Dalton Trumbo: o roteirista que Hollywood tentou apagar, enquanto ganhava Oscars

Há certas ironias da vida que parecem escritas por um roteirista de série cheia de reviravoltas. Dalton Trumbo passou boa parte da vida escrevendo para Hollywood e terminou enfrentando uma indústria que tentou impedir justamente que seu nome aparecesse naquilo que escrevia.

Em 10 de setembro de 1976, há exatos 50 anos, Trumbo morreu aos 70 anos. Los Angeles perdia um de seus filhos mais brilhantes e indomáveis. Deixava uma obra que atravessara gêneros, décadas e, sobretudo, uma das épocas mais sombrias da vida política dos Estados Unidos.

Seu nome, porém, havia sido arrancado dos créditos muito antes.

No final da década de 1940, os Estados Unidos mergulharam nas sombras da Guerra Fria sob o fantasma da histeria anticomunista. O Comitê de Atividades Anti-Americanas da Câmara (HUAC) transformou Hollywood em seu principal palco de inquisição, convocando artistas, diretores e escritores para interrogatórios que exigiam não apenas a retratação política, mas a delação de colegas de trabalho.

Em 1947, Trumbo foi um dos chamados Dez de Hollywood, grupo de roteiristas e diretores que se recusou a colaborar com o HUAC. A comissão perguntava aos convocados se eram ou haviam sido membros do Partido Comunista — e, sobretudo, queria nomes.

Trumbo já era o roteirista mais bem pago da capital do cinema qual se filiou ao Partido Comunista dos Estados Unidos. Ingressou na organização em 1943, motivado, segundo seu biógrafo Larry Ceplair, pela convicção de que ela era naquele momento a força mais organizada da esquerda americana e por sua atuação em causas como direitos civis.

Não havia, portanto, segredo a ser desvendado. O que estava em jogo era outra coisa: quem tinha o direito de decidir quais ideias poderiam existir publicamente. Sua coragem diante da caça às bruxas do senador Joseph McCarthy transformou sua biografia em lenda.

Em uma era em que pensar diferente transformava cidadãos em alvos do Estado, ele preferiu a cadeia ao servilismo, e fez da própria criatividade a ferramenta definitiva para quebrar a espinha dorsal da censura na indústria cultural.

A pergunta que exigia uma rendição

Os Dez de Hollywood foram acusados de desacato ao Congresso, condenados e presos. Depois, os grandes estúdios adotaram a “lista negra” (blacklist), recusando trabalho a profissionais considerados suspeitos de vínculos comunistas. O efeito foi devastador sobre carreiras e vidas.

Trumbo cumpriu cerca de um ano de prisão. Ao sair, descobriu que não bastava ter perdido a liberdade. Também havia perdido o direito de assinar aquilo que escrevia. Era uma punição particularmente cruel para um escritor: podiam proibir seu nome, mas não conseguiam proibir seu talento.

E foi aí que começou uma das mais inteligentes formas de resistência individual produzidas pela Hollywood da Guerra Fria.

Se o nome era proibido, a história continuaria

Para Trumbo, a prisão e o banimento tornaram-se o combustível de uma das estratégias de guerrilha intelectual mais fascinantes da história da arte. Forçado ao exílio no México e impossibilitado de assinar seu próprio nome, Trumbo passou a escrever noites a fio — muitas vezes dentro de uma banheira, alimentado a café e cigarros —, vendendo roteiros no mercado paralelo por preços irrisórios e assinando sob pseudônimos ou usando colegas testas de ferro.

Era uma operação quase cinematográfica: o homem existia, o roteiro existia, o pagamento existia — só o nome precisava desaparecer. Em vez de se calar, ele se multiplicou. Sob pseudônimos como “Robert Rich” e “Ben Perry”, e usando “laranjas” que aceitavam assinar seus textos, Trumbo continuou a alimentar a indústria que o expulsara.

Foi assim que nasceu, entre outros trabalhos, “A Princesa e o Plebeu” (“Roman Holiday”), lançado em 1953. O roteiro recebeu o Oscar, mas o crédito oficial ficou inicialmente com Ian McLellan Hunter, que funcionou como intermediário de Trumbo. Décadas depois, a Academia reconheceria oficialmente a autoria de Trumbo.

Em 1957, a situação tornou-se ainda mais extraordinária. Seu roteiro de “Arenas Sangrentas” (“The Brave One”) recebeu o Oscar de melhor história original sob o nome fictício de Robert Rich — um homem que não existia. A estatueta chegou a ser recebida por outra pessoa porque o verdadeiro autor continuava impedido de aparecer.

A lista negra, pretendendo silenciar Trumbo, acabou produzindo uma situação quase absurda: um escritor perseguido pelo Estado e pela indústria cinematográfica continuava ganhando Oscars, enquanto oficialmente não existia.

“Spartacus” entra em cena

A vitória definitiva sobre o medo veio em 1960. Com a coragem articulada do ator e produtor Kirk Douglas e do diretor Stanley Kubrick, Dalton Trumbo foi contratado abertamente para assinar o roteiro do épico Spartacus, romance de Howard Fast, outro escritor listado.

O filme teria Douglas no papel do escravizado que desafia Roma e carregaria uma história que, vista hoje, parece especialmente adequada à trajetória de seu roteirista: um homem submetido a um sistema de poder que decide que sua dignidade não está à venda. Trumbo, o comunista perseguido, escreveu um dos discursos mais poderosos já filmados sobre a liberdade humana e a dignidade dos oprimidos.

“Spartacus” não era um panfleto sobre a Guerra Fria. Era um épico histórico. Mas havia uma força simbólica difícil de ignorar.

O nome volta à tela

Em janeiro de 1960, Otto Preminger anunciou publicamente que Trumbo escreveria “Exodus” e receberia crédito pelo roteiro. Meses depois, em agosto, Universal-International anunciou que Trumbo também teria seu nome nos créditos de “Spartacus”.

Kirk Douglas teve papel decisivo ao insistir no crédito de Trumbo em “Spartacus”, mas Preminger foi o primeiro grande produtor-diretor a desafiar publicamente a regra naquele momento. E a própria resistência dos escritores perseguidos havia corroído a lista negra durante anos.

A tentativa das alas reacionárias de boicotar os filmes ruiu diante do estrondoso sucesso de bilheteria e da aclamação pública. Quando o próprio presidente John F. Kennedy furou o bloqueio de protestos para assistir a Spartacus em um cinema de Washington, o boicote desmoronou em definitivo.

O mais importante, entretanto, talvez esteja justamente nessa combinação.

Trumbo não esperou que Hollywood lhe devolvesse a liberdade para continuar trabalhando. Trabalhou para tornar impossível a Hollywood continuar fingindo que ele não existia.

A história do roteirista foi retratada no filme de 2015 sob direção de Jay Roach, com Bryan Cranston, Diane Lane e Helen Mirren.

A estratégia de sobreviver sem capitular

É aqui que a trajetória de Trumbo ganha uma dimensão política particularmente interessante.

Ele poderia ter escolhido o caminho da colaboração. Poderia ter respondido às perguntas do HUAC, fornecido nomes e tentado salvar a carreira. Outros fizeram essa escolha. A lista negra funcionava exatamente assim: oferecer uma saída individual mediante a submissão política.

Trumbo escolheu outra saída.

Continuou escrevendo. Aceitou pseudônimos quando necessário. Usou intermediários. Trabalhou em condições adversas. Acumulou dinheiro quando podia. Protegeu a família. E, ao mesmo tempo, preservou a possibilidade de um dia voltar a assinar seu próprio trabalho.

Não foi uma resistência romântica, de mártir que escolhe a derrota. Foi uma resistência pragmática, paciente e profissional.

Um roteirista maior que a “lista negra

Seria, contudo, injusto lembrar Trumbo apenas como símbolo político. Antes de ser um personagem da Guerra Fria, ele era um escritor extraordinariamente talentoso.

Sua filmografia inclui “Kitty Foyle”, “Roman Holiday”, “The Brave One”, “Spartacus”, “Exodus”, “Papillon” e a adaptação de seu próprio romance “Johnny Vai à Guerra”, entre outros trabalhos. O Wisconsin Center for Film and Theater Research destaca que, depois do rompimento da “lista negra”, Trumbo ainda escreveu filmes como “Lonely Are the Brave”, “Hawaii” e “Papillon”.

Sua obra também revela uma preocupação recorrente com indivíduos submetidos a estruturas de poder.

Talvez por isso “Spartacus” tenha adquirido uma dimensão tão especial na sua biografia. A história do escravizado que se recusa a aceitar como natural a condição que lhe foi imposta tornou-se, involuntariamente, uma espécie de espelho distante da trajetória de seu roteirista.

O que mais fascina em Trumbo é a ausência de amargura em sua resistência. Suas cartas escritas da prisão federal são obras-primas de ironia fina, dirigidas com uma cortesia zombeteira aos seus carcereiros. Ele entendia que o ódio é uma ferramenta dos opressores, e que o humor e a inteligência são as armas dos que se recusam a ser oprimidos.

Cinquenta anos depois

A morte de Trumbo não encerrou a disputa sobre sua memória. Ela ajudou a consolidá-la.

Em 1975, um ano antes de morrer, a Academia lhe entregou oficialmente o Oscar relacionado a “The Brave One”, reconhecendo seu trabalho que havia sido premiado quase duas décadas antes sob o nome fictício de Robert Rich.

O gesto tinha algo de reparação tardia.

Mas talvez a verdadeira vitória tenha acontecido muito antes, quando o escritor percebeu que a perseguição podia controlar seu crédito, seu salário e seu acesso aos estúdios — mas não necessariamente sua capacidade de criar.

É uma lição que ultrapassa Hollywood.

Toda censura imagina que seu poder está em calar alguém. Às vezes, o poder de quem resiste está em continuar falando — mesmo quando lhe tiram o nome.

E, como em um bom roteiro, a ironia final pertencia ao perseguido: tentaram transformar Trumbo em um nome proibido. Conseguiram transformá-lo em um letreiro ainda mais gigante nas telas.

O documentário Trumbo (2007), de Peter Askin, também traz à tona a história do roteirista, sob o esforço de sua filha caçula Mitzi Trumbo:

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