Nem tudo que brilha é ouro: Para onde olha a esquerda brasileira?

Neste dia 22 de setembro começou em Nova Iorque a Assembleia Geral da ONU. Em sua chegada à cidade, o Presidente Lula fez algumas reuniões: encontrou-se com o presidente do Uruguai, Yamandú Orsi; com o senador do partido Democrata e principal nome da esquerda estadunidense, Bernie Sanders; com o prefeito nova-iorquino Zoran Mamdani.

Este último encontro levou a vanguarda da esquerda brasileira ao êxtase e me fez refletir acerca de alguns temas e sobre uma ideia que busco apresentar neste breve texto: a de que parte da esquerda socialista brasileira consegue ser utópica e ocidentalista em medidas semelhantes. Nosso campo político, em sua maioria diante da barbárie representada pelo fascismo e pela extrema-direita, se agarra a qualquer símbolo progressista de esperança, desde que estes símbolos venham do Norte Global.

O herói máximo do último período é o prefeito de Nova Iorque. Zoran Mamdani com sua candidatura, que enfrentou e venceu tanto a máquina milionária dos democratas, quanto o discurso de ódio reacionário e as mentiras dos republicanos, reivindicando o socialismo e justiça social, tornou-se uma referência. Mais do que isso, Mandami se tornou um exemplo e um símbolo que passou a ser imitado.

Desde as eleições de Mamdani com seus vídeos virais nas redes sociais, até o período eleitoral brasileiro, diversos parlamentares passaram a copiar o que era feito pelo novo prefeito da cidade mais rica do mundo. Copiaram desde sua forma de fazer vídeos e alguns até mesmo suas cores e identidade visual, como se fosse apenas isto que tivesse permitido a Mandami ter sido eleito.

O resultado foi uma chuva de conteúdos semelhantes nas redes sociais e que em sua imensa maioria deram errado. Pois não se tratava apenas da forma, mas da junção desta com o conteúdo: a criatividade na forma, com uma capacidade para ousar, uma presença sempre junto do povo e a combatividade, tocando em temas do cotidiano da população e apresentando saídas concretas para eles.

Mas este texto não se trata de Mamdani e de seu sucesso, mas sim de como a esquerda socialista brasileira diante de sua crise estratégica e falta de capacidade imaginativa busca se encantar com qualquer brilho que surja no céu.

Hoje, surge um novo postulante ao papel de novo símbolo da esquerda socialista, a campanha vitoriosa à prefeitura de Berlim, do partido Die Linke, liderado por Elif Eralp. Aparentemente vem da Alemanha o novo caso de sucesso a ser analisado e copiado. Logo logo teremos eleições na França e, com certeza, virá um novo modelo que irá inspirar nossa esquerda.

Novamente, não se trata de achar que o Die Linke não tem nada de interessante. O expressivo resultado feito entre os jovens é de louvar e entender. Mas a realidade alemã, seus partidos e composição de governo recente, tem uma trajetória muito diferente de nosso país.

Um fato curioso é que ao se encontrar com Lula, apontado por grande parte da esquerda socialista como ultrapassado e criticado por realizar um governo “a frio”, Mamdani declarou que aprendeu com Lula a fazer política para a classe trabalhadora. Algo curioso e interessante, enquanto nossa esquerda socialista busca referências em figuras do Norte Global, estas figuras afirmam que seus exemplos são aqueles que estão próximos de nós.

A verdade é que governos progressistas da Europa e dos Estados Unidos farão políticas públicas inspiradas no governo brasileiro e da primeira onda rosa da América do Sul. A ironia é que grande parte da esquerda socialista vira as costas para as políticas públicas feitas nas últimas décadas em nosso país, não vendo sua importância, acusando-as de serem insuficientes, e ainda aplaudem medidas semelhantes quando feitas em outros países. Moções de louvores a criação de supermercados públicos em Nova Iorque para combater a fome (inspirados nos mercados públicos venezuelanos criados por Hugo Chávez), e fazemos pouco caso das cozinhas comunitárias brasileiras criadas pelos movimentos sociais e do PAA.

As políticas públicas brasileiras de redistribuição de renda são modelos estudados em todo mundo, como o caso do Bolsa Família, por exemplo.

Ouso dizer que a esquerda do Norte Global pouco ou nada tem para nos ensinar. São eles que olham para nós buscando aprender.

Vale destacar que a esquerda brasileira ganhou 6 das últimas 5 eleições, sofreu um golpe, foi demonizada pela mídia e pela burguesia, perseguida judicialmente, teve seu maior líder preso de forma injusta, sofreu nova tentativa de golpe, tirou o país do mapa da fome duas vezes e fez uma transformação no país. Uma esquerda deste porte e que conta com a presença de um movimento social como o MST, não deve continência a nenhuma outra esquerda do Norte global. Isto não significa que somos perfeitos. Temos inúmeros problemas. Entre eles uma profunda crise programática e estratégica, a incapacidade de construção de hegemonia, uma crise de renovação e uma dicotomia entre parlamento/governo e movimento social nunca superada. Mas estes problemas se resolvem olhando para nossa própria terra, nosso próprio chão, nosso próprio caminho. Não buscando inspiração em modelos que somente agora, em 2026, descobriram o genocídio palestino, a existência do eurocentrismo e do colonialismo.

Não se trata de achar ruim aquilo que o prefeito de Nova Iorque ou a esquerda alemã e francesa fazem, eles são bons e tem elementos interessantes. A questão é outra.

O fato é que realidade brasileira, nossos dilemas, a necessidade de criar modelos organizativos que respondam aos dilemas de nosso povo e a forma que a classe trabalhadora vive no Brasil do século XXI devem ser o foco de estudo e interesse, e isso segue ignorado.

Posfácio

Sendo justo, nem todas as inspirações da esquerda socialista vêm do Norte Global. Como toda regra existe uma exceção, habitam também em nosso campo aqueles que buscam performar uma latinidade. Na busca para ser “decolonial” olham para América Latina e dizem que o ex -presidente colombiano Gustavo Petro era o farol da esperança.

Petro se tornou o líder máximo de nosso sub-continente e era nele que o Presidente Lula deveria se espelhar e seguir o exemplo. Afinal, Petro governa “a quente”. Petro chama mobilizações populares. Petro desafiava Trump pelo twitter. No fim, o tempo passou. Petro perdeu as eleições em seu país.

 

 

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