Edward Asner – Lou Grant: Filho de Sucateiro para as Luzes Estelares de Hollywood, por João Marcus Dias

Edward Asner – Lou Grant: Filho de Sucateiro para as Luzes Estelares de Hollywood

por João Marcus Pires Dias

O presente artigo é uma reflexão e singela homenagem ao renomado ator e grande ativista das lutas pelos direitos sociais Edward Asner, 1929-2021, que se destacou com sucesso na televisão norte-americana. Considerado o único ator contemplado com 7 Primetime Emmy Awards e 12 indicações até os dias de hoje, além de outros prêmios, começou sua carreira na década de 1960 e nas de 1970 e 1980 protagonizou o seu principal personagem “Lou Grant” em duas séries distintas. Além de ator Asner foi um grande crítico do sistema político norte-americano e defensor de causas sociais e suas lutas, foi filiado ao Democratic Socialists of America (DSA) que se trata de uma organização política sem partido, e também foi presidente do Sindicato dos Atores – Screen Actors Guild (SAG) por dois mandatos. Procuramos tratar os aspectos relativos a sua trajetória como ator e ativista social considerando o contexto histórico e conjuntural calcado em levantamento bibliográfico, entrevistas, documentários e minha experiência como pesquisador e colecionador de um acervo com mais de 70 séries clássicas da tv norte-americana das décadas de 1950 a 1970.

Ed Asner nasceu na cidade de Kansas, estado do Missouri, no ano da grande depressão econômica de 1929, sendo o mais novo de seus quatro irmãos. Seus pais eram imigrantes judeus asquenazes de origem russa, sua mãe da Lituânia e seu pai da Ucrânia, possuíam um ferro velho para o sustento da família. O ator adorava rádio e em seu último ano na escola de ensino médio passou a fazer dramaturgia em um programa de 15 minutos na rádio local. Com o fim do ensino médio Asner foi incentivado por suas duas irmãs universitárias a continuar seus estudos. Decide concorrer a uma bolsa na Universidade de Chicago na qual foi aceito, sem bolsa, para o curso de jornalismo que frequentou por um ano e meio. Na universidade lhe chamou a atenção um curso de Ciências Sociais feito em um verão e a possibilidade de atuar com alguns amigos no teatro. Porém desiste da faculdade motivado, conforme uma entrevista dele, “embora tenha gostado muito do curso e do convívio acadêmico, queria ampliar suas ambições e, por outro lado, naquele momento os EUA estavam expandindo sua política de interferência externa com a guerra da Coréia”. Fato que desanimava a sua geração em perspectiva de futuro com a possibilidade do recrutamento, que acabou lhe acontecendo alguns anos depois. Com a desistência da universidade Asner volta a sua cidade natal e começa a trabalhar em uma siderúrgica, depois numa fábrica de automóveis e outros bicos para se sustentar e investir nas suas atuações teatrais. Posteriormente retorna para Chicago pois as possibilidades de atuar são mais amplas e arruma emprego na fábrica de automóveis General Motors objetivando financiar suas apresentações teatrais. No trabalho fabril começa a conviver com trabalhadores organizados em um sindicalismo forte, ao contrário de suas experiências anteriores na sua cidade natal, lhe instigando um olhar mais profundo para questões sociais. Mas sua maior ambição é o teatro e acaba saindo do seu emprego na fábrica para se dedicar ao oficio de ator. Em 1951 é recrutado para a guerra da Coréia onde fica até 1953 como operador de radar na Europa. Com a dispensa do exército Asner retorna a Chicago e começa a atuar com bastante frequência até decidir se mudar para New York em meados da década de 1950, objetivando encontrar espaço no meio teatral da metrópole e é bem sucedido. A década de 1950 representa para a televisão americana um marco inicial que é expandido gradativamente com bastante êxito. A atriz Lucille Ball estreia em 1951 o show “I Love Lucy” produzido pelo seu próprio estúdio – DESILU Productions -, responsável pela série Jornadas nas Estrelas (Star Trek 1966-1968) e outros sucessos. Posteriormente várias séries foram lançadas na televisão pela DESILU e outros estúdios, destacando: “Perry Mason” (1957-1966), Os Intocáveis (The Untouchables 1959-1963), Cidade Nua (Naked City 1958-1963), Route 66 (1960-1964), Maverick (1957-1962) entre outras, abrindo um leque de oportunidades e empregos para atores em começo de carreira. Por outro lado, a chamada “Lista Negra” de Hollywood destacada como uma “caça as bruxas” tornava o ambiente hollywoodiano nebuloso. A perseguição de atores, diretores e roteiristas com suspeitas de vínculos “subversivos de esquerda” ou “comunistas” faz com que muitos desses “perseguidos” procurem trabalhos nas séries de TV usando pseudônimos, principalmente os profissionais da retaguarda. Em uma entrevista de Asner na década de 1980, como presidente do  Screen Actors Guild (SAG), afirmou que o então Presidente dos Estados Unidos Ronald Reagan, no período em que foi ator e presidiu a SAG (1947-1952; 1959-1960), entregava clandestinamente os chamados “subversivos de Hollywood” para compor a Lista Negra. A carreira televisa de Asner começa em um episódio de Route 66 em 1960, sua atuação chama a atenção de produtores e diretores, e é convidado para atuar em um episódio de Cidade Nua (1961) que lhe deu maior visibilidade no meio, conforme depoimento do mesmo. Com a expansão do mercado de trabalho televisivo e os convites para atuar na TV mais frequentes, o ator decide mudar com sua família para Los Angeles. Entre 1961 e 1969 o autor participou como ator convidado em várias séries destacando: Viagem ao Fundo do Mar (1964-1968), O Fugitivo (1963-1966), The FBI (1965-1974), James West (1965-1969), Os Invasores (1967-1968), Missão Impossível (1966-1973) e muitas outras. No novo rumo tomado o ator sempre evitou fazer comédias pois no seu ponto de vista seria prejudicial para sua carreira como também, expor seus ideais de ativismo social pois ainda não tinha alcançado uma estabilidade no meio televisivo. Mas embora tenha deixado o curso de jornalismo e evitado o papel em comédias na televisão até então,  os dois temas passaram a fazer parte da sua vida artística impulsionando sua carreira com muito êxito no papel de Lou Grant.

Lou Grant 1970-1983

A década de 1970 inaugura um novo marco das séries na televisão norte americana. Com as questões sociais emergindo com bastante presença ao final da década passada, alguns produtores e roteiristas passam a colocar em suas pautas a presença de personagens e temas que questionem o modelo americano até então presente. Cito duas séries que protagonizaram a quebra do modelo tradicional da televisão até aquele momento: MASH criada por Larry Gelbart – Gene Reynolds (1973 – 1983) e Mary Tyler Moore criada por Allan Burns – James L. Brooks e produzida por Ed. Weinberger (1970-1977). A primeira trata-se de uma comédia crítica ao modelo americano de intervencionismo militar como política externa. MASH usa como pano de fundo uma unidade médica de posto avançado na guerra da Coréia e suas implicações. Embora o cenário representava uma época passada, os temas abordados eram muito presentes, por que o objetivo era instigar um pensamento mais critico sobre a guerra do Vietnã que estava acontecendo naquele momento e, parte do povo americano levantava questionamentos sobre o que estava acontecendo. A segunda série, também comédia,  marcou a quebra do estereótipo da presença feminina como dona de casa. Protagonizada pela artista que deu o nome a série, Mary é uma mulher de 30 anos que decide romper um noivado por perceber que não queria um casamento de submissão ao qual seu futuro marido propunha. No primeiro capítulo ela vai morar  na cidade de Minneapolis em um apartamento cujas vizinhas são suas melhores amigas. Na busca por emprego Mary faz uma entrevista para um cargo de produtora associada no noticiário de uma pequena estação de TV local, a WJM, cujo produtor e editor chefe é Lou Grant (Ed Asner), e ela é contratada. Mary é a única mulher da redação rodeada de homens que não estão acostumados a encontrar alguém do sexo oposto assumindo um cargo importante. Dessa forma, a protagonista consegue conquistar o seu espaço e respeito, embora sempre chamou seu chefe de Sr. Grant. O personagem Lou têm sua história no jornalismo, trabalhou no passado em jornais de cidades menores até chegar a Detroit e depois a WJM, é um defensor do jornalismo atuante e imparcial. As histórias da série centram na vida pessoal de Mary e de seu trabalho procurando fazer uma discussão sobre temas contemporâneos e alguns controversos, contendo vários roteiros escritos e dirigidos por mulheres, um fato raro para a época. A série ganhou vários prêmios no seu decorrer,  podendo citar 29 Primetime Emmy Awards, três para a atriz principal e três para Asner e 2 Golden Globes. Em 1977 é encerrada e devido ao grande sucesso de Ed Asner com seu personagem, os criadores se juntam a Gene Reynolds (MASH) para desenvolverem um novo programa intitulado Lou Grant (1978-1982). Ao contrário do antigo programa, a nova série deixa de ser comédia e busca tratar de temas sociais com bastante substância. No último episódio de Mary Tyler Moore toda a equipe do noticiário é demitida e Lou muda-se para Los Angeles a convite de um antigo amigo e jornalista nos tempos de Detroit para ser editor chefe da seção Cidades do Jornal A Tribuna de Los Angeles. Os produtores se inspiraram no filme “Todos os Homens do Presidente” (All the President’s Men – 1976). Durante seus cinco anos pudemos assistir episódios que trataram de temas a respeito de questões nucleares, direitos das minorias, violência contra a mulher, armamento, poluição além de análises criticas sobre questões éticas no jornalismo e o alcance da sua independência jornalística. De acordo com Asner muitos dos temas foram sugestões suas e criaram muitas controvérsias ao público conservador quando iam ao ar. A série Lou Grant ganhou 3 prêmios Primetime Emmy, incluindo o de melhor série dramática por duas vezes. Asner recebeu o prêmio Primetime Emmy de melhor ator em série dramática em dois momentos, sendo o único ator a receber prêmios por interpretar comédias e dramas. Paralelemente, Asner participou de duas mini séries, Pobre Homem Rico (1977) e Raízes (1978), recebendo o prêmio Emmy de melhor ator coadjuvante em ambas, totalizando 7 títulos, fato inédito para um ator até os dias de hoje.

– O cancelamento da série Lou Grant

Na década de 1980 Asner foi eleito o presidente da Screen Actors Guild (SAG) por dois mandatos, entre 1981 e 1985. Por suas lutas pelas causas sociais em geral o ator passa a ser um dos maiores inimigos políticos do governo Ronald Reagan. No início de seu mandato na SAG apoia fortemente a greve dos controladores de tráfego aéreo nos Estados Unidos em 1981, no qual cerca de 13 mil grevistas espalhados por todo o país paralisaram todas as operações aéreas. O ator Charlton Heston foi outro adversário político com vários embates e intimidações, tanto no meio sindical como na área da política nacional, causando a Asner várias campanhas de difamação e perseguição política. Segundo Asner, Heston era o porta voz do presidente norte-americano e seu governo. Em 1982 El Salvador estava passando por momentos políticos tenebrosos com a guerra civil e a forte repressão estatal apoiada pelos Estados Unidos sob a presidência de Reagan. O ápice do conflito é chamado do “Massacre de El Calabozo” com mais de duzentos civis assassinados pelo exército que defendia o regime em vigor respaldado pelo governo norte-americano que cedia armas e dinheiro. Asner e outros ativistas lideram uma campanha contra a interferência norte-americana fundando o movimento “Medical Aid for El Salvador” (MAES) – (Ajuda médica para E. Salvador) – cujo objetivo era levantar recursos para a compra de medicamentos a favor dos camponeses e “descamisados” e, objetivando também, chamar a atenção da sociedade sobre o que estava acontecendo no país da América Central. Diante da sua popularidade como protagonista do seu personagem Lou Grant, o ator foi porta voz do movimento gerando grande repercussão nacional positiva e, por outro lado, insatisfação da elite conservadora que passa a fazer uma campanha para o cancelamento da sua série de TV. O primeiro movimento foi um processo de mistificação aos consumidores para não comprarem produtos dos patrocinadores do programa. Ao mesmo tempo, alguns patrocinadores deixaram o programa devido as suas ideologias de direita. A série Lou Grant foi cancelada ao final da sua quinta temporada com índices de audiência bons, muito premiada e aclamada pelo público. De acordo com Asner não lhe foi dado o motivo do cancelamento mas ficou nas entre linhas. Para o ator o cume da crise que desencadeou o encerramento de Lou Grant aconteceu devido a uma coletiva de imprensa em Washington para a apresentação do movimento MAES. Ali um repórter lhe fez a seguinte pergunta: “O senhor diz que é a favor de eleições livres em El Salvador. E se ela tiver um resultado favorável a um governo comunista?” – Asner reflete e responde depois de um tempo “se for o governo que o povo de El Salvador escolheu, então que fique com o que escolheu.”.  A partir da entrevista o ator passa a ser acossado publicamente por organismos ideologicamente de direita, congressistas entre outros, forçando o estúdio contratar dois guardas costas para lhe proteger. O ator Charlton Heston liderou uma campanha massiva contra Asner e a Jewish Defense League (JDL- Liga de Defesa Judaica), uma entidade de extrema direita, passou a persegui-lo de várias formas, inclusive com uma manifestação em frente a casa do ator. Com o encerramento da série Lou Grant a carreira artística de Ed Asner toma novos rumos. Apesar da perseguição política sofrida o ator continuou atuando com bastante frequência, porém não foi mais convidado para estrelar uma série própria. Participou como convidado em episódios de várias séries, filmes e como dublador em filmes de animação e documentários. Muitos dos seus trabalhos estiveram ligados ao seu engajamento social que sempre acreditou e defendeu. Narrou vários documentários como “Behind the Fear” (2016) a respeito do negacionismo do HIV/AIDS e o documentário Architects & Engineers for 9/11 Truth sobre as verdades não ditas sobre o colapso do World Trade Center em 2001.

O seu ativismo social foi bastante intenso abraçando várias causas envolvendo direitos, cidadania, meio ambiente, saúde e várias mais. Também se engajou na causa do autismo criando junto com seus filhos a organização “The Ed Asner Family Center (TEAFC)” cuja missão é atuar para aqueles com necessidades especiais.  Vale a pena destacar que o ator publicou três livros:

– “Misuse of Power: How the Far Right Gained and Misuses Power” (Abuso de Poder: Como a Extrema-Direita Conquistou e Abusa do Poder – 2005)

– “The Grouchy Historian: An Old-Time Lefty Defends Our Constitution Against Right-Wing Hypocrites and Nutjobs” (“O Historiador Rabugento: Um Esquerdista à Moda Antiga Defende Nossa Constituição Contra Hipócritas e Lunáticos de Direita” – 2017)

– “Son of a Junkman: My Life from the West Bottoms of Kansas City to the Bright Lights of Hollywood” (Filho de Sucateiro: Minha trajetória de West Bottoms, em Kansas City, às luzes de Hollywood – 2019)

Os títulos das publicações já falam por si só, mas darei um breve destaque ao livro de 2017 que trata sobre uma crítica a idolatria da direita conservadora norte-americana sobre a Constituição dos Estados Unidos e suas contradições. Escrito em co autoria com seu antigo amigo Ed. Weinberger, produtor da série Mary Tyler Moore, os autores fazem uma pesquisa consistente sobre a formulação da constituição norte-americana e seus desbravamentos. Partem do principio que “os conservadores amam a Constituição, invocando até mesmo o seu nome mais do que a Bíblia e que ela é a pedra angular do Partido Republicano” (Citado em um seminário realizado pelos autores). Ed Asner nos deixou em 29 de agosto de 2021 aos seus 91 anos de história na televisão e no ativismo social, mas seu legado continua e gostaria de colocar uma passagem sua citada no seminário sobre seu livro de 2017, no qual lhe foi perguntado se tinha se tornado militante de esquerda no período em que frequentou a Universidade de Chicago e ao ator lhe respondeu:

“Não, não, ali me tornei comunista”.

João Marcus Pires Dias – Cientista Social e Pesquisador, Pós Doutor no Instituto de Estudos Avançados – IEA USP, colecionador de séries clássicas das décadas de 1950-1970.

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