
Por Leonardo Sakamoto, publicado no UOL
“João amava Teresa que amava Raimundo, que amava Maria, que amava Joaquim, que amava Lili”, diz o antológico poema “Quadrilha” de Carlos Drummond de Andrade. Se a “Quadrilha” do poeta fosse atualizada, os versinhos hoje seriam “Vorcaro era cobrado por Flávio, que era cobrado por Peixe”.
O candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que pediu R$ 134 milhões ao seu “irmão” Daniel Vorcaro, o bandido-Master, recebendo, ao menos, metade disso, também era alvo de demandas da banda mais letal do crime organizado carioca: uma milícia envolvida no assassinato da vereadora Marielle Franco. Robson Calixto Fonseca, o “Peixe”, é apontado como o homem que apresentou os mandantes do crime aos executores e providenciou a submetralhadora usada para assassinar a vereadora e o motorista Anderson Gomes.
Reportagem de Breno Pires, na revista piauí, mostra que Peixe tratava o gabinete de Flávio com a intimidade de quem se sente em casa. “Amiga vê com o nosso Senador se consegue nos ajudar”, escreveu o miliciano pelo WhatsApp a Maria de Fátima Bezerra Castro, assessora de Flávio. O “nosso senador” não decepcionou: destinou uma emenda parlamentar de quase R$ 200 mil para uma ONG na Taquara, área de milícia e reduto eleitoral dos irmãos Brazão.
A relação era tão promíscua que ia muito além do balcão de repasses federais. Enquanto o Tribunal de Contas da União (TCU) encontrava irregularidades grosseiras no uso dessa verba pública, a assessora de Flávio pedia a Peixe ingressos vips para o desfile das campeãs no cobiçado “camarote Arpoador”. Sim, não era apenas Vorcaro que distribuía acesso a shows para os seus.
O miliciano também recebia convites oficiais do gabinete para eventos da Polícia Militar, com a recomendação da assessora para que levasse a tiracolo o então deputado Chiquinho Brazão, a fim de reforçar seus pedidos pessoalmente. No celular do criminoso, o telefone do gabinete estava salvo, segundo a Polícia Federal, como “Fafa Flávio Bolsonaro”.
O apoio a facções criminosas que já vestiram farda e cobram taxa de segurança não é um acidente de percurso, mas o alicerce da carreira de Flávio. Basta puxar a capivara política do seu tempo de deputado estadual na Alerj. Ele é o mesmo parlamentar que homenageou o ex-capitão do Bope Adriano da Nóbrega com a Medalha Tiradentes enquanto este estava preso por homicídio.

E, quando os crimes de Adriano já eram largamente conhecidos, Flávio ainda empregou a mãe e a ex-mulher de Adriano em seu gabinete com salários de mais de R$ 6 mil pagos pelo contribuinte, na época do notório esquema das “rachadinhas” operado pelo seu faz-tudo Fabrício Queiroz.
Para manter a pose para a própria base eleitoral, Flávio atravessa o continente e vai bater à porta de Donald Trump, implorando para que os Estados Unidos classifiquem o PCC e o Comando Vermelho como grupos terroristas. É uma cruzada cirurgicamente seletiva e hipócrita. Primeiro, porque o deputado que ele, inicialmente, apoiou para disputar o governo do Rio, Rodrigo Bacellar, caiu em desgraça quando agiu como X9 para ajudar envolvidos com o CV.
Mas, principalmente, porque ele trata a narcomilícia que aterroriza os moradores do seu curral eleitoral a pão de ló.
A Polícia Federal investiga o destino e a origem do dinheiro pedido por Flávio a Vorcaro sob a justificativa de financiar o filme Dark Horse. Ou seja, se os milhões de Vorcaro despachados para os Estados Unidos foram usados pelo irmão Eduardo Bolsonaro para ajudar a conspirar contra o Brasil na construção do tarifaço. Mas a polícia também quer saber se os recursos foram apenas comprar apoio político do senador ou outra coisa, como pagamento de serviços já prestados ao banqueiro.
Ao jurar ‘lealdade eterna’ ao seu ‘irmão’ Vorcaro em troca desta quantia, desvenda-se a lógica fria de um sistema onde o verniz político esconde uma rede movida a dinheiro e favores.
Não deixa de ser desconcertante que tanto Vorcaro quanto Peixe vissem no senador um amigo, tornando Flávio Bolsonaro um elo entre os dois universos do crime no Brasil: o que toma uísque e fuma charuto caríssimos em rega-bofes astronáuticos e o que porta fuzil, cobra pelo gatonet e pratica extorsão. E o primeiro, mais cafona, costuma ser muito mais caro ao país.