“Véio da Havan” espalha terror entre trabalhadores e é acusado de assédio eleitoral

O empresário bolsonarista Luciano Hang, dono da rede varejista Havan e autodenominado “Véio da Havan”, quer jogar seus funcionários contra o presidente Lula (PT). Ao lançar uma nova loja do grupo, no sábado (29/8), em Caldas Novas (GO), Hang tentou espalhar terror entre os trabalhadores com um discurso sem fundamentos contra o fim da escala 6×1.

Segundo Hang, “querem enganar você com o fim da escala 6×1. Eles querem o voto de vocês em outubro”. Sem apresentar dados ou provas, o empresário disse que essa conquista histórica dos trabalhadores, prestes a ser votada no Senado, exigirá a contratação de mais mão de obra e elevará de 10% a 15% os preços dos produtos da Havan. “Vocês vão ter que arranjar outro emprego, um subemprego, um emprego que não é cadastrado”, acrescentou.

A ameaça não passou batida. Deputados acionaram o MPT (Ministério Público do Trabalho) e a PGE (Procuradoria-Geral Eleitoral) para cobrar investigações. Desde a eleição presidencial de 2018, Hang acumula denúncias relacionadas a abuso de poder econômico e assédio eleitoral. Ao voltar a usar sua posição para pressionar politicamente trabalhadores, o empresário escancara seu desprezo pelas regras eleitorais e desafia os limites impostos pela legislação.

Suas polêmicas não têm nada de originais. Em agosto de 2022, quando Jair Bolsonaro (PL) e Lula disputavam a eleição presidencial, Hang chegou a declarar à revista Veja que pararia de construir novas unidades da Havan pelo interior do País. “Não me vejo investindo no Brasil se Lula voltar. Vou repensar a minha vida se uma desgraça dessa acontecer”, disparou Hang.

Lula venceu. Hang não saiu do Brasil, não fechou a Havan, nem interrompeu seus investimentos. Ao contrário: a empresa cresceu, abriu 22 novas unidades e se aproximou da marca simbólica de 200 lojas. A unidade de Caldas Novas, orçada em R$ 100 milhões, já é a 196ª da Havan e tem um mix de mais de 350 mil produtos.

No dia do lançamento, Hang esbanjava euforia. “Hoje inauguramos a nossa megaloja de número 196 no Brasil e a quinta no estado de Goiás. Agora faltam apenas 4 LOJAS PARA 200 filiais”, disse o empresário. “Vamos rumo as 200 lojas, estamos na contagem regressiva.”

Conforme a “Lista Forbes Bilionários Brasileiros 2026”, divulgada em agosto, Luciano Hang lidera a lista dos empresários mais ricos do varejo no País, com patrimônio de R$ 11,9 bilhões. Os números da Havan tampouco estão em baixa para sustentar o discurso catastrofista de seu dono. “Em 2025, a companhia registrou faturamento líquido de R$ 13,7 bilhões, avanço de 16,4% sobre o ano anterior, enquanto o lucro líquido passou de R$ 2,69 bilhões para R$ 3,45 bilhões”, lembrou a Forbes.

Adepto do “morde-assopra”, o “Véio da Havan” – que construiu sua fortuna sobre o trabalho de milhares de empregados – teve de recuar após a repercussão negativa de suas falas. “Pegaram um recorte, tiraram do contexto e distorceram”, retratou-se Hang.

Na linha do presidenciável Flávio Bolsonaro (PL), ele disse defender uma ilusão: “Quem quiser trabalhar mais e ganhar mais, que possa. Quem quiser trabalhar menos e descansar mais, também”. Mais adiante, porém, Hang deixou claro que não gosta de ver trabalhadores tão à vontade assim para definir suas jornadas: “O brasileiro não precisa de babá. Precisa de liberdade, oportunidade e emprego”.

É a conhecida liberdade segundo o patrão: o trabalhador seria livre para trabalhar mais, mas a sociedade não poderia garantir a ele o direito de trabalhar menos. Hang chama de “babá” a proteção coletiva aos trabalhadores, mas não hesita em usar seu poder econômico para tentar influenciar politicamente os próprios empregados. Embora ele trate o fim da escala 6×1 como “medida eleitoreira”, são suas próprias falas que revelam um projeto político e ideológico: preservar o poder do patrão sobre o tempo de vida do trabalhador.

Em 2022, Hang apostou no medo para tentar impedir a vitória de Lula – e perdeu. Agora, repete a fórmula contra a principal reivindicação da classe trabalhadora – e, mais uma vez, perderá. Lula ouviu os trabalhadores e ajudou a transformar uma necessidade histórica em luta política. Nenhuma fortuna será grande o bastante para deter a mudança.

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