Pessoas disputando ossos e carcaças para comer; covas simples abertas às pressas para dar conta dos milhares de mortos da pandemia; desmatamento avassalador; estímulo ao ódio e ao uso de armas; desemprego em alta, renda em baixa e um presidente omisso, irresponsável e cruel. Esses são apenas alguns dos muitos tormentos vividos pelos brasileiros durante o governo de Jair Bolsonaro (PL).
Com o objetivo de recordar esses fatos e mostrar à população que com Flávio Bolsonaro (PL) a situação pode ser ainda pior, a campanha à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva lançou uma peça impactante. Sem citar nomes, a propaganda usa como mote a frase “se o pai fez isso, imagina o filho”, acompanhada de imagens que ilustram essas situações.
A peça vai direto ao ponto. Sob Bolsonaro, o Brasil viveu um de seus piores momentos. E nada indica que seria diferente com Flávio — que não apenas defende as mesmas bandeiras como vai além, por exemplo, em sua sanha entreguista.
Crime contra a nação
Bolsonaro está preso por tentativa de golpe — e esta é mais uma das principais marcas de sua passagem tenebrosa pela presidência da República. Mas, o pior de seus crimes foi cometido contra milhares de brasileiros mortos durante a pandemia e seus familiares e órfãos.
É fato que o mundo todo sofreu com a pandemia, em maior ou menor grau. Mas, também é fato que, com a estrutura de saúde pública que o Brasil tem e com medidas efetivas por parte do governo, o Brasil poderia ter muito menos do que as 700 mil vítimas diretas registradas até o final de 2022. Isso sem contar pessoas que perderam a vida por outros problemas de saúde que não puderam ser devidamente tratados naquele momento.
Com cerca de 3% da população mundial, o Brasil respondeu por 11% das mortes registradas em todo o planeta, dado que explicita a desproporção no número de óbitos acumulados pelo País. Segundo estudo feito pelo epidemiologista e pesquisador da Universidade Federal de Pelotas, Pedro Hallal, e apresentado durante a CPI da Covid, quatro em cada cinco mortes pela doença no País poderiam ter sido evitadas caso o governo federal tivesse adotado outra postura — apoiando o uso de máscaras, estimulando medidas de distanciamento social, fazendo campanhas de orientação e ao mesmo tempo acelerando a aquisição de vacinas.
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Bolsonaro não fez nada disso. Ao contrário: circulava sem máscara, desprezava a gravidade da doença, zombava de quem temia a doença e de quem tentava respirar e não conseguia devido ao vírus e estimulava as pessoas a trabalharem em nome da economia. As medidas tomadas então foram encabeçadas por governadores e prefeitos e pelos servidores públicos que resistiram aos desmandos de Bolsonaro.
Da parte do governo federal, além do descaso, a gestão foi marcada por total desorganização e desrespeito — como aconteceu na crise no Amazonas, em que pessoas morriam sem ar por falta de tratamento e de respiradores.
Relatório da CPI da Covid, aprovado em outubro de 2021, apontou fortes indícios de corrupção e irregularidades nas negociações envolvendo a compra de vacinas oferecidas ao Brasil, o que também ajudou no atraso da aquisição.
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A Comissão listou, ainda, outros absurdos que levaram a essa tragédia: a aposta numa suposta “imunidade coletiva”; o incentivo a falsos “tratamentos precoces” com cloroquina e ivermectina; a disseminação, via máquina pública, de desinformação e mentiras sobre a doença; a crise no Amazonas e a formação de um “gabinete paralelo” com pseudo-especialistas que orientavam o presidente à revelia do Ministério da Saúde.
Por fim, a Comissão pediu o indiciamento de Bolsonaro por nove crimes — entre os quais epidemia com resultado morte, infração de medida sanitária preventiva e charlatanismo, entre outros. Como não tem poder para processar, a CPI enviou o documento à Procuradoria-Geral da República (PGR), ao Supremo Tribunal Federal (STF), ao Tribunal de Contas da União (TCU) e a outras autoridades para dar seguimento legal, mas até o momento, não houve nenhuma responsabilização.
Fila de ossos
As chamadas “filas de ossos” foram um dos desdobramentos da dramática situação enfrentada pelos brasileiros mais pobres durante os anos de pandemia sob o governo de Bolsonaro.
A partir de 2021, pessoas passaram a esperar, em açougues e mercados, por carcaças e ossos descartados ou vendidos a preços módicos para usarem para fazer sopas e conseguirem se alimentar.
O caso, porém, não foi apenas resultado dos impactos da pandemia. Deveu-se, sobretudo, ao desmonte de políticas públicas e à falta de medidas por parte do governo Bolsonaro para mitigar as perdas e dificuldades daquele período, marcado por alto desemprego e inflação dos alimentos.
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Entre 2019 e 2021, 61 milhões de brasileiros enfrentaram dificuldades para se alimentar, dos quais 15 milhões passaram fome, segundo a ONU. Como resultado, o Brasil voltou ao Mapa da Fome, do qual havia saído em 2014 durante o governo de Dilma Rousseff, que deu continuidade às políticas sociais e de transferência de renda iniciadas por Lula em seu primeiro mandato.
Somente em 2025, após Lula retomar as políticas de geração de emprego e renda e restabelecer uma série de medidas de âmbito social e econômico o Brasil pôde, novamente, abandonar o Mapa.
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É preciso lembrar, ainda, que durante a pandemia, Bolsonaro não cogitava sequer conceder auxílio emergencial, mesmo sabendo da grave situação vivida por boa parte da população. Pressionado, passou a considerar a hipótese de pagar um valor ínfimo, de R$ 200. Somente após uma série de articulações, principalmente por parte de movimentos sociais e da esquerda, foi sancionado o valor aprovado pelo Congresso de R$ 600.
Desmatamento liberado
O governo Bolsonaro também ficou conhecido como o que queria “deixar passar a boiada” — como tão bem sintetizou seu ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. Durante reunião em 2020, ele defendeu que o governo deveria aproveitar que a imprensa e a sociedade estavam focadas na pandemia para derrubar normas e alterar regras de proteção ambiental, beneficiando, assim, setores como os do agronegócio e de extração de madeira, bem como o de garimpo ilegal, entre outros.
Segundo o Observatório do Clima, somente na Amazônia houve um crescimento de 60% no índice de desmatamento durante o governo de Bolsonaro ante os quatro anos anteriores. Somados, o Cerrado e a Amazônia concentraram cerca de 90% de todo o desmatamento do país no último ano de sua gestão. E o Pantanal teve recordes sucessivos de queimada. O pior ano para o bioma foi 2020, quando ao menos 30% foi consumido pelas chamas.
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Soma-se a isso outros descalabros na gestão ambiental, como o desmonte e a paralisia nos órgãos de fiscalização; o fim de secretarias estratégicas, o esvaziamento do Conama (Conselho Nacional do Meio Ambiente); o congelamento de fundos como o da Amazônia e do Meio Ambiente; a flexibilização de regras para o garimpo e para a exploração das florestas.
Bolsonaro também acabou com as demarcações de terras indígenas e enfraqueceu a atuação da Funai, resultando no avanço de invasões a territórios protegidos. Essa política levou ao aumento do desmatamento e da extração ilegal de minérios e, pior, à maior crise humanitária enfrentada recentemente por uma etnia indígena, a Yanomami.
Somente após a posse de Lula, essa população passou a ser atendida dignamente, superando a emergência daqueles anos. Também houve uma série de medidas de desintrusão dos invasores e de retomada da proteção e recuperação ambiental.
Estímulo ao ódio e ao uso de armas
Falar da extrema direita e do bolsonarismo é falar, principalmente, do estímulo ao ódio em todas as suas formas e ao uso de armas de fogo, o que os configuram como movimentos claramente neofascistas.
O estímulo ao uso de armas — traduzido na campanha pela famosa foto de Bolsonaro com uma menina no colo fazendo a arminha que passou a simbolizá-lo — é uma das maiores chagas que o bolsonarismo legou ao Brasil.
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Na base da canetada, Bolsonaro destruiu uma série de medidas visando o maior controle na circulação de armas de fogo — cujo maior símbolo fora o Estatuto do Desarmamento — defendendo o suposto direito de os cidadãos se armarem “contra a bandidagem”.
Como consequência, houve aumento no número de armas inicialmente legais em poder de organizações criminosas, seja por meio do roubo, seja pelo aliciamento ou uso de Caçadores, Atiradores e Colecionadores (CACs) para o fornecimento de revólveres, pistolas e outros artefatos de maior calibre e potência.
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O “libera-geral” foi combatido por Lula desde a sua posse. Entre seus primeiros decretos estão o que suspendeu novos registros de armas de uso restrito e o que reduziu o limite de aquisição de armas para civis, entre outras medidas e ações posteriores.
O uso de armas vai ao encontro de outra forte característica do bolsonarismo. Durante sua carreira política e por todo o seu governo, Bolsonaro sempre promoveu o preconceito e banalizou a violência contra mulheres, negros, LGBTs e a esquerda, fosse por meio de ações, falas públicas ou da disseminação de discursos de ódio e fake news pelas redes sociais.
Ladeado pela onda de misoginia alimentada pelas redes sociais, o bolsonarismo ajudou a mergulhar o Brasil numa verdadeira epidemia de feminicídios e violência — inclusive política — contra as mulheres. Ao mesmo tempo, tornaram-se cada vez mais comuns manifestações abertas de racismo e homofobia pelo país.
Mais uma vez, foi somente após o início do terceiro mandato de Lula que uma série de ações e políticas públicas foram desenvolvidas para enfrentar esses e outros problemas legados por Bolsonaro e que ainda estão entranhados em nossa sociedade.