A prisão de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, em 18 de novembro de 2025, deu início a uma devassa que expôs as entranhas do poder. A Operação Compliance Zero, que investiga uma fraude de R$12 bilhões envolvendo a cessão de carteiras de crédito para o BRB, encontrou no iPhone 17 Pro de Vorcaro sua prova mais contundente.
Essa operação também acabou levando à revelação de que Vorcaro teria sido procurado por Flávio Bolsonaro para desembolsar mais de R$ 61 milhões para o filme “Dark Horse”, que retrata a vida de Jair Bolsonaro. Mas tudo isso fica em segundo plano quando, nesta terça, 1º de setembro, o ministro André Mendonça, novo relator do caso Master, despacha retirando o sigilo de um procedimento que investigou a troca de mensagens entre Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes.
O GGN teve acesso ao relatório vazado à imprensa, com mais de 200 páginas, que mostra a metodologia da Polícia Federal para identificar Moraes como interlocutor de Vorcaro em várias conversas que levantam suspeitas de fornecimento de informações privilegiadas sobre o andamento das investigações do caso Master.
O “Modus Operandi” de Vorcaro
O relatório da Polícia Federal, que foca na “rede de influência e monitoramento” que o banqueiro tentava consolidar, começa explicando que atende a um pedido do próprio ministro André Mendonça, que deu apenas 72 horas para a corporação vasculhar o celular apreendido com Vorcaro e identificar possíveis envolvidos com foro privilegiado no Supremo, sem antes consultar a Procuradoria-Geral da República sobre a medida, ou mesmo os colegas de Corte protegidos pelo regimento interno da Casa.
A PF, então, apurou que Vorcaro tinha um padrão de comunicação com um determinado número de telefone de Brasília: ele escrevia a mensagem no aplicativo Notas de seu iPhone, tirava um print da tela, fechada o Notas e abria o WhatsApp, e enviava a foto de visualização única para o interlocutor. Embora a mensagem desapareça logo após a visualização, o iPhone de Vorcaro salvou uma cópia do print em pdf, dentro do sistema, sem que o banqueiro soubesse. O resultado foi que é possível saber o que Vorcaro escreveu a Moraes, mas não o que Moraes respondeu a Vorcaro.
A PF analisou um volume de 52 arquivos que seguiam esse padrão específico, usado por Vorcaro numa tentativa de apagar qualquer vestígio de provas dentro do WhatsApp. Para a PF, essa “receita” buscava proteger o conteúdo da leitura de algoritmos simples, mas acabou servindo para que a perícia cruzasse os horários de uso de cada ferramenta com precisão matemática. A ironia reside no fato de que a cautela excessiva de Vorcaro foi justamente o que o expôs. Enquanto ele acreditava estar limpando seus rastros, o iPhone agia como um “escrevente invisível”, armazenando as cópias residuais das mensagens enviadas à revelia do dono do aparelho.
O caminho dos metadados
O relatório destaca um exemplo ocorrido no dia 30 de outubro de 2025. Às 16h32min31s, Vorcaro tirou o print de uma nota que mencionava pressões no Banco Central e a necessidade de “reforçar com Andrei e Paulo” para evitar “sacanagens”.
Apenas 32 segundos depois, às 16h33min03s, o sistema registrou o disparo de uma mensagem pelo WhatsApp. O destino era o terminal de número 556192664093. O cruzamento de dados revelou que, após cada print, a primeira interação de Vorcaro no WhatsApp era, via de regra, para esse número. Ao consultar o celular de Vorcaro, a PF identificou que o número pertencia a “Alexandre de Moraes BRASÍLIA”.
A conexão Fábio Faria
A investigação mapeou a gênese dessa relação, apontando como elo inicial o empresário Fábio Faria, ex-deputado federal e ex-ministro das Comunicações no governo Jair Bolsonaro. Em 26 de dezembro de 2023, Faria compartilhou o contato de “Alexandre de Moraes BRASÍLIA” com Vorcaro.
Antes disso, em 21 de dezembro, as mensagens revelam a logística de um encontro: Faria solicitava dados do veículo de Vorcaro para sua entrada no prédio Tucumã 99. Segundo informações da grande mídia, o endereço em São Paulo pertence a Moraes.
Em um áudio recuperado, a empolgação de Faria com o progresso das tratativas ficou registrada: “Pô, gostei da conversa. Vou montar um negócio bacana demais e, já logo na terça-feira, eu quero marcar”. O ex-ministro ainda mencionava um almoço com “Alexandre no CADE” para ilustrar sua proximidade. As mensagens ainda mostraram que Vorcaro teria providenciado uma “experiência” completa de lazer e gastronomia para Moraes e outras autoridades em Campos do Jordão.
O escritório da esposa de Moraes
Para além da troca de mensagens com Vorcaro, Moraes também teria, de acordo com a PF, editado a versão final de um contrato de prestação de serviços entre o Banco Master e o escritório BARCI DE MORAES, de Viviane de Moraes, esposa do ministro.
Ao escrutinar os metadados do documento — informações escondidas sobre a autoria e edição do arquivo —, os peritos encontraram a “última modificação” da minuta, realizada em 15 de janeiro de 2024, às 23h04, elaborada por um usuário identificado no sistema como “Ministro Alexandre de Moraes”. A descoberta sugere que o arquivo passou por uma revisão direta do magistrado antes de ser formalizado pelo escritório e pelo banco de Vorcaro.
Nesta terça (1º), o casal admitiu à imprensa que Moraes teve acesso ao documento, mas negou que houve edição da parte dele. O ministro ainda não se manifestou sobre as conversas com Vorcaro.
Leia o relatório completo da PF abaixo: