Faltando 34 dias para o primeiro turno das eleições, o candidato ao governo de São Paulo, Fernando Haddad (coligação Desperta São Paulo), foi o entrevistado do programa Roda Viva, da TV Cultura, nesta segunda-feira (31). Ex-ministro da Fazenda e ex-prefeito da capital, Haddad teve a segurança pública como principal tema de sua sabatina, propondo mudanças estruturais no combate ao crime organizado e tecendo duras críticas à gestão de Tarcísio de Freitas (Republicanos).
A segurança pública foi um dos principais temas da entrevista. Haddad defendeu a criação de um “gabinete antifacção”, diretamente subordinado ao governador, reunindo as polícias Civil, Militar e Penal, além das polícias Federal e Receita Federal e dos Ministérios Públicos estadual e federal.
“Se nós integrarmos as forças, se nós organizarmos o Estado para combater o crime organizado, o crime organizado não pode ir conosco.”
Gabinete Antifacção e integração de forças
Ao ser questionado sobre o domínio do PCC no Estado e no mercado financeiro, Haddad diagnosticou um “erro no desenho constitucional” e defendeu a união de forças em nível federal e estadual. “Quero instalar um gabinete antifacção na sala do governador, com a presença das polícias Civil, Militar e Penal, além da Polícia Federal, da Receita Federal e dos Ministérios Públicos”, afirmou.
O candidato acusou governadores de extrema direita de resistirem à medida por “perda de autonomia” e criticou a aprovação de leis antifacção de fachada, que, segundo ele, servem apenas para enfraquecer a Polícia Federal e manter o atual impasse institucional no país.
Para ele, o avanço do Primeiro Comando da Capital (PCC) exige uma mudança na forma de atuação do Estado. Segundo ele, o crime organizado deixou de ser um fenômeno exclusivamente paulista e passou a operar em escala nacional e internacional, inclusive por meio de mecanismos de lavagem de dinheiro e infiltração em negócios legais.
Haddad citou como modelo a “Operação Carbono Oculto”, capitaneada por ele quando esteve à frente do Ministério da Fazenda, considerada uma das maiores ações contra o crime organizado. “A cooperação hoje é a exceção. Se integrarmos as forças, o crime organizado não pode ir conosco”, sustentou, criticando a visão “pequena” do atual governador, que, segundo Haddad, ignora as interconexões internacionais das facções.
Críticas à política de segurança de Tarcísio
O candidato acusou o atual governo de ter perdido o controle da segurança pública e apontou problemas como a falta de valorização dos policiais, defasagem tecnológica e desorganização da cadeia de comando.
Haddad também criticou a atuação do governo paulista diante de casos envolvendo agentes públicos em crimes, citando investigações sobre policiais suspeitos de estupro e roubo de cargas e operações de busca e apreensão em delegacias.
Ele defendeu câmeras corporais, fortalecimento das corregedorias, inteligência policial e valorização das carreiras de segurança, argumentando que combater a violência policial e valorizar os policiais não são objetivos incompatíveis.
“Eu quero sentar com a Polícia Militar, com a Polícia Civil como eu sento com qualquer outra categoria profissional”, afirmou.
O candidato ainda ressaltou que a insegurança gera um custo bilionário para a economia. “A insegurança gera custo para o Brasil. No interior, o agronegócio teve tratores roubados; na capital, há roubo de medicamentos de alto custo”, exemplificou, lembrando que a impunidade no Estado é alarmante, com apenas 5% dos crimes esclarecidos.
Contra o enquadramento do PCC como terrorismo
Questionado sobre a decisão dos Estados Unidos de classificar organizações criminosas brasileiras como terroristas, Haddad relativizou a nomenclatura e afirmou que a prioridade deve ser o combate efetivo às estruturas criminosas.
O candidato rejeitou o enquadramento de “terrorismo” para as facções, classificando-as como máfias movidas pelo lucro. “Terrorismo tem ideologia por trás. É crime organizado e precisa ser combatido. Ponto”, disse, acusando a extrema-direita de usar o termo para “criar confusão na cabeça da opinião pública”.
Na mesma resposta, porém, o candidato ampliou a crítica para a política externa norte-americana e defendeu uma atuação soberana do Brasil. Segundo Haddad, São Paulo, por ser o Estado mais afetado pelo tarifaço norte-americano contra produtos brasileiros, deveria ter tido uma postura mais ativa do governo estadual. “Ele diz que não é assunto dele. Como o Estado mais afetado não é assunto dele?”
Ele também atacou a postura de Tarcísio em relação a Donald Trump e afirmou que a diplomacia conduzida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva funciona como instrumento de proteção dos interesses brasileiros.
Apostas virtuais: Haddad defende proibição
Outro momento de destaque foi a discussão sobre as chamadas bets. Haddad afirmou claramente ser favorável à proibição das apostas esportivas virtuais, embora tenha defendido que a decisão seja debatida com a sociedade e com o Congresso.
O candidato traçou um histórico de negligência, afirmando que o setor foi legalizado no apagar das luzes do governo Temer e totalmente ignorado por Bolsonaro, o que permitiu a criação de um “ecossistema” que sustenta clubes, mídia e parlamentares.
Ele responsabilizou o governo Jair Bolsonaro pela ausência de regulamentação durante quatro anos e afirmou que a gestão Lula encontrou um setor muito maior do que se imaginava. Após regular e tributar o setor no governo federal, Haddad disse estar “chocado” com o volume de recursos (estimados em até 0,5% do PIB) e a crise de saúde mental e endividamento gerada.
O ex-ministro da Fazenda destacou medidas adotadas pelo governo federal, como mecanismos de autoexclusão e ações de saúde pública voltadas à prevenção da dependência.
Para Haddad, entretanto, a experiência acumulada desde a regulamentação demonstra que é necessário discutir se o setor efetivamente produz algum benefício econômico e social. “Eu pessoalmente não acho que vale a pena. É um setor que não contribui em nada com a economia”, declarou, afirmando ser favorável à proibição das apostas após um debate com a sociedade e o Congresso.
Privatização da Sabesp e mudanças climáticas
Haddad reafirmou ser contrário à privatização da Sabesp e criticou os resultados atribuídos à desestatização. Questionado sobre uma eventual reestatização, não apresentou uma decisão definitiva, mas afirmou que será necessário cobrar da companhia as obrigações previstas em contrato.
A questão ambiental apareceu associada à segurança hídrica. Haddad defendeu investimentos em reservação de água, defesa civil e sistemas de previsão de eventos extremos, tanto para garantir o abastecimento da população quanto para proteger a produção agrícola.
Também propôs ampliar o seguro rural, especialmente por meio de seguros paramétricos, para reduzir os impactos financeiros de eventos climáticos extremos sobre os produtores.
Educação: reconstruir o sistema estadual
Questionado sobre a queda de São Paulo do 3º para o 10º lugar no ranking do IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), Haddad classificou a situação como “um absurdo” o Estado ter passado da terceira para a décima posição e responsabilizou a atual gestão pela deterioração dos indicadores.
Entre as causas, apontou a elevada proporção de professores temporários, a redução da autonomia pedagógica e o excesso de plataformas e tarefas burocráticas.
“Botou-se o livro didático de lado, entupiu-se a escola de serviço burocrático e planilhas sem consequência para a relação ensino-aprendizagem”, criticou. Ele prometeu um choque de gestão para recolocar o estado entre os cinco melhores do país, com valorização das licenciaturas, formação continuada e expansão das escolas de tempo integral.
Haddad prometeu retomar concursos públicos, valorizar professores, fortalecer a formação continuada, recuperar a qualidade do material didático e ampliar o ensino integral.
A meta apresentada foi recolocar São Paulo entre os cinco melhores sistemas estaduais de educação do país. “Você não faz contra o professor uma reforma, você faz com o professor uma reforma.”
Sobre como governará com uma Assembleia Legislativa (Alesp) de maioria conservadora, ele comparou a tarefa ao seu período no Ministério da Fazenda. “Isolaremos a agenda de Estado das negociações de varejo. Nos dois reveses que tive no Congresso, recorri ao STF e ganhei, porque o Executivo estava certo”, garantiu, demonstrando confiança na capacidade de articulação sem troca de cargos.
Para a campanha ao governo paulista, Haddad construiu, ao longo da entrevista, uma imagem de candidato com experiência administrativa e econômica, mas também apresentou respostas específicas para os três eixos que definiu como centrais: segurança, saúde e educação.