O que Flávio Bolsonaro vai entregar a Trump se for eleito

Flávio Bolsonaro e Donald Trump. Foto:Divulgação

A revelação das 21 exigências apresentadas pelo governo de Donald Trump ao Brasil durante as negociações do tarifaço ajuda a dimensionar o que Washington pretendia obter do país. A lista, enviada em outubro de 2025, ia muito além da redução de barreiras comerciais e alcançava temas como eleições, sanções americanas, serviços digitais, minerais críticos e liberdade de expressão. O governo Lula considerou as condições inaceitáveis.

O documento ganha outro peso na eleição de 2026 porque Flávio Bolsonaro (PL-RJ) já apresentou aos Estados Unidos propostas que convergem com parte dos interesses americanos. Em julho, o candidato enviou ao USTR, escritório de comércio dos EUA, um documento propondo vantagens comerciais e defendendo maior aproximação econômica com Washington. Também pediu que novas tarifas contra o Brasil fossem adiadas para depois da eleição.

Entre as 21 demandas americanas está a eliminação das tarifas brasileiras sobre etanol, produtos químicos, máquinas, produtos automotivos e bens de alta tecnologia dos Estados Unidos. O próprio Flávio já defendeu a retirada da tarifa sobre o etanol americano em sua manifestação ao USTR.

Na área digital, Trump queria que o Brasil se abstivesse de criar impostos considerados discriminatórios contra empresas americanas e reconhecesse os EUA como jurisdição com proteção adequada de dados. A lista também exigia que o Brasil não criasse um regime de concorrência digital que, na avaliação americana, restringisse de maneira considerada “irrazoável” o comércio dos EUA.

É justamente nesse terreno que aparece uma das propostas mais concretas de Flávio. O senador defendeu redução da carga tributária para empresas de cartões e um “compromisso legislativo” para impedir que o Pix seja conectado a sistemas de liquidação transfronteiriços “não ocidentais”, referência à China. Atualmente, o Pix não realiza transferências internacionais.

A lista de Trump também estabelece condições envolvendo minerais críticos. O Brasil deveria informar antecipadamente aos Estados Unidos sobre potenciais transferências de ativos antes da venda de empresas do setor e proporcionar a companhias americanas oportunidade de participar dos processos de licitação antes da concessão das aprovações regulatórias brasileiras, conforme o documento revelado nesta quinta-feira (17).

Reserva de terras raras no Brasil. Foto: Divulgação

Outro ponto determina que o Brasil não penalize instituições financeiras brasileiras que cumpram sanções financeiras impostas pelos Estados Unidos. Há ainda uma exigência para que fornecedores americanos de serviços digitais recebam aviso prévio e possibilidade de recurso antes de decisões, penalidades ou multas.

Na área política, Washington exigiu o compromisso com eleições presidenciais “livres e justas” e que “dissidentes políticos” não fossem detidos, presos ou impedidos arbitrariamente de participar da eleição. Integrantes do governo brasileiro interpretaram a cláusula como relacionada a Jair Bolsonaro. Flávio afirmou nesta quinta-feira que “não existe ajuda do governo americano” à sua candidatura.

As exigências americanas incluem ainda a adoção de medidas contra o desmatamento ilegal e a pesca ilegal, além de regras contra a importação de mercadorias produzidas total ou parcialmente com trabalho forçado. Washington também queria que normas brasileiras em determinados setores fossem alinhadas a padrões internacionais, facilitando a entrada de produtos americanos.

Na agricultura e na indústria, a lista previa que o Brasil não restringisse o acesso ao mercado com base no uso de determinados termos para carnes e queijos, além de cooperação entre os dois países nos mercados de soja e aço. Empresas aéreas brasileiras também assumiriam o compromisso de adquirir aeronaves comerciais fabricadas nos Estados Unidos.

Flávio já foi além dessas propostas pontuais. Em julho, afirmou que pretende negociar, caso chegue à Presidência, uma área de livre comércio envolvendo Brasil, Estados Unidos, Canadá e México. O candidato citou como referência a relação construída entre Trump e Javier Milei na Argentina e disse querer ampliar agressivamente os acordos comerciais brasileiros com Washington.

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