
Por Leonardo Sakamoto no UOL
É fundamental o combate à corrupção e à compra de decisões e favores de membros dos Poderes Judiciário, Legislativo e Executivo por gente crescida no leite de pera. Mas, ao mesmo tempo, estamos a três semanas do primeiro turno e não vemos debates sobre a vida real. A impressão é que estamos elegendo um ministro do STF.
Muito precisa ser esclarecido. Os R$ 130 milhões que Flávio Bolsonaro pediu a Daniel Vorcaro foram também para o bolso da família? E o que ele de fato prometeu em troca? E os R$ 130 milhões do contrato que Vorcaro fechou com a esposa de Alexandre de Moraes foram para comprar os serviços advocatícios e de consiglieri do ministro?
Mas, parafraseando a saudosa Maria da Conceição Tavares, o povão não come Master, mas alimentos.
O próximo presidente vai continuar aumentando o salário mínimo acima da inflação? As aposentadorias seguirão vinculadas ao salário mínimo ou ele vai tentar desindexá-las? Como vai resolver a crise de endividamento das classes média e baixa? Vai lutar por um piso melhor para a remuneração de trabalhadores de aplicativos? E as bets, vai avançar na restrição às legais e no combate às ilegais? Com quase 80% do povaréu a favor, vai buscar a aprovação do fim da 6×1 ou bloqueá-la de vez?

A imprensa está cumprindo seu papel de informar sobre o caos estabelecido no STF, mas, como os recursos humanos e materiais são escassos, acaba virando todas as suas baterias para o quente do momento. Corrupção significa que o funcionamento de instituições não está a contento e que grana pública pode estar vazando pelo ralo (qualquer marmota sabe que não dá para chamar o dinheiro de Vorcaro de privado). Mas a campanha parece resumida a isso.
Pautas que dizem respeito à vida da grande maioria dos brasileiros passam ao largo, o que é extremamente favorável a quem a) não tem propostas ou b) tem propostas bizarras que afugentam as pessoas. Depois de eleito, vai dizer que seu projeto de governo foi validado pelas urnas quando, na verdade, a população nem o conhece.
Democracia não pode ser um cheque em branco. Quem quer governar o país precisa dizer, antes do voto, o que pretende fazer com o salário de quem trabalha, a aposentadoria de quem envelheceu, a dívida de quem não consegue respirar e o tempo de quem vive para trabalhar. Escândalos precisam ser investigados até o fim, doa a quem doer.
Mas eleição é também escolha de futuro. Se a campanha discutir apenas quem comprou quem nos salões de Brasília, chegaremos às urnas sabendo tudo sobre os poderosos — e quase nada sobre o que cada candidato pretende fazer com a vida de milhões de brasileiros.