
Gravações feitas na casa do empresário Anderson Cordeiro Vasconcelos, investigado na Operação Sem Desconto, registraram conversas sobre esconder recursos, proteger bens e uma possível retomada dos negócios ligados a associações de aposentados. Os vídeos foram gravados em 22 de maio de 2025, um mês depois das buscas da Polícia Federal no caso que apura descontos indevidos do INSS, segundo o Estadão.
Anderson recebeu em sua residência em Alphaville, em Santana de Parnaíba (SP), Igor Dias Delecrode, também investigado, e a namorada dele. Em trecho da conversa, Delecrode reclamou dos bloqueios bancários: “Eu tenho dinheiro que tá aplicado. Aí não tem como tirar”.
Ao ser questionado sobre a retirada dos valores, Delecrode respondeu que pretendia transferir os recursos. “Ter tem, seis meses, já pedi a baixa. Vou pôr tudo em dólar digital, tudo, tudo”, disse. A expressão costuma designar criptomoedas atreladas ao dólar, que podem dificultar o rastreamento de transações.
Anderson afirmou que tentaria preservar um apartamento comprado com outros sócios sob investigação. “Um apartamento que eu não quero perder é aquilo. Isso vai valer uma fortuna”, disse. Ele também falou que o negócio das associações voltaria: “Não sabemos quando e como, mas ele vai voltar”.
EXCLUSIVO 🔴 Em vídeo obtido pelo ‘Estadão’, investigados mencionam drible a bloqueio de contas e estratégia de proteger bens em investigação da PF que mira fraudes de R$ 6,2 bilhões contra beneficiários do INSS; defesa afirma desconhecer vídeos e que quem eventualmente vazou… pic.twitter.com/f3B5PG3vel
— Estadão 🗞️ (@Estadao) September 21, 2026
Associações receberam mais de R$ 700 milhões em descontos
Anderson e Delecrode integram o grupo chamado de “golden boys”, formado ainda por Américo Monte Jr. e Felipe Macedo Gomes. Embora tenham entre 28 e 38 anos, eles presidiram ou são suspeitos de controlar entidades voltadas a aposentados, entre elas AASAP, Amar Brasil Clube de Benefícios, Master Prev e ANDAPP.
As quatro associações faturaram mais de R$ 700 milhões com descontos sobre benefícios previdenciários. A investigação apontou que mais de R$ 100 milhões recebidos pelas entidades seguiram para empresas ligadas aos quatro empresários e, depois, para parentes deles.
A Controladoria-Geral da União identificou que 98% dos aposentados consultados não autorizaram os descontos associativos. A investigação da PF apura um esquema que teria desviado R$ 6,2 bilhões diretamente das folhas de pagamento de milhões de beneficiários do INSS e suspeita de pagamento de propina a dirigentes do órgão para manter acordos com as entidades.
A PF apreendeu 29 carros avaliados em R$ 28 milhões com o grupo, incluindo Ferraris, BMWs e Porsches. Em abril de 2026, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, determinou o uso de tornozeleiras eletrônicas pelos empresários.
Os advogados de Anderson, Igor e Felipe disseram desconhecer “a existência, a autenticidade e a integridade dos vídeos em questão” e afirmaram que, se existirem, as gravações foram obtidas de forma ilícita.