Acampados das usinas Laginha e Guaxuma produzem em meio às incertezas

Foto: MST

Por Raquel Moraes / Cobertura colaborativa da 25ª Feira da Reforma Agrária
Da Página do MST

O ano de 2014 marcou os primeiros passos dos camponeses para a ocupação das usinas do Grupo João Lyra. O Grupo foi declarado falido pelo Tribunal de Justiça de Alagoas em 20 de agosto de 2013, e as áreas estavam sem atividades de produção. Segundo Margarida da Silva, da coordenação nacional do MST, três usinas foram inicialmente ocupadas: em Atalaia, União dos Palmares e Coruripe. Ao longo dos últimos dez anos, mais de 5 mil famílias instalaram suas produções nas terras e formaram comunidades nas áreas ocupadas.

Um acordo entre os movimentos sociais, o Tribunal de Justiça, os administradores do Grupo João Lyra e o Governo de Alagoas foi feito durante o ano de 2016. A resolução determinava que os movimentos sociais desocupassem a Usina Uruba, em Atalaia, e parte da Usina Guaxuma, em Coruripe. Enquanto o restante do terreno da Usina Guaxuma e Laginha, em União dos Palmares, seria destinado às famílias que estavam acampadas na região.

Segundo Margarida, durante os anos de 2024 e 2025, algumas das famílias que habitavam as usinas receberam ordens de reintegração de posse. A coordenadora informou que, durante os anos em que as famílias estiveram acampadas, não foi possível concluir a aquisição dessas áreas para o assentamento dessas famílias.

Foto: Priscila Ramos

“Houve várias tratativas com o Governo Federal, através do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária), também por meio do ministro Paulo Teixeira, para a aquisição dessas áreas. Mas, com esses pedidos de reintegração de posse, a família do João Lyra retomou esses bens por meio de um acordo com a Justiça de Alagoas. Essas áreas, patrimônio da família, retornaram a eles porque houve encerramento da massa falida”, afirmou Margarida.

Margarida da Silva ainda explica que as famílias aguardam uma definição sobre as áreas: “Na época [2016], nós desocupamos a Usina Uruba, nos deram 6 meses e desocupamos muito antes do prazo. E todo mundo se concentrou na Usina Laginha. A Guaxuma continuou nas tratativas. Com esses despejos, nós não conseguimos avançar na aquisição dessas terras. Neste ano, foi reivindicada uma audiência com a ministra Fernanda Machiaveli, o governador Paulo Dantas, o Tribunal de Justiça e os movimentos sociais para acordarmos a aquisição de áreas para assentar essas famílias”.

Diante de um acordo coletivo, para os trabalhadores do MST foi destinada uma área de 400 hectares para as famílias saírem da Usina Laginha. No dia 25 de agosto, as famílias foram realocadas para a área destinada, faltando uma documentação, disponibilizada pela família Lyra, para entregar ao Incra, para a oficialização da aquisição dessa área.

Em Guaxuma, as avaliações do Incra iniciaram no mês de setembro de 2026. No dia 9 de setembro de 2026, houve uma nova audiência, no Tribunal de Justiça, em busca de uma solução para o destino dessas terras.

“Essa audiência foi para dar prazos, seja porque tem muitas áreas que já têm reintegração de posse executadas. Primeiro, a suspensão de algumas para que o Incra cumpra com o prazo de apresentação dessas áreas, de realocar e assentar. Também para negociar áreas com a família Lyra ou outras fazendas. Tem um edital aberto chamando proprietários de terra que podem ofertar suas terras para o Incra, para assentar essas famílias”, Margarida também diz que espera uma solução que não deixe os trabalhadores desamparados.

Foto: Priscila Ramos

A estabilidade dessas famílias, que há mais de dez anos estão nessas terras, vive em constante insegurança. Apesar do futuro incerto, os camponeses que vivem nessas áreas seguem produzindo e cultivando seus produtos nas áreas disponíveis. Maria Edileuza, do acampamento Boa Esperança, de Teotônio Vilela, segue plantando e colhendo.

“Aqui tem feijão, amendoim, abóbora e chuchu. O que mais vendi aqui foi o feijão. Eu vivo lá há 14 anos, vai fazer 15. Aqui na feira eu vendo meus produtos há três anos. Para plantar esse feijão eu guardo a semente, quando é no inverno eu planto, demora dois a três meses para colher. Sempre vende tudo aqui”, explicou sobre seus produtos.

Com 66 anos de idade, Maria Edileuza nasceu e foi criada no campo, em Cana-Brava. É casada há mais de 40 anos com seu marido Nivaldo, seu único parceiro de trabalho no campo. Os filhos foram criados no campo, em família, mas cresceram e seguiram outros rumos. “Quero ficar por lá, não quero sair de lá porque é nossa roça”.

Dona Maria teve sua barraca instalada entre amigos. Enquanto concedia a entrevista, conversava com seus companheiros, que estavam de bom humor, chamando-a para atender clientes que a aguardavam ao lado. A comunhão se faz presente entre a comunidade camponesa, como é o caso de Iran dos Santos, de 30 anos, da Usina de Laginha, em União dos Palmares, que era vizinho da barraca de Vanda Maria, de 36 anos, assentada em Joaquim Gomes.

“Nossa comunidade é forte, sempre unida. Nós sempre ajudamos uns aos outros. Cada um tem sua parte no trabalho, mas um ajuda o outro porque ajuda a colocar mais alimento na roça. Aqui na minha barraca tem laranja, coco, batata, planto mamão e tudo lá. A banana e a laranja acabaram rápido”, explica Iran. “A laranja demora três anos para colher, a batata é entre 3 a 4 meses, o pé de coco demora mais, uns 5 a 6 anos”.

Foto: Priscila Ramos

Iran também explica que o trabalho é feito com a sua família, seu pai e sua mãe são também responsáveis pela produção. O pai do camponês nasceu e foi criado em União dos Palmares e trabalhava com a sua avó na Usina da Laginha. “Nós começamos a vender na Feira da Reforma Agrária há 5 anos. Espero que lá seja realmente nosso, porque vamos perder muita coisa, temos muitos cultivos”.

Vanda explica que, apesar de ser assentada, sempre deu suporte na região de Laginha para seus companheiros: “Moro em Joaquim Gomes, mas ajudo na coordenação e na organização do acampamento de Laginha. Conheci eles há uns 14 anos, quando eu cheguei eles estavam lá. Hoje temos oitenta famílias por lá, comunidade grande, com a realocação de um canto para o outro a gente está se reorganizando”.

“Todo mundo tinha seu barraco organizado há 14 anos. E essa transferência da sede para o outro acampamento é um novo começo. Todo mundo deixou sua roça e agora é tudo do zero. O que a gente conseguiu deles para trazer para Feira, a gente trouxe. Agora é construir tudo e, se Deus quiser, cada um vai ter seu próprio espaço”, refletiu.

Em meio aos longos processos e disputas de território, os camponeses conseguem resistir através da união comunitária e do árduo trabalho de produção. As regiões, ao longo desses 14 anos que passaram, se tornaram lar para os trabalhadores e trabalhadoras que diariamente lutam contra as incertezas do amanhã.

Iran e Dona Maria integraram o coletivo de mais de 150 feirantes que estiveram na 25ª Feira da Reforma Agrária, em Maceió (AL), entre os dias 9 e 12 de setembro, no centro da cidade.

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