O eixo do debate Folha/UOL desta segunda-feira (21) ao Senado por São Paulo extrapolou a troca de ideias e revelou o machismo estrutural dos candidatos, obrigando a uma reação direta e altiva de Simone Tebet (PSB) e Marina Silva (Rede) em não aceitá-lo.
Durante o confronto, Guilherme Derrite (PP), André do Prado (PL) e Ricardo Salles (Novo) intercalaram interrogatórios, comparações estatísticas entre estados e a responsabilização de mulheres que denunciavam as violências. As duas candidatas atuaram de forma coordenada em apoio mútuo, enquanto os três postulantes da extrema direita e da direita consumiram o próprio tempo em embates pelo eleitorado conservador.
O momento que deu o teor machista ocorreu quando Derrite cobrou de Tebet, advogada e ex-ministra, posição sobre a ADPF 635 citando só o número da ação, sem revelar o conteúdo. Ela recusou o teste e afirmou não ter obrigação de memorizar numeração de processo: “Nenhum partido fala por mim e nenhum homem fala por mim.”
Marina caracterizou a abordagem como “teste de competência de gênero”, aplicado por “homens tóxicos”que buscam desqualificar lideranças com trajetória reconhecida. A reação conjunta desmontou a intimidação e revelou a intenção sexista da pergunta.
A mesma postura voltou no combate ao feminicídio. Questionada por Marina sobre um pacto efetivo em São Paulo, Tebet leu nomes reais de vítimas recentes – Bianca, 21 anos; Yasmim, 26; Larissa, 29 – e denunciou que 80% das delegacias da mulher no estado fecham à noite e nos fins de semana. Marina relatou mulheres que procuraram as unidades anunciadas como 24 horas por Derrite e não as encontraram; algumas, ao chegar, foram perguntadas “o que teriam feito” para sofrer a agressão. O atendimento que revitima é o chão concreto do machismo.
Em vez de discutir a rede de proteção, Prado citou o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2026 e jogou contra as duas o Acre com “maior número de feminicídio,”e o Mato Grosso do Sul, “terceiro lugar de pior taxa”. Tebet rebateu: “Nunca ouvi tamanho absurdo em relação a uma mulher.”E seguiu:“Tem que ter muita cara de pau para falar que nós mulheres […] sejamos responsabilizadas pelos crimes que vocês, homens, cometem no Acre e no Mato Grosso do Sul. Nós somos as vítimas.”
Depois, Prado tentou recuar: “Jamais quero responsabilizar vocês por isso.” Contudo, o viés misógeno da questão fala por si.
Marina Silva sintetizou o padrão observado no debate ao pontuar que postulantes com postura clínica, propositiva, apresentam soluções práticas, enquanto posturas cínicas optam por culpar a vítima.
O diagnóstico refletiu a dinâmica apresentada ao longo do debate, no qual discursos de proteção foram substituídos pelo uso de estatísticas contra as próprias denunciantes.
A postura se repetiu nas intervenções de Ricardo Salles, que, após admitir a gravidade do tema, classificou a reação das candidatas como “vitimização”, migrou a pauta para a área econômica e atribuiu a Fernando Haddad e a Simone Tebet a responsabilidade pela crise do setor.
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Divisão no campo conservador
Para além do enfrentamento de gênero, a direita expôs fraturas internas. Salles e Prado trocaram acusações envolvendo processos no Supremo Tribunal Federal (STF), atuações em CPMI, liberação de emendas parlamentares e a influência de Valdemar Costa Neto.
O candidato do Novo tentou se posicionar sob o discurso de alternativa ao centrão e à esquerda, enquanto PL e PP buscaram se vincular às imagens de Tarcísio de Freitas e Flávio Bolsonaro.
Nas considerações finais, Marina apelou ao eleitorado para que vote “pela democracia em mulheres”, enquanto Tebet defendeu atributos de caráter, competência e coragem para o exercício do mandato no Senado.
O debate explicitou duas posturas distintas: de um lado, candidatas que denunciaram a revitimização e a inversão de culpa; de outro, adversários que priorizaram o enquadramento pessoal e a disputa do eleitorado conservador.
Após a transmissão, Tebet resumiu a assimetria do tratamento recebido: enquanto entre homens o debate se dá no campo político, com mulheres a investida “é sempre pelo lado pessoal”.