consolidação e reprodução do sistema capitalista foi e é um processo internacional, também será de ordem internacional a sua superação”

(FERNANDES & SILVA, 2021, p. 05).

Essa perspectiva vem desde o nascimento do MST, constituindo a dimensão internacionalista de uma organização camponesa, que parte da presença e solidariedade de pessoas e organizações populares internacionais nas atividades como Encontros e Congressos Nacionais, defesa da luta como dimensão da justiça social e a não criminalização do Movimento, mas que se aprofunda nas articulações como a Via Campesina, a Alba Movimientos, Assembleia Internacional dos Povos (AIP), para citar alguns exemplos. Além desses, a construção da Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF) é um profundo ato de solidariedade, não só no aspecto da estrutura física, mas principalmente no seu método educativo e na integração internacional presente em seu territorio. Sobretudo, o MST retribui a solidariedade recebida ao longo de sua história, fortalecendo dessa maneira a sua concepção sobre o internacionalismo:

O internacionalismo para o Movimento é concebido desde três dimensões fundamentais que são como princípio, valor e estratégia. A dimensão do internacionalismo como princípio está no sentido de uma dimensão “ético moral” que orienta as condutas e comportamentos dos militantes da organização. A dimensão do valor tal qual um alicerce, é um componente constitutivo da prática da organização na implementação e vivência dos valores humanistas e socialistas. E a dimensão da estratégia é um componente que ao fazer parte da leitura da realidade, também formula sua intervenção na mesma, a partir de objetivos definidos diante de um projeto estratégico (MST, 2015).

Dentre outras ações concretas do internacionalismo, o MST foi organizando as experiências das brigadas internacionalistas, bebendo em experiências anteriores, incluindo o legado de Apolônio de Carvalho. As brigadas foram se conformando a partir de demandas que chegam até o Movimento, e suas instâncias deliberam sobre ter ou não uma brigada de militantes Sem Terra em um determinado país ou região. Não há dúvidas que a presença física do MST junto às organizações populares, além de contribuir com processos de formação, educação, produção etc, tem muito a ensinar aos militantes; qualifica a sua formação política, intelectual e aprofunda a análise da realidade; fortalece valores humanistas e socialistas, reafirma o compromisso com as causas dos povos do mundo. Atualmente há brigadas internacionalistas do MST no Haiti, Cuba, Zâmbia, China, Venezuela, além de estudantes internacionalistas, especialmente nas reconhecidas Escolas Latino-Americanas de Medicina de Cuba e Venezuela. Cada brigada define o seu nome, em geral homenageia um lutador ou lutadora, referencia política e humana.

Em destaque, apresentamos as homenagens designadas ao referente desta data de 23 de setembro, 21 anos de sua ausência física. A Brigada Apolônio de Carvalho (BAC) que atua na ENFF, território nacional, mas numa escola internacionalista, pois além da colaboração internacional para a sua construção física, em alguns momentos do ano a ENFF conta com a presença de dezenas de militantes de organizações populares internacionais que, a partir da metodología da Escola se inserem no trabalho militante, na vivência das místicas com a diversidade de bandeiras e o Hino A Internacional entoado em diferentes idiomas, no repertório cultural, na culinária entre outros aspectos. A BAC está presente em cada momento construindo juntos, exercendo o papel de educadores e educadoras na responsabilidade que toca a cada pessoa. A BAC ecoa a palavra de ordem Apolônio de Carvalho, internacionalista. Na formação de quadros para a luta socialista! como compromisso de seguir construindo a ENFF no cotidiano para alcançar o seu principal objetivo, formar quadros da classe trabalhadora mundial para o projeto socialista.

Em território internacional está a Brigada Internacionalista Apolônio de Carvalho (BIAC) que atua na Venezuela desde 2005. Um relatório interno indica que mais de cem militantes já estiveram contribuindo na BIAC, com atuação permanente nos territórios, especialmente nas comunas campesinas com trabalho em diferentes frentes, como na produção com a reprodução de sementes agroecológicas, experiências de agroflorestas, bioinsumos, sistema voisin para criação de gado. Atua também no Instituto Universitário Latino-Americano de Agroecologia “Paulo Freire” (IALA) que é um território educativo que possibilita dezenas de jovens acessar um curso de graduação com enfoque na agroecologia. Na área da formação em conjunto com as escolas das organizações populares realizam cursos de base nos territórios e para a militância. Na educação escolar a presença e contribuição com elementos da educação popular e da Pedagogia do Movimento Sem Terra, para a formação de educadores e educadoras, construindo a educação comunal, junto com o debate do feminismo comunal e a participação efetiva das mulheres nos processos de lutas e resistencias. Enfim, uma brigada que tem contribuído com o povo venezuelano e aprendido muito com o processo da revolução bolivariana que efetivamente consolida o poder popular desde a experiência comunal.

As experiências das brigadas internacionalistas são indissociáveis da unidade entre teoria crítica e a ação política que ultrapassa fronteiras. Longe de ser um mero sentimento de solidariedade abstrata ou uma simpatia burocrática, o internacionalismo na tradição revolucionária exige uma postura ativa, organizada e profundamente vinculada aos sujeitos em luta. A militância internacionalista exige que o ou a militante e as suas organizações populares compreendam como as contradições locais estão conectadas à engrenagem do sistema global, assim aumenta a complexidade da luta que precisa ser contra as opressões estruturais do capitalismo, do imperialismo e do colonialismo.

O legado de Apolônio de Carvalho segue vivo na práxis militante internacionalista, fortalecendo a convicção daqueles e daquelas que estão dispostos e dispostas a apoiar movimentos de libertação, resistir a sanções econômicas e construir alternativas de vida e poder popular que apontem para um horizonte pós-capitalista. A práxis militante internacionalista é, portanto, não perder a esperança de construir o socialismo.

Viva Apolônio de Carvalho!

Internacionalizemos a luta. Internacionalizemos a esperança!

Referências

FERNANDES, R. C.; SILVA, F.T.F. O internacionalismo como prática pedagógica na Escola Nacional Florestan Fernandes. Germinal: Marxismo e Educação em debate, v. 13, n. 3, Salvador, 2021.

MST. Linhas Políticas para nossas ações internacionalistas. São Paulo, 2015.
SILVA, E. Apolônio de Carvalho, o herói de três pátrias. São Paulo, 2024.

*Editado por Fernanda Alcântara

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