Sakamoto: Trump repete nos EUA roteiro de ataques à imprensa visto com Bolsonaro

Donald Trump em coletiva na Casa Branca. Foto: reprodução

Em rara demonstração de autodefesa democrática em Washington, as principais redes de televisão dos Estados Unidos ABC, CBS, NBC, Fox e CNN, suspenderam a cobertura conjunta do presidente Donald Trump em solidariedade à CNN, que teve credenciais cassadas e foi banida de eventos oficiais após a Casa Branca discordar de reportagens.

O boicote coordenado nos EUA evoca de imediato a decisão tomada pela imprensa profissional brasileira em maio de 2020, quando os principais veículos suspenderam a rotina de cobertura no fatídico “cercadinho” do Palácio da Alvorada.

Naquela ocasião, as empresas foram convencidas de que enviar profissionais para registrar bravatas presidenciais sob um corredor de xingamentos, ameaças físicas e incitação explícita por parte de Jair Bolsonaro e sua claque fanatizada não era jornalismo, mas colocar seus trabalhadores como bucha de canhão para alimentar o ecossistema extremista.

O paralelo não é coincidência de retórica, mas de método. Assim como Trump acusa sumariamente veículos como CNN, MS Now e Politico de produzirem “fake news” sem apresentar qualquer evidência concreta, Bolsonaro fez da desqualificação sistemática dos fatos sua principal estratégia para desidratar os freios institucionais e viabilizar o desmonte de garantias democráticas.

Jornalistas diante de Trump no Salão Oval da Casa Branca. Foto: reprodução

Os números apurados pela Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) mostram o tamanho do estrago: o ex-presidente brasileiro foi o maior agressor da imprensa nos quatro anos de seu mandato, acumulando 570 ataques diretos entre 2019 e 2022, uma inacreditável média de uma agressão a cada dois dias e meio.

Em 2020, ano do ápice das hostilidades no Alvorada, Bolsonaro respondeu sozinho por 41% de todas as violências registradas contra profissionais da comunicação no país (175 casos), pavimentando um caminho em que as ocorrências globais saltaram de 135, em 2018, para patamares superiores a 400 agressões anuais.

Quando aponta o dedo e vocifera contra repórteres, o governante autoriza seus apoiadores a agirem por conta própria, transformando o assédio em uma cruzada particular e perigosa.

A reação coordenada das TVs norte-americanas não serve apenas como lembrete de que a História acontece como tragédia e se repete como farsa vagabunda. Ela vai muito além da retirada de jornalistas do cercadinho em Brasília. E com a possibilidade real de vitória da extrema direita no Brasil e a perspectiva de um retorno do bolsonarismo ao Planalto em 2027, as chefias e os profissionais da imprensa nacional precisam estar preparados.

Se o velho roteiro voltar ao poder, a imprensa brasileira terá de decidir rapidamente se pretende cobrir o espetáculo ou se recusar a fazer parte dele, acusando o desrespeito à liberdade. Quando o poder resolve tratar a imprensa como inimiga, não basta responder com nota de repúdio. Ou os veículos cerram fileiras para defender a democracia ou acabam ajudando a montar o cenário do próprio abuso.

Democracia não se perde só quando fecha um veículo. Às vezes, ela apodrece em praça pública quando todo mundo continua transmitindo normalmente.

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