Brasil, o laboratório da guerra híbrida do século XXI

De 2005 a 2026, como mídia, lawfare, plataformas digitais, redes transnacionais, coerção econômica e inteligência artificial transformaram a disputa pelo poder no Brasil em uma batalha pela própria percepção da realidade.

Por Reynaldo Aragon 

Durante duas décadas, crises reais do Brasil foram atravessadas por novas tecnologias de poder, interesses internos e forças transnacionais que aprenderam a explorar vulnerabilidades, reorganizar comportamentos e interferir na correlação de forças do Estado. Às vésperas da eleição de 2026, compreender essa trajetória deixou de ser exercício histórico: tornou-se uma questão de soberania democrática.

Uma reflexão diante do nosso tempo

Este artigo nasce de uma inquietação que me acompanha há muitos anos e que parece crescer à medida que tento compreender melhor aquilo que aconteceu e continua acontecendo no Brasil. Tenho dedicado parte importante da minha trajetória ao estudo da guerra híbrida, das operações psicológicas, da comunicação e das novas formas de disputa pelo poder, mas essa caminhada me ensinou sobretudo a desconfiar de explicações simples para processos históricos complexos. Não pretendo oferecer uma resposta definitiva, muito menos encaixar duas décadas de história numa teoria capaz de explicar tudo. Procuro apenas organizar reflexões, dúvidas e angústias acumuladas ao longo desse percurso diante da realidade objetiva de setembro de 2026, quando uma eleição presidencial se aproxima em meio a tensões institucionais, pressões externas e à entrada acelerada da inteligência artificial na mediação da vida política.

A pergunta que me acompanha é simples apenas na aparência: como chegamos até aqui? Do Mensalão a Junho de 2013, da espionagem norte-americana à Lava Jato, do impeachment à ascensão do bolsonarismo, dos ataques às urnas ao 8 de Janeiro, das sanções e tarifas à inteligência artificial, atravessamos conjunturas distintas e atores diferentes. Seria um erro reduzi-los a um único comando. Em sequência, porém, esses episódios revelam como a disputa pelo poder passou a atravessar informação, instituições, economia, tecnologia e a própria formação da percepção.

É nesse sentido que utilizo o conceito de guerra híbrida. Não como explicação universal, nem como sinônimo de conspiração ou interferência estrangeira. Sociedades entram em crise por suas próprias contradições, mobilizações podem nascer espontaneamente, investigações podem revelar crimes reais e instituições podem colidir sem que exista uma mão oculta. O problema começa quando vulnerabilidades reais são exploradas por atores capazes de combinar diferentes instrumentos para modificar percepções, comportamentos e correlações de força. A operação psicológica participa dessa lógica ao identificar públicos e vulnerabilidades, organizar emoções e enquadramentos e tornar determinados comportamentos mais prováveis.

Essa distinção é fundamental porque as contradições brasileiras não foram fabricadas em Washington, no Vale do Silício ou em qualquer centro externo de poder. Desigualdade, corrupção, concentração comunicacional, fragilidade institucional e conflitos entre projetos de país possuem raízes brasileiras. Ignorar isso nos transformaria em espectadores passivos da própria história e absolveria atores nacionais de suas responsabilidades. O que me interessa é compreender como essas contradições passaram a interagir com redes transnacionais, interesses geopolíticos, estruturas jurídicas e sistemas tecnológicos capazes de ampliá-las, reorganizá-las ou explorá-las.

É aí que o Brasil pode ser compreendido como laboratório. Não porque alguém tenha planejado em algum gabinete um experimento de vinte anos sobre nossa sociedade, mas porque poucas democracias reuniram, em tão pouco tempo, tamanha combinação de importância geopolítica, desigualdade, digitalização, concentração midiática, judicialização da política e disputa por recursos estratégicos. Diferentes tecnologias de poder encontraram aqui condições para serem testadas, adaptadas e combinadas.

É essa trajetória que pretendo reconstruir. Não para descobrir uma mão invisível por trás da história, mas para observar mecanismos que, isolados, parecem dispersos e, em sequência, revelam uma transformação profunda da disputa pelo poder. Para compreender o Brasil de 2026, precisamos voltar ao momento em que essa batalha ainda tinha outra forma, antes que plataformas digitais organizassem cotidianamente a política e quando a inteligência artificial parecia distante. Precisamos voltar a 2005.

2005: quando a autonomia brasileira começou a mudar o tabuleiro

Voltar a 2005 não significa procurar uma data secreta para o início de uma guerra contra o Brasil. Significa reconhecer uma inflexão. Naquele momento, o país ampliava sua autonomia internacional enquanto a política doméstica entrava numa fase intensa de disputa pela interpretação da realidade.

O símbolo externo foi a Cúpula das Américas, em Mar del Plata. A ALCA, concebida sob liderança dos Estados Unidos, chegou ali ao seu limite político. O Brasil não rompeu com Washington, mas ajudou a afirmar que os interesses do hemisfério não eram homogêneos. Essa posição fazia parte de uma estratégia mais ampla de diversificação, aproximação com América do Sul, África, Ásia e potências emergentes, fortalecimento do Mercosul e busca por maior margem de decisão internacional. Autonomia, naquele contexto, não significava isolamento. Significava capacidade de escolha.

Essa mudança ganharia novas dimensões com o pré-sal, a integração sul-americana e a consolidação dos BRICS. Nada disso prova que os Estados Unidos tenham decidido responder ao Brasil por meio de uma operação clandestina. Prova algo mais simples e necessário para esta história: o país adquiria maior peso estratégico e passava a disputar com mais liberdade sua posição numa ordem internacional em transformação.

Dentro do Brasil, 2005 também marcou uma mudança de ambiente político. O Mensalão colocou o governo Lula sob uma crise permanente de enorme intensidade. As denúncias eram graves e exigiam investigação, mas a questão que interessa aqui é também comunicacional. CPIs, vazamentos, acusações e cobertura contínua passaram a estruturar a agenda pública e a enquadrar a política cada vez mais por uma gramática de corrupção, moralidade e degeneração institucional.

Esse processo ainda era comandado principalmente pelos grandes meios de comunicação. Televisão, jornais e revistas concentravam a capacidade de decidir o que merecia atenção, por quanto tempo e sob qual enquadramento. A internet crescia, mas ainda não organizava a vida política cotidiana. A disputa pela percepção ocorria, portanto, sobretudo pela capacidade de selecionar acontecimentos e delimitar o ambiente dentro do qual a sociedade os interpretava.

Ainda seria exagerado chamar esse momento de guerra híbrida. As condições que depois permitiriam combinar mobilização em rede, plataformas digitais, cooperação jurídica transnacional e disputa comportamental ainda não estavam plenamente formadas. Mas o terreno começava a mudar. O Brasil ampliava sua autonomia externa enquanto, internamente, aprendia o poder político de uma crise capaz de reorganizar a percepção coletiva. Em 2013, a tecnologia transformaria radicalmente a escala dessa disputa.

Junho de 2013: a descoberta do poder das redes

Junho de 2013 não foi fabricado em Washington. As manifestações nasceram de contradições brasileiras reais: transporte caro, serviços públicos precários, violência policial, desigualdade urbana e crescente descrença nas instituições. O Movimento Passe Livre abriu aquele ciclo, mas em poucos dias as ruas ultrapassaram qualquer direção organizada. Foi justamente aí que começou a disputa decisiva: não apenas pelo protesto, mas pelo significado do protesto.

À medida que as manifestações cresciam, a pauta se fragmentava. A indignação contra tarifas passou a conviver com rejeição aos partidos, denúncias de corrupção, nacionalismo difuso e aversão ao sistema político. Setores da mídia que inicialmente criminalizavam os atos mudaram de enquadramento, enquanto novos grupos passaram a disputar sua direção. Junho revelou uma regra fundamental da guerra híbrida contemporânea: uma crise não precisa ser criada para ser capturada. Basta reconhecer a vulnerabilidade, reorganizar seu sentido e transformar energia social em força política.

A tecnologia tornou essa apropriação muito mais poderosa. Facebook, Twitter e YouTube permitiram convocar atos, distribuir imagens, fabricar enquadramentos e conectar emoções em velocidade inédita. A velha mídia ainda tinha enorme poder, mas já não monopolizava a mediação. O cidadão deixava de ser apenas receptor e passava a atuar como produtor, distribuidor e multiplicador de narrativa. Pela primeira vez em escala nacional, a disputa política brasileira começava a operar dentro de uma arquitetura em rede.

Foi nesse terreno que organizações liberais e conservadoras aprenderam rapidamente a transformar uma mobilização que não haviam criado em capacidade política permanente. Integrantes ligados ao Estudantes Pela Liberdade participaram daquele ambiente, e Juliano Torres relataria posteriormente que a marca Movimento Brasil Livre foi criada por integrantes vinculados ao grupo para atuar nas manifestações. A própria Atlas Network reconheceria depois relações de treinamento e formação com membros daquele ecossistema. Isso não prova que essas organizações tenham produzido Junho. Prova algo mais relevante: elas souberam reconhecer a abertura histórica, apropriar-se de parte da indignação e convertê-la em organização política.

Enquanto as ruas eram disputadas, outra dimensão da soberania brasileira aparecia de forma brutal. Os documentos de Edward Snowden revelaram que a Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos espionara a Presidência da República e tinha a Petrobras entre seus alvos. Dilma Rousseff denunciou o caso na ONU como violação da soberania brasileira. Não há evidência que ligue a NSA à origem das manifestações, mas a simultaneidade expunha um fato: quando o Brasil buscava maior autonomia política e energética, informação estratégica, redes digitais e capacidade de decisão nacional já eram campos concretos de disputa entre Estados.

Junho foi, portanto, um divisor de águas. A crise brasileira era real, mas sua interpretação passou a ser disputada por atores capazes de aprender em tempo real, reorganizar narrativas e transformar indignação em comportamento político. O que antes dependia sobretudo de grandes centros de comunicação começava a circular por redes descentralizadas, mais rápidas e emocionalmente intensas. A disputa pela percepção ganhava uma nova infraestrutura.

Pouco depois, essa lógica encontraria uma máquina ainda mais poderosa. A Lava Jato combinaria investigação judicial, exposição midiática, cooperação transnacional e destruição de reputações numa escala capaz de alterar não apenas a percepção dos brasileiros, mas a própria correlação de forças do Estado.

Lava Jato: o golpe jurídico que reorganizou o Brasil

A Lava Jato não foi apenas uma operação anticorrupção que cometeu excessos. Havia crimes reais e responsáveis que precisavam ser punidos, mas o processo que se construiu a partir deles produziu algo muito maior: uma engrenagem judicial, midiática, política e transnacional que alterou a correlação de forças do país, atingiu o principal líder popular brasileiro e ajudou a desmontar pilares de um projeto desenvolvimentista e soberanista. É nesse sentido histórico que a operação precisa ser compreendida como parte de um golpe.

Sua dimensão internacional está documentada. O Departamento de Justiça dos Estados Unidos reconheceu a cooperação com a força-tarefa brasileira em casos envolvendo algumas das maiores empresas nacionais, enquanto agentes do FBI e procuradores norte-americanos estiveram em Curitiba. Isso não prova que cada ato da Lava Jato tenha sido comandado de Washington, mas impede qualquer leitura que a trate como fenômeno exclusivamente doméstico. A investigação passou a operar dentro de uma arquitetura transnacional de poder jurídico que alcançava empresas estratégicas brasileiras.

O caso de Lula expõe a dimensão mais brutal desse processo. Em 2018, preso após condenação conduzida por Sergio Moro, continuou liderando as pesquisas presidenciais. Sua candidatura foi impedida. Bolsonaro venceu. Pouco depois, Moro tornou-se ministro da Justiça do novo governo. Em 2021, o Supremo Tribunal Federal confirmou a parcialidade do juiz no processo do triplex e anulou seus atos naquele caso. O candidato que liderava a eleição havia sido retirado da disputa por uma condenação conduzida por um magistrado depois declarado parcial, que ingressou no governo do adversário beneficiado por sua ausência.

Não é preciso inventar uma sala secreta de comando para compreender a gravidade. Lula foi vítima de uma injustiça histórica: o candidato que liderava as pesquisas foi retirado da disputa, atingindo o maior símbolo político de um projeto que havia ampliado a autonomia internacional do Brasil, fortalecido a integração Sul-Sul e recolocado desenvolvimento e soberania no centro da estratégia nacional.

O golpe também teve dimensão econômica. A Lava Jato atingiu Petrobras, construção pesada, engenharia, petróleo e gás, setores nos quais o Brasil acumulava tecnologia e capacidade internacional. Combater corrupção não exigia destruir empresas nem paralisar cadeias produtivas. Estudo do Dieese estimou que a retração dos investimentos nos setores analisados correspondeu a um potencial de cerca de 4,4 milhões de ocupações, considerando efeitos diretos, indiretos e induzidos. Não foram 4,4 milhões de demissões, mas o número dimensiona a capacidade produtiva que deixou de ser mobilizada.

A operação também funcionou como máquina permanente de produção de percepção. Delações, vazamentos, prisões e novas fases chegavam imediatamente à opinião pública; revisões judiciais levavam anos. A acusação produzia efeito político antes da sentença definitiva, e muitas vezes sobrevivia à própria revisão. O processo judicial já não apenas julgava fatos. Passava a reorganizar reputações, identidades políticas e possibilidades eleitorais.

Depois do impeachment de Dilma Rousseff, a mudança de direção materializou-se rapidamente. Alteraram-se o regime do pré-sal, a política fiscal, as relações trabalhistas e a orientação de setores estratégicos do Estado. Essas medidas não provam um comando único por trás da Lava Jato e do impeachment, mas mostram quem perdeu poder e qual projeto ganhou espaço para reorganizar o país.

Reduzir a Lava Jato a uma operação que simplesmente “errou a mão” seria falsear sua dimensão histórica. A corrupção foi a porta de entrada. O resultado foi a prisão e exclusão eleitoral de Lula, a parcialidade reconhecida de Moro, a devastação de capacidades estratégicas, o recuo do projeto desenvolvimentista e a ascensão de uma nova coalizão política. A operação apresentada como regeneração moral da República tornou-se uma ponte decisiva entre a crise aberta em 2013 e a extrema direita que chegaria ao poder em 2018.

2018–2022: quando a plataforma passou a organizar o comportamento

A eleição de 2018 marcou uma nova etapa da disputa pela percepção no Brasil. O que em 2013 aparecera como mobilização distribuída havia se transformado, cinco anos depois, numa infraestrutura permanente de ação política. WhatsApp, Facebook, YouTube, influenciadores e grupos de militância formavam um ecossistema capaz de produzir, replicar e adaptar narrativas em escala cotidiana. Estudo com quase 195 mil mensagens de grupos públicos pró-Bolsonaro encontrou forte concentração da atividade, circulação entre plataformas e ações coordenadas de mobilização. A propaganda deixava de depender de um centro emissor. O próprio eleitor passava a funcionar como nó de distribuição.

Essa arquitetura não transmitia apenas informação. Organizava pertencimento, medo, ressentimento e identidade. A repetição permanente de inimigos, ameaças e suspeitas produzia comunidades para as quais imprensa, ciência, instituições e adversários políticos deixavam de representar apenas posições divergentes e passavam a integrar uma narrativa de cerco. A operação psicológica ganhava uma forma particularmente poderosa: não precisava convencer cada indivíduo de uma tese isolada. Bastava construir um ambiente cognitivo no qual determinados acontecimentos fossem interpretados sempre pela mesma chave.

O bolsonarismo também se internacionalizou. Em 2018, Eduardo Bolsonaro encontrou Steve Bannon nos Estados Unidos e, nos anos seguintes, aprofundaram-se conexões com redes do trumpismo, The Movement e CPAC. Não se tratava de uma direita brasileira obedecendo mecanicamente a comandos externos, mas de uma extrema direita integrada a circuitos transnacionais de aprendizagem, repertórios e articulação política. A guerra cultural brasileira começava a operar dentro de uma ecologia internacional muito mais ampla.

Durante o governo Bolsonaro, essa máquina voltou-se progressivamente contra o sistema eleitoral. As urnas foram submetidas durante anos a acusações sem provas de fraude. O efeito político dessa repetição era devastador: preparar uma parcela da sociedade para considerar ilegítima qualquer derrota. Primeiro destrói-se a confiança. Depois, o resultado incompatível com a expectativa já chega contaminado pela suspeita. Quando a eleição termina, a narrativa da fraude já está pronta.

Há uma contradição importante em 2022. A administração Joe Biden defendeu publicamente a confiabilidade das instituições eleitorais brasileiras. Isso não transforma os Estados Unidos em guardiões altruístas da democracia latino-americana. O país vivia a disputa aberta entre Biden e Donald Trump, cuja tentativa de deslegitimar a eleição de 2020 abalara seu próprio sistema político. Bolsonaro era o aliado mais evidente do trumpismo na América Latina. Sua reeleição poderia fortalecer essa rede quando Biden disputava com Trump o futuro do poder nos próprios Estados Unidos.

Não há documento que prove que esse cálculo explique sozinho a postura de Biden, mas ignorar essa dimensão seria ingênuo. Potências não são blocos homogêneos. São atravessadas por conflitos internos, classes, partidos, burocracias e projetos concorrentes. Naquela conjuntura, a disputa doméstica norte-americana podia tornar a preservação da normalidade eleitoral brasileira compatível com os interesses da administração Biden. O impulso de poder externo não desaparecera; entrara em contradição com uma necessidade interna mais imediata.

Quando Bolsonaro perdeu a eleição de 2022, portanto, não deixou para trás apenas uma campanha derrotada. Deixou uma comunidade politicamente mobilizada, integrada por plataformas e preparada durante anos para desconfiar do próprio resultado eleitoral. A infraestrutura cognitiva da ruptura já existia. Faltava transformar a narrativa em ação.

Do 8 de Janeiro à coerção aberta

A derrota de Jair Bolsonaro em 2022 não encerrou o processo construído nos anos anteriores. A desconfiança nas urnas já havia sido sedimentada, comunidades políticas permaneciam mobilizadas e parte de seus apoiadores havia sido preparada para interpretar a derrota como fraude. O 8 de Janeiro foi a passagem da percepção para a ação: a narrativa de ruptura tornou-se violência material contra as sedes dos Três Poderes.

Os julgamentos posteriores esclareceram parte dessa arquitetura. O Supremo condenou Jair Bolsonaro e integrantes do chamado Núcleo Crucial por crimes ligados à tentativa de golpe e, depois, membros do Núcleo da Desinformação, acusado de disseminar falsidades sobre as urnas e atacar instituições. Isso não significa que toda mensagem ou todo manifestante obedecesse a um comando central. Significa algo mais grave e preciso: a desinformação deixou de ser mero ruído da política e apareceu como instrumento funcional de uma estratégia de ruptura.

Fracassada a tentativa interna, a disputa foi internacionalizada. Eduardo Bolsonaro passou a buscar nos Estados Unidos apoio contra os processos que atingiam seu pai, defendendo sanções contra autoridades brasileiras e reivindicando participação na pressão econômica sobre o país. A luta política doméstica passava, assim, a procurar no poder de uma potência estrangeira instrumentos para constranger instituições nacionais.

Em 2025, essa pressão deixou de operar apenas pelas redes e articulações políticas. A Casa Branca declarou formalmente que determinadas ações do Brasil constituíam ameaça à segurança nacional, à política externa e à economia dos Estados Unidos e impôs tarifas adicionais, vinculando sua decisão ao tratamento dado a Bolsonaro, a seus apoiadores e a disputas envolvendo plataformas norte-americanas. No mesmo dia, o Tesouro colocou Alexandre de Moraes sob sanções da Global Magnitsky.

Em 2026, a USTR ampliou o movimento ao reunir num mesmo processo decisões judiciais brasileiras, plataformas digitais, sistemas de pagamento, política comercial, anticorrupção, propriedade intelectual e questões ambientais, convertendo depois essa determinação em nova tarifa. A combinação é reveladora: instrumentos jurídicos, econômicos, tecnológicos e diplomáticos passaram a atuar simultaneamente sobre vulnerabilidades do Estado brasileiro.

É nesse ponto que a guerra híbrida deixa de depender apenas de conexões reconstruídas nas entrelinhas. Não porque toda sanção ou tarifa seja, por si, guerra, mas porque diferentes meios de coerção passam a convergir sobre objetivos políticos concretos enquanto atores brasileiros trabalham para internacionalizar sua própria disputa interna. O jurídico encontra o econômico, o digital encontra o diplomático e a crise brasileira passa a ser disputada também fora das fronteiras nacionais.

O percurso iniciado com a construção de percepções, ampliado pelas plataformas e transformado em tentativa de ruptura alcançava agora outra escala. A pressão já não buscava apenas organizar o modo como os brasileiros interpretavam a realidade. Passava a impor custos materiais ao próprio Estado brasileiro. E, justamente nesse momento, uma nova tecnologia começava a alterar novamente o terreno da disputa.

2026: a batalha pelo possível

Em 2026, a disputa pela percepção entra em outra fase. Durante décadas, grandes meios de comunicação selecionaram acontecimentos e ofereceram interpretações. Depois, plataformas passaram a decidir o que circulava, para quem e com qual prioridade. A inteligência artificial avança sobre uma camada ainda mais profunda: sistemas capazes de produzir respostas, sintetizar versões da realidade, hierarquizar possibilidades e conversar diretamente com cada indivíduo.

A diferença é decisiva. Num jornal, o cidadão recebe uma narrativa. Numa rede social, recebe conteúdos selecionados por algoritmos. Diante de uma inteligência artificial, ele pergunta e recebe uma resposta construída para aquela interação. A mediação passa a ocupar o espaço entre a dúvida e a formação da resposta.

O próprio Tribunal Superior Eleitoral reconheceu essa mudança ao proibir sistemas de inteligência artificial de ranquear, recomendar ou favorecer candidaturas e de sugerir voto nas eleições de 2026. A norma revela que o problema já ultrapassou os deepfakes. O risco mais profundo está na possibilidade de sistemas automatizados interferirem sobre quais problemas parecem importantes, quais fontes parecem confiáveis e quais alternativas parecem possíveis.

É nesse ponto que a disputa política deixa de incidir apenas sobre opiniões e passa a alcançar as condições em que determinadas escolhas se tornam mais prováveis. O indivíduo continua decidindo, mas decide dentro de um ambiente organizado por sistemas que selecionam informações, produzem relações entre fatos e aprendem com seu comportamento. A liberdade formal permanece; o campo de possibilidades pode ser silenciosamente condicionado.

A crise institucional que atravessa o Brasil mostra como essa tecnologia pode encontrar vulnerabilidades reais. A inteligência artificial não cria contradições sociais nem conflitos entre instituições, mas pode acelerar narrativas, cristalizar suspeitas e multiplicar interpretações em escala individualizada. O que antes exigia uma campanha dirigida a milhões pode agora assumir a forma de milhões de interações aparentemente privadas.

A evolução, portanto, não é apenas tecnológica. É uma mudança na profundidade da mediação. Primeiro disputava-se a interpretação dos fatos. Depois, sua circulação. Agora começa a ser disputado o próprio ambiente cognitivo em que cada cidadão procura compreender a realidade. A guerra pela informação aproxima-se de uma guerra pelo possível.

O laboratório e a soberania

Depois de tantos anos tentando compreender guerra híbrida, operações psicológicas, plataformas e disputa pelo poder, termino esta reflexão com uma convicção e uma cautela. A convicção é que o Brasil atravessou, em pouco mais de duas décadas, uma sucessão de tecnologias de poder capazes de atuar sobre percepção, comportamento, instituições e soberania. A cautela é outra: nenhuma delas explica sozinha a história de um país. O que esse percurso revela é a capacidade de atores internos e externos de reconhecer contradições existentes, aprender com cada crise e combinar instrumentos cada vez mais sofisticados.

É nesse sentido que compreendo o Brasil como laboratório. Não como uma sociedade passiva submetida a um experimento concebido em algum centro oculto, mas como um país em que mídia concentrada, redes digitais, lawfare, plataformas algorítmicas, extrema direita transnacional, coerção externa e inteligência artificial se acumularam e combinaram numa velocidade extraordinária. O perigo não está em uma ferramenta isolada, mas na capacidade de integrá-las.

Por isso, defender a democracia hoje exige muito mais do que proteger as urnas no dia da eleição. Exige reconhecer os processos que moldam, muito antes do voto, aquilo que uma sociedade percebe como verdadeiro, ameaçador ou possível. O poder contemporâneo não precisa controlar cada decisão. Basta, muitas vezes, organizar o ambiente em que milhões de decisões serão tomadas.

É também por isso que soberania, no século XXI, já não pode significar apenas território, recursos naturais ou capacidade militar. Um país que não domina minimamente suas infraestruturas digitais, seus dados e as condições pelas quais sua população acessa e interpreta a realidade possui uma soberania incompleta.

Talvez esta seja, no fim, a inquietação central de todo este artigo. Às vésperas de mais uma eleição decisiva, compreender esses mecanismos não significa desconfiar da democracia. Significa levá-la a sério. A soberania popular só existe plenamente quando uma sociedade preserva não apenas o direito de escolher, mas também as condições materiais, informacionais e cognitivas para que essa escolha continue sendo verdadeiramente sua.

Artigo publicado originalmente em <código aberto> 

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