
Por Leonardo Sakamoto, no UOL
Se o ET Bilú visitasse o Brasil em busca de conhecimento neste momento, teria a impressão de que os candidatos à Presidência da República são Daniel Vorcaro, Alexandre de Moraes e André Mendonça, uma vez que ambos dominam a agenda pública a pouco mais de duas semanas do primeiro turno das eleições.
O chumbo trocado entre os reais candidatos Flávio Bolsonaro e Lula hoje é um exemplo disso. O filho de Jair Bolsonaro quer fazer crer que a culpa da crise no STF é do petista e que ele é aliado de Moraes. Já o presidente lembrou que Flávio Bolsonaro pediu R$ 130 milhões ao banqueiro para finalidades escusas e o acusou de se aproveitar das bebidas e mulheres oferecidas pelo bandido-Master.
Faz parte do jogo político. Porém, esse imenso Big Brother Supremo em que se transformou a cobertura da crise em nosso tribunal constitucional, onde cada bocejo de ministro é espremido, analisado e espetacularizado, acabou ocupando todo o espaço do debate público. Quem lucra com isso são os candidatos que a) não têm propostas ou b) têm propostas bizarras que afugentam as pessoas.
Depois de eleito, o vencedor vai dizer que seu projeto de governo foi validado pelas urnas quando, na verdade, a população nem o conheceu.

É fundamental o combate à corrupção e à compra de decisões e favores de membros dos Poderes Judiciário, Legislativo e Executivo por gente rica. Mas cadê os debates sobre a vida real? Como já disse aqui, parafraseando a saudosa Maria da Conceição Tavares, o povão não come Master, mas alimentos.
Vamos lá, de novo: O próximo presidente vai continuar aumentando o salário mínimo acima da inflação? As aposentadorias seguirão vinculadas ao salário mínimo ou ele vai tentar desindexá-las? Como vai resolver a crise de endividamento das classes média e baixa? Vai ter ajuste fiscal e qual será o tamanho da lapada? Vai lutar por um piso melhor para a remuneração de trabalhadores de aplicativos? E as bets, vai avançar na restrição às legais e no combate às ilegais? Com quase 80% do povaréu a favor, vai buscar a aprovação do fim da 6×1 ou bloqueá-la de vez?
Democracia não pode ser um cheque em branco. Quem quer governar o país precisa dizer, antes do voto, o que pretende fazer com o salário de quem trabalha, a aposentadoria de quem envelheceu, a dívida de quem não consegue respirar e o tempo de quem vive para trabalhar.
Se a campanha discutir apenas quem comprou quem nos salões de Brasília, chegaremos às urnas sabendo tudo sobre os poderosos — e quase nada sobre o que cada candidato pretende fazer com a vida de milhões de brasileiros. E há muitos candidatos que são eleitos com o discurso de que vão mudar tudo simplesmente para garantir que tudo continue do mesmo jeito: um oásis para quem tem dinheiro.