
Os Estados Unidos devem partir para ações militares diretas em diferentes países da América Latina sob a justificativa de combater o narcotráfico, prevê Jon Lee Anderson, repórter da revista The New Yorker e um dos jornalistas estadunidenses mais experientes na cobertura da região. “A próxima coisa que veremos é ação militar americana direta em diferentes países, supostamente contra o narcotráfico”, afirmou em entrevista à BBC News Brasil. Para ele, a escalada ameaça o respeito à soberania entre as nações.
A previsão acompanha movimentos concretos do governo Donald Trump. Em agosto, Pete Hegseth afirmou que os Estados Unidos pretendem levar para terra firme a ofensiva militar contra organizações ligadas ao narcotráfico na América Latina. O secretário de Defesa disse que os grupos seriam tratados como alvos “onde quer que trafiquem drogas ou ameacem o povo americano ou nossos parceiros”, comparando-os ao Estado Islâmico e à Al Qaeda.
O Brasil entrou diretamente nesse ambiente de pressão. Na semana passada, Trump acusou o governo brasileiro de “falhar” no combate ao PCC e ao Comando Vermelho e cobrou medidas “agressivas” contra as facções. Auxiliares de Lula classificaram o documento como “muito grave” e avaliaram que ele pode abrir espaço para ações militarizadas dos Estados Unidos contra o Brasil, à revelia do direito internacional.

Anderson afirma que o problema vai além da política antidrogas e descreve toda a América Latina como vivendo “sob o efeito Trump”. Para ele, Washington substituiu a ideia de igualdade entre países por uma relação abertamente hegemônica. “Até o Canadá está sendo tratado como se fosse a Coreia do Norte”, disse. O jornalista também alertou para governos que entrem em rota de colisão com a Casa Branca: “Deus os livre de cair no lado errado de Trump: ele poderia fazer qualquer coisa para se livrar deles”.
Nesse cenário, o jornalista mencionou a possibilidade de acusações de narcotráfico, pressão por meio de sistemas de telecomunicação e redes sociais e interferência econômica em eleições. Ele citou Elon Musk ao especular que aliados de Trump poderiam investir grandes somas para influenciar disputas políticas. Ao mesmo tempo, criticou setores da esquerda latino-americana por terem tolerado abusos de líderes como Daniel Ortega, Nicolás Maduro, Fidel e Raúl Castro e Hugo Chávez, o que, em sua avaliação, ajudou a enfraquecer alternativas democráticas no continente.
O repórter apontou Lula e o ex-presidente uruguaio Pepe Mujica como os exemplos que mais se aproximaram de uma esquerda pragmática, capaz de conviver com o capitalismo e defender um Estado forte na proteção social. Ainda assim, disse não enxergar hoje uma esquerda liberal democrática coesa na América Latina ou nos Estados Unidos, enquanto a direita possui em Trump e no movimento MAGA uma liderança facilmente identificável. Para Anderson, essa assimetria política ocorre justamente quando Washington amplia sua capacidade de pressão sobre os países do continente.