Soberania alimentar é terra, água, sementes, pão e solidariedade: entrevista com Maria de Jesus dos Santos Gomes

Maria de Jesus durante o ato político. Foto: Flaviana Alencar

Por Francisco Regis Lopes Ramos* e Kenia Sousa Rios**
Da Revista Acadêmica História Oral

A entrevista aconteceu no Centro de Formação Frei Humberto, em Fortaleza, na noite do dia 20 de maio de 2026. Maria de Jesus nos aguardava depois de um dia inteiro como feirante de seus produtos numa Feira da Reforma Agrária que acontecia aqueles dias em Fortaleza. O lugar escolhido para entrevista foi o Centro de Formação Frei Humberto, espaço dedicado às diversas atividades da Via Campesina no estado do Ceará. Nos acomodamos no auditório que homenageia o poeta cearense Patativa do Assaré e entre palavras de ordem da luta pela terra e pela vida espalhadas nas paredes do auditório, demos início a nossa conversa.

Francisco Regis e Kenia Rios – Gostaríamos que você se apresentasse a nós. Seu nome, o lugar onde nasceu e como você gostaria de ser apresentada nesta publicação da RBHO.

Maria de Jesus – Sou Maria de Jesus dos Santos Gomes. Nasci na comunidade de Ipueira dos Gomes, município de Canindé, no Ceará. Nasci no dia 18 de junho de 1971. Lá onde eu nasci, no Canindé é município do semiárido. Faço parte da coordenação estadual do MST-CE.

FR e KR – Gostaria que você contasse pra nós um pouco da sua história. Lembranças marcantes da infância, como era o lugar, sobretudo o que vocês comiam. Como acessavam a comida; se vocês mesmo plantavam, como plantavam e quais as principais dificuldades. Um pouco isso. Vá nos contando do jeito que vier na lembrança.

MJ – Então, eu sou filha de pequenos agricultores, mas tipo assim, meu pai tinha dez hectares de terra. Nós somos seis irmãos, então essa terra era além da minha família para também meus tios. Então nós somos filhos de pequenos agricultores, sou filha de pequenos agricultores. E lá nós tínhamos a produção de subsistência, o feijão, o milho, o jerimum, o algodão, a batata. Meu pai, no verão, ele plantava as vazantes, nós também criávamos cabra, gado, tínhamos vacas. Então, o meu avô era criador de gado, inclusive não faltava leite para nós. E assim, qual foi a grande dificuldade que eu enfrentei na minha infância? Foi no período de seca, de 79 a 83. Nós tivemos aqui no Nordeste um período que a gente diz que o Nordeste passou por um etnocídio1. Então, naquela época, imagina, eu tinha lá entre meus 8 a 12 anos, nesse período. E todo esse período da seca, na comunidade onde eu nasci, toda semana morreu gente. E uma coisa me incomodava muito, porque eu dizia assim, e nós éramos do catecismo, da primeira comunhão, estava fazendo a perseverança, era obrigação nossa acompanhar todos os enterros. Cantando e rezando. E aquilo ali me incomodava muito, porque eu digo assim, eu não acredito que Deus está matando nós. Não acredito que isso é uma questão que nós estamos sendo castigados. Então, a primeira inquietação minha foi essa. Depois, em 87, eu fui fazer um curso de catequese no Instituto de Catequese São Francisco, que era uma escola de catequese da Diocese de Fortaleza. Lá eu conheci Dom Aloísio, lá tive a oportunidade de conhecer… Padre Luiz, Padre Hermano, tantos da Teologia da Libertação, e eu comecei a compreender que a questão da seca não era uma questão de Deus castigando nós, era uma questão de classe. Porque lá no Canindé, os vereadores não passavam fome, os comerciantes não passavam fome, nenhum comerciante perdeu seu filho ou sua filha, nem o idoso que era, vamos dizer, que era rico, que era funcionário público do banco ou dos outros, essas pessoas não passavam fome. Mas nós, agricultores… Sim, passava fome, morreu meu irmão, morreu meu irmão, né, desde assim, morreu…

FR e KR – E ele morreu de fome? Vocês entendiam que ele morreu de fome?

MJ – Morreu de difteria… Difteria era a doença da fome, era uma desnutrição, dava aquela diarreia e aquela criança dentro de 48 horas morria. Afundava a muleira, como diziam os nossos pais, e morria.

FR e KR – Mas vocês diziam isso, vocês sentiam que era de fome? As doenças vinham da fome?

MJ – Era da fome. As doenças que a gente tinha e que a gente enfrentava era da fome. Era verminose, era da fome e das más condições. E água? Água não tinha lá no lugar. Você acredita que eu ia… Nessa época eu botava 13 latas d’água, a minha tarefa era botar água. Na família. Eu só tinha tarefa difícil. A minha tarefa era botar água e lenha. Era mais velha.

R – E a água vinha de onde?

MJ – A água vinha de um rio que está do lado, perto da minha casa. Só que, assim, olha, no período da seca, a cacimba ficou muito lá embaixo. A gente descia muito e pra tirar, a gente chegava às 5 horas, saía 9 horas pra tirar 20 litros d’água. Olha, essa é a grande diferença que eu digo no Nordeste hoje, porque minha casa hoje, lá dos meus pais, tem um poço profundo com 5 mil litros por… Tem uma vazão por hora, 5 mil litros por hora. De água para atender a população da comunidade. Tem vários poços hoje profundos lá. Água encanada nas casas das famílias. Ninguém tem mais aquele sofrimento de carregar água na cabeça que eu tive. E isso são políticas de Lula e Dilma.

KR – E vocês caminhavam muito até a fonte?

MJ – A gente caminhava. Eu caminhava em torno de uns 300 metros para ir buscar essa água. E assim, uma dificuldade tão grande. De buscar essa água e era uma água salobra, não era uma água salgada, que tem muito aqui no nosso semiárido, essa é a realidade. E depois, para a gente ter o consumo, a gente ia numa légua com jumento buscar em açudes vizinhos lá na nossa comunidade. Então, assim, essa questão da água, da sede, da fome, da morte dos animais, da falta de alimentação, era uma coisa que a gente vivenciava, nós só não morremos de fome lá na comunidade, porque nós tínhamos uma freira da nossa família, e ela na diocese de Fortaleza conseguiu cestas básicas, e ela levava de 15 em 15 dias com um caminhoneiro também que era da nossa família, A Josy e a Maria, que eram as irmãs, levavam para a nossa comunidade e a gente teve essa assistência. Nós só não morremos de fome por causa disso.

R – Me diga uma coisa… Você falou em cabra, tinham as cabras. Era muito importante a cabra?

MJ – Sim.

R – Diga por quê.

MJ – Olha, porque os caprinos são do semiárido. Eles são adaptados ao semiárido. O caprino é uma criação que você não precisa muita comida, como o gado, por exemplo. Você com pouco alimento, você tem um rebanho, tem leite. Olha, para você ter uma ideia, naquele tempo, nós comíamos, a nossa merenda de manhã, a minha mãe fazia o seguinte, era leite de cabra com jerimum, que o meu pai plantava nas vazantes dos açudes, e nós todo dia, e o papai para motivar nós, ele dizia assim, não coma, porque quem come jerimum todo dia, leite de cabra, fica com as pernas grossas, fica bonito os cabelos. Papai ficava fazendo incentivos de beleza pra nós, né? No sentido da gente achar que era natural comer todo dia a mesma coisa.

KR – Aí, isso eu queria que você falasse mais, como era a dieta? O que vocês comiam de manhã, depois, de noite?

MJ – Não, olha, quando tinha inverno, muita fartura. Porque a gente tinha as criações, tinha galinha, tinha o milho. Do milho faz muita comida, faz mugunzá, faz a pamonha, faz a canjica. […] A gente plantava também milho. Então quando tem inverno, tem fartura na nossa mesa. O feijão maduro, o feijão, o baião de dois. Então a gente tinha fartura quando tinha inverno. Agora quando era seca, olha, nós amanhecia o dia, nós ia atrás sabe de que? De fruto de carnaúba. Nós íamos derrubar o fruto da carnaúba, o fruto do juá.

KR – E como é que prepara isso para comer?

MJ – Não, o fruto do juá a gente derrubava, a gente ia atrás de tanger as abelhas, né? Então, assim, onde tivesse a gente jogava, assim, o pau, derrubava os frutos e colhia e comia. Tá entendendo? Essas frutas, nossa, a fruta da carnaúba eu acho uma delícia.

KR – E não tinha nenhum preparo não, você derrubava e comia?

MJ – Não, derrubava e se alimentava. E depois, quando era na hora do almoço, era o caldo de bila. A minha mãe chama de caldo de bila. Mas ela pegava assim, às vezes, olha, para tu ter uma ideia, assim, eu me lembro demais disso. Aí quando chegou o socorro da Cáritas com as doações de alimentos, isso aí mudou, né? Nós tínhamos pelo menos arroz com feijão todo dia, nós tínhamos alguma coisa assim, não tinha mistura, mas o básico dos cereais tinha. Eu comia muito arroz com feijão, uma colherada de óleo, dava uma mexida e machucava. Comia com o maior gosto, ficava muito bem. Mas eu quero dizer assim, que isso era uma situação de fome. Era garapa de açúcar. Garapa de açúcar pra gente. Ave Maria, era boa demais. A gente merendava garapa de açúcar. Café com farinha. Café com farinha. Comia muito café com farinha. Não tinha esse negócio de bolacha. Não tinha essas coisas. Era café com farinha. Então nós comíamos aquilo… Muito gosto né era uma dieta mesmo de uma situação de emergência de fome né, mas depois quando a gente descobre que isso é uma questão de classe que a gente pode passar por uma seca e pode não passar sede não passar fome,pode não ver nenhum animal morrer de fome, eu acho que essa é a grande novidade que o MST trouxe para Canindé olha quando o MST chegou no Canindé acabou isso. Hoje, Canindé passa por uma seca, mas o povo não morre mais de fome, não. Pode pegar as estatísticas, depois que o MST chegou em 1989, no município de Canindé, para cá, se em seca, o povo está morrendo? Não, tem luta. Na última seca que teve lá, nós conseguimos a maior cesta básica, 130 kg. Não era cesta básica miserável não, além de ter frente de serviço e exigir condições de a gente sobreviver, porque a luta traz essa outra dimensão. Porque antes a gente ficava roubando São José, ficava fazendo aquelas promessas, botando São José de cabeça para baixo. Fazia aquelas coisas assim todas, para vir a chuva, ficava fazendo as orações, que isso, a gente não deixa de pedir a São José a bênção de um bom inverno, mas a gente foi descobrir depois, que nós, tinha que ter políticas, e o MST que traz essa contribuição para nós, nós trabalhadores e trabalhadoras, agricultores e agricultoras. Então, o MST no Sertão Central, ele vai trazer essa outra dimensão, para além do saque. Tem o saque, mas também tem a exigência de uma mediação junto ao Estado brasileiro, junto à sociedade, que resolva emergencialmente aquele período da seca. Então, hoje, as políticas de convivência com o semiárido, que a articulação do semiárido sistematizou, porque são políticas de mais de 400 anos, construídas pela resistência popular do povo do Nordeste, porque a gente sabe o que é uma baixa. Uma baixa no sertão é fartura. Aquelas áreas próximas aos rios, aos riachos. São áreas que você… Então, uma barragem subterrânea faz toda a diferença para você. Um cacimbão, um poço artesiano, um açude.

KR – E as cisternas?

MJ – As cisternas. Olha, vocês não têm noção. Quando a gente não tinha cisterna, cisterna hoje é um bem precioso da família. A gente cuida da cisterna, vamos dizer, na minha casa, hoje, por exemplo, a cisterna, a água que vai para a cisterna é algo que nós temos muito cuidado, cuidado para não contaminar, cuidado para ser bem lacradinha, para não ter nenhuma… Então, a água da cisterna que chegou do sertão, antigamente a gente tinha muito problema de diarreia. Muito problema de verminose, muito problema de água cheia de barro, água barrenta, água cheia de… Hoje não, gente. A gente tem é cisterna. Dependendo da família, ela passa de um inverno para outro. Aquela água de beber, ela é uma água, assim, acabou esse problema, por mais difícil que tenha, a pessoa ter diarreia, hoje uma infecção intestinal no sertão, onde tem cisterna não tem esse tipo de problema de saúde. Porque esse tipo de doença está ligado a essa questão do acesso à água. Então, é uma questão muito importante. A cisterna, assim, minha mãe, lá na nossa comunidade, nós tivemos a primeira cisterna, uma foi lá para a minha casa. A gente ganhou do Frei Humberto. Que era um padre lá de Canindé.

KR – Que é o que dá o nome, né?

MJ – É, que dá o nome aqui do nosso centro de formação. E o Frei Humberto foi e doou, ele fez assim para várias comunidades e doou para nós da militância do movimento. E aí eu implantei lá em casa. E minha gente aquilo ali fez toda a diferença. A minha mãe tratava aquela água assim, e o meu pai, e eu, todo mundo, era um tesouro. É um tesouro.

KR – Era uma coisa sagrada…

MJ – […] água pra nós é coisa sagrada. Eu não me acostumo com essa história de comprar água. Eu sou indignada com isso porque para mim a água é um bem da natureza, é um bem comum. Ela não é para ser comercializada. Então acho que a cisterna, o armazenamento de água, a estocagem de água, porque agora o movimento fala de estocagem de água.

KR – Estocagem?

MJ – O que é isso? Não é nós termos água simplesmente para questão emergencial, não. Mas se vier uma seca, nós ter água para cinco anos, nós ter água para os nossos animais, nós ter água para o nosso consumo humano, para o consumo produtivo.

R – E é importante a terra com água. A terra sem água, como é que fica?

MJ – É muito difícil. E água, a questão da água passa também pela floresta. A preservação. O MST tem essa campanha maravilhosa de plantar, produzir alimentos saudáveis, que ela é fundamental. O plantio de árvores, ele altera as mudanças climáticas. Nós temos que preservar o nosso bioma, a Caatinga. A gente tem aqui um bioma específico. Então nós temos esse cuidado. Então hoje os conhecimentos, a luta política dos movimentos populares, ela tem sido fundamental para alterar essa relação de conviver com a seca. De que a gente pode passar a seca, mas a gente pode produzir alimentos na seca. Nós estamos aprendendo isso com as escolas do campo. As escolas do campo, que hoje tem cursos técnicos em agroecologia, elas têm feito toda a diferença nos territórios. As escolas agrícolas que nós temos aqui no estado do Ceará tem feito toda a diferença no sentido de educar o campesinato para resistir no período da seca, convivendo com ela.

KR – E você pode dar exemplos disso? O que é que se planta hoje em períodos de seca para amenizar o problema da fome?

MJ – Nós temos focado em quatro soberanias. A gente diz assim, a soberania florestal, a importância da gente plantar árvores, principalmente as árvores do nosso bioma, mas plantar principalmente frutíferas, frutíferas do nosso bioma. Nós temos várias frutas que na seca elas produzem, o umbu, a cajarana, a seriguela, são frutas, a ata. Então a gente tem buscado ter essa orientação dos cultivos de árvores resistentes, frutíferas, que dê alimento, mas também que dê que resista ao clima de um período de seca. A outra questão também sobre as forragens, com a palma forrageira, com o sisal, com outras, o próprio mandacaru. Cultivar mandacaru, por que não? Então a gente tem incentivado a assumir os capins, que tem os tipos de capim que são resistentes. Aproveitar tudo. Isso aí o Padre Cícero já ensinava. Ele já ensinava.

R – Se cada romeiro plantar uma árvore aí o sertão vai mudar. Ele dizia isso.

MJ – Isso aí é um ensinamento antigo. Então a gente busca cultivar e promover isso. Então, por exemplo, eu me lembro aqui lá no Tamboril. Tamboril é um lugar muito seco. Fui lá na casa da dona Isabel, que é uma liderança histórica lá no nosso assentamento do Monte Alegre. Plena seca, fazia três anos de seca. Entrei no quintal da dona Isabel, a horta, a coisa mais linda. Os plantios de fruta, coisa mais linda, mamão, ata. Parecia que a gente estava em um oásis. Então, não é agricultura extensiva em grande escala, mas é uma agricultura agroecológica em pequena escala que atende à necessidade daquela família e atende até a necessidade da comunidade. Então esses pequenos oásis eles vão dando uma outra dimensão diferente, porque você pensa a integração de criação de animais.

R – Fiquei curioso, a cabra continua importante do mesmo jeito? MJ – Continua, no sertão, continua.

KR – Jesus, eu queria voltar à questão que você estava falando, para eu entender, para você explicar para a gente qual a diferença entre soberania alimentar e segurança alimentar. Por que vocês usam soberania?

MJ – Olha, a segurança alimentar é o acesso a alimentos. Ela pode vir de alimentos contaminados com agrotóxicos, pode vir do agronegócio, na grande escala. Mas garante aquele acesso ao alimento para aquela população, independente da sua qualidade. Então isso é uma forma, assim, garante a segurança alimentar. Mas o critério é acessar alimentos. Pode ser alimentos transgênicos, contaminados de agrotóxicos. Isso não tem para a política da segurança alimentar, isso não importa. O importante é que as pessoas tenham acesso a alimentos. Isso é garantia de segurança alimentar. Isso é uma propaganda muito grande da ONU. Esse conceito é sistematizado pela ONU e pela FAO. É um conceito que a FAO sistematiza. Agora, o que é a soberania alimentar? Aí ela tem uma construção do movimento camponês mundial. Quem sistematizou esse conceito foi a Via Campesina Internacional. E essa é uma bandeira de luta hoje nos 168 países que nós temos a Via Campesina. É uma das bandeiras principais da luta dos camponeses e camponesas.

MJ – E o que nós compreendemos como soberania alimentar? A soberania alimentar, a nossa compreensão parte do nosso controle. Primeiro de ter terra para produzir. Então, o acesso à terra, o direito à terra e que nós, nesse momento da conjuntura internacional e da alteração do capitalismo com a hegemonia do capital financeiro. Essa questão da terra, ela virou um ativo financeiro. Então, hoje, a questão da concentração da terra e da retomada, tipo assim, da expropriação da terra dos camponeses e camponesas, inclusive no Brasil, nós estamos passando nos últimos 20 anos uma grande aceleração, que hoje nós estamos se comparando a concentração de terra ao tempo da colonização brasileira.

R – E as monoculturas?

MJ – […] os monocultivos. Então o que acontece? O acesso à terra é a primeira condição para a soberania alimentar. E a outra questão é o controle sobre a organização dessa produção, de que a gente tenha semente, de que a gente tenha o manejo certo, que a gente faça plantios diversificados, que atende a toda aquela pirâmide nutricional, que a gente possa produzir alimentos que tenham minerais, que tenham proteínas, que tenham carboidratos, que tenham vitaminas. Então, nós precisamos pensar na nossa produção olhando para a soberania alimentar com alimentação saudável e nutritiva. Porque você pode ter uma ideia assim, eu posso estar aqui comendo um alimento, eu ter alimento em abundância, mas ele pode ser nutritivo só, por exemplo, em carboidratos. E cadê os minerais? E cadê as vitaminas? E cadê as proteínas? Que isso hoje gera um grande problema de saúde na sociedade, que é o problema da obesidade. Por uma má alimentação, as pessoas estão tendo esse problema de saúde da obesidade que ocasiona outros problemas de saúde.

KR – Que é um tipo de desnutrição.

MJ – Que é um tipo de desnutrição. Então, a importância da gente pensar soberania alimentar com essa característica da produção de um alimento saudável e nutritivo, considerando toda essa compreensão, isso é algo que nós estamos trabalhando com todos os camponeses e camponesas. E para nós, tem outra novidade. A agroecologia, para nós, é uma forma de organizar nossa produção. Mas nós não temos, nós, o MST, inclusive, rompe com uma visão de agroecologia porque quando a agroecologia surge não se falava nas três matrizes, porque a agroecologia tem três matrizes. Ela tem uma matriz ancestral, que são saberes ancestrais de uma agricultura anterior à Revolução Verde, anterior ao uso de agrotóxicos. Tem muitos saberes dessa agricultura, fala-se de 12 mil anos de conhecimentos, né? Dessa produção de alimentos saudáveis. Mas depois, quando vem a Revolução Verde, principalmente na década aqui, nós no Brasil, na década de 50 para cá, há uma alteração muito grande na agricultura brasileira, que é essa agricultura empresarial, capitalista, com o objetivo do comércio. E isso se acirra nos últimos anos com a questão da comoditização dos alimentos. Quando a OMC transformou alimento em commodity ou em mercadoria, nós camponeses e camponesas no mundo todo, nós entendemos que alimento é um bem comum. Ele não pode ser uma commodity. Ele não pode ser uma commodity. Então, a natureza, para nós, ela não pode ser commodity. A terra não pode ser commodity. Então, a terra não pode ser mercadoria. O ar não pode ser mercadoria. A água não pode ser mercadoria. O alimento também não pode ser mercadoria. Para nós, os alimentos, então, a soberania alimentar, ela compreende essa questão do controle da produção. Desde o acesso à terra do plantio, ou também do controle da terra pelos camponeses, que a gente não vende a nossa terra. E até todo o processo do manejo à colheita, à comercialização, que dê conta de atender às necessidades da sua família e aquilo que sobra lhe dê uma renda.

MJ – Que a gente possa ofertar para a sociedade esse alimento também. Mas é um alimento saudável. Nós temos feito um debate que a grande tarefa nossa, dos camponeses e camponesas, é a produção de alimentos saudáveis. E no Brasil, 70% dos alimentos são produzidos por nós da agricultura familiar. É o avesso. Nós temos o mínimo de investimento na nossa produção, o agronegócio tem, eles estão assim, vamos dizer, eles têm trilhões de investimento na produção deles, uma produção que contamina solo, contamina ar, contamina pessoas, tem um interesse só comercial de gerar, vamos dizer, a história do superávit primário. Que é uma coisa que alimenta essa nova fase do capital financeiro, mas isso não permite à sociedade ter alimentação saudável.

R – Eu estava lembrando que em 2003, o Stédile publicou um texto com o seguinte título as sementes são patrimônio da humanidade. Contra a privatização das sementes. Como é que está hoje essa questão?

MJ – Ela continua sendo uma grande campanha nossa. A questão da preservação, da conservação da semente, da reprodução das sementes. Inclusive, nós do MST temos uma experiência de uma cooperativa nossa, que é a Bionatur, que hoje está se nacionalizando com esse intuito. Ela é do Rio Grande do Sul, ela trabalha muito com hortaliças, mas nós estamos nacionalizando ela para que ela também faça a reprodução de várias sementes no Brasil, de acordo com os biomas. Porque nós também, o movimento, ele tem avançado nesse estudo dos biomas. Como é que o nosso… E nós estamos fazendo um diálogo muito lindo, que é o aproveitamento da nossa produção. Vamos dizer, eu sou de uma experiência que nós trabalhamos na nossa comunidade os derivados do caju e da castanha. Hoje a gente faz, na minha família, nós fazemos 14 produtos do caju. A gente utiliza o pedúnculo do caju. Nós fazemos lá… Eu estou dando aqui um exemplo em relação ao caju. Mas nós podemos fazer isso com a macaxeira, com a mandioca. Nós podemos fazer isso com o umbu, ele pode dar vários subprodutos. O milho, o leite de cabra, o leite de gado. Está entendendo? Então, nós precisamos aprimorar. Não é uma ideia de uma agroindústria. Com a ideia de processamento de alimentos, alterando os alimentos. Não. Por exemplo, eu sou de uma agroindústria que está agora começando nossa agroindústria, nós somos um grupo de mulheres que produzimos. Nós conquistamos agora a agroindústria. Nós produzimos derivados da castanha. O que nós fazemos lá? Nós fazemos 14 produtos. Nós fazemos assim, a pasta da castanha do caju, o queijo cremoso da castanha, o biscoito da castanha, a gente faz o nut cacau, é um produto com cacau e a pasta da castanha. A gente faz a paçoca de castanha, que é uma delícia. A gente faz uma barra de cereal da castanha, a gente faz o leite da castanha, o doce de leite da castanha do caju. A gente está fazendo também… A castanha caramelizada com açúcar demerara, a gente faz a castanha assada…

KR – Eu tô com água na boca (risos).

MJ – […] a gente faz a farinha da castanha, a gente faz a farinha da castanha, a gente faz bombons, uns bombons maravilhosos da castanha. A gente faz um queijo maturado, que ele tem inclusive uma duração de três meses. Esses 14 produtos, são zero lactose, zero glúten, zero gorduras trans, zero açúcar e são produtos que enfrentam as mudanças climáticas. Porque, por exemplo, os derivados do leite de gado, o gado é um dos maiores emissores de gases na camada de ozônio, então nós estamos nessa produção. É um grupo de mulheres, mas que envolve toda a comunidade de acordo com a produção e a gente vê assim essa questão do aproveitamento da castanha sabe então assim é uma questão muito importante e desses aí nove produtos a gente não usa um pingo de água. Nove produtos, nós não usamos água. Eu digo, é uma, vamos dizer assim, é uma agroindústria do semiárido. Então, imagina que lindo uma produção dessa.

KR – Que dialoga e respeita o bioma caatinga.

MJ – Que valoriza uma produção nossa, que nós lá somos produtores de caju e de castanha. E com o caju, a gente faz a cajuína, faz o mel do caju, a gente faz o vinho do caju. A gente faz quatro tipos de doce de caju, inclusive tem um doce que a gente faz onde a gente adoça o doce do caju com o mel do caju, que eu digo é uma iguaria. A gente faz, a gente tem também assim a rapadura do caju.

KR – A carne de caju?

MJ – […] A gente faz também o canjirão. Fazemos também a carne do caju. Então a gente faz o vinagre do caju. Uma delícia. Então eu quero dizer a vocês que todos são saberes camponeses. Que nós vamos valorizando nossa produção. E vamos ao mesmo tempo valorizando uma planta da Caatinga que é o caju. O caju é nosso. Então eu quero dizer assim que hoje nós estamos dentro da soberania alimentar, eu estou dando esse exemplo do caju, da castanha e do caju, porque o fruto é a castanha, viu? Não é o caju. Então eu estou dando esse exemplo desse fruto. Que é uma planta que a gente aproveita tudo dela. E assim nós temos muitas plantas no nosso bioma Caatinga que são plantas sagradas, que nós podemos fazer uma resistência num período de convivência com a seca. E assim, nós não vamos sofrer fome.

KR – E não é um plantio em larga escala? Como é feita a comercialização?

MJ – Então a gente está com essa experiência. A discussão de soberania alimentar é esse conceito, do controle da nossa produção com autonomia camponesa. Tem um objetivo de saciar necessidades de alimentos da família, olhando para a nossa pirâmide nutricional, porque é importante a gente não perder de vista essa pirâmide nutricional, e olhando para a qualidade desse alimento, mas também pensando na sociedade. Como a gente também produzir uma escala maior que possa ofertar para a sociedade e gerar renda para nossas famílias atender o conjunto das suas necessidades. Então, nós hoje estamos numa transformação também. O campesinato que nós do movimento estamos lutando; a gente quer um campesinato que ele tenha conhecimento, ele tenha estudo, ele tenha acesso a tecnologias. Agora o nosso movimento está lutando por máquinas. Então a soberania alimentar tem outras soberanias que existem com ela. Então nós temos feito um debate muito lindo com as escolas do campo aqui no Ceará e no Nordeste. Com o conjunto do movimento sobre agroecologia. A agroecologia que defendemos articula o quê?

A soberania florestal, que é a preservação do bioma, dos biomas, né? Nós temos no Brasil seis biomas. Então, cuidado com esses biomas. Nós nos colocamos como guardiãs e guardiões do bioma. E o movimento fez uma grande campanha, que é o Plano Nacional Planta Árvores e Alimentos Saudáveis. Que a ideia é valorizar as árvores que são alimentos desse bioma.

A soberania hídrica. Ela é fundamental e hoje ela é um problema em todos os biomas do nosso país. Com o desmatamento, com as queimadas, todos esses processos. Então, a gente está discutindo soberania hídrica, a soberania alimentar, a soberania forrageira.

Ora, se eu vou criar, eu tenho que produzir o alimento dos meus animais, para que a gente não fique dependendo, né? Porque nós temos situação aqui no semiárido que tem pessoas que pegam sua aposentadoria e metade dela é para comprar ração para os animais. Nós temos que produzir a forragem, porque esse salário tem que dar conta de outras necessidades que a família tem.

A soberania energética… Nós entendemos a importância das energias renováveis, mas não na lógica das empresas de energia solar. Nós somos contra esse modelo. Nós somos a favor das pequenas usinas que abasteçam os territórios. E atendem às nossas necessidades de irrigação. Tem a energia eólica, que altera todo o ambiente. As pessoas não conseguem morar próximo… A fauna some, a água some. Então, nós somos contra esse modelo de latifúndio de energias. Mas nós queremos as energias renováveis, num modelo distributivo.

Uma outra questão para nós importante é a soberania econômica. Que nós precisamos enquanto camponeses e camponesas, pensar. Olha, se a gente está num período de seca, criar pequenos animais é algo que você consegue, porque criar galinha, você vai ter o ovo, você vai ter a carne. Então como é que a gente potencializa num período desse a criação dos pequenos animais? As cabras, vai ter o leite. Como é que a gente valoriza isso? Então se não dá para a gente plantar o feijão, o milho, por conta que a gente não tem água, Mas como é que a gente garante produções para aquele período? Então a gente também tem que pensar as produções na forma de ciclos. Então a economia camponesa no semiárido, esse é um tema que eu estudo na prática. E eu sou uma grande incentivadora nos acampamentos, nos assentamentos, que o nosso povo sonhe, tenha sonhos. Eu digo, gente, nós não podemos pensar nossa economia igual a do fazendeiro. Porque nós somos diferentes. Primeiro, nós não temos as mesmas condições. E segundo, nós nem queremos ser igual a eles. Nós temos um outro projeto de campo, de reforma agrária, de agricultura. Então, nós queremos ter uma economia que atenda nossas necessidades humanas, sociais, mas que essa economia, ela dê conta disso pra gente ter uma qualidade de vida digna no campo. Nós do MST, queremos um com educação, com cultura, com saúde, com direitos sociais, com todos os direitos que a gente entende que tem, direitos políticos, sociais, econômicos, nós não queremos só um direito, vamos dizer, só a terra, a gente quer todos esses direitos. Então, nesse sentido, a soberania econômica é essa dimensão da gente olhar as várias possibilidades nas criações, na produção da parte de hortas, pequenas hortas, na questão das frutas, tendo presente as necessidades que a gente tem.

A outra questão é a soberania medicinal. Então a gente tem cultivado saberes ancestrais aqui no Brasil, nós temos muito conhecimento ancestrais em relação ao uso das plantas e as plantas da Caatinga. Eu sou apaixonada pela Caatinga porque toda planta é um remédio. Nós temos, olha, os problemas mentais hoje, não tem planta melhor do que o Mulungu. Para a ansiedade, chá de mulungu. Para a depressão, chá de mulungu. Para a insônia, chá de mulungu. Está entendendo?

Então eu quero dizer a vocês que nós temos plantas que é nossa! Tanta coisa linda! E nós podemos estar promovendo esses conhecimentos ancestrais, os lambedores, os xaropes, esses medicamentos todos que a gente pode ter. Então, cultivar plantas medicinais é muito importante.

Uma outra questão também que nós temos trabalhado é a soberania cultural. Que é assim, na soberania cultural tem coisa da cultura camponesa que nós não queremos cultivar. Não queremos o patriarcado, não queremos o machismo, não queremos o autoritarismo, não queremos relações dominadoras, mas nós queremos sim, do campesinato, os mutirões. Nós queremos sim as trocas, nós queremos sim as partilhas, das farturas. Quem é que não faz isso, né gente? Na comunidade camponesa, quando começa a ter o jerimum, a gente reparte o jerimum para a vizinhança, vamos dizer, a gente corta o jerimum e já dá um pedaço para cada um da vizinhança. Então essas práticas comunitárias. A questão dos alimentos, vamos dizer, que o nosso povo aprendeu a fazer com milho, com feijão, com todos os tipos de alimentos. Para nós é muito importante essa culinária camponesa ser preservada. Nós agora nas escolas estamos promovendo cursos. Como é que faz uma pamonha? Como é que faz uma canjica? A gente não pode perder isso, porque são conhecimentos que vão se perdendo. Como é que faz uma rapadura? A gente não pode perder esses conhecimentos. Então, nesse sentido, a gente entende que a gente precisa, na agroecologia, também promover essa questão da culinária. Numa culinária saudável, numa culinária camponesa, que valoriza os alimentos ancestrais, mas também que valoriza os novos alimentos mais saudáveis para uma alimentação.

Outra questão importante é o conhecimento. Olha, nós entendemos que como agricultores e agricultoras é preciso ter conhecimento. E não é só da gente se alfabetizar, não. É a escolarização. O MST iniciou agora no Nordeste, neste governo do Lula, nós já fizemos dois anos de um processo de alfabetização. Agora vamos fazer mais dois anos de escolarização do ensino fundamental. E nós queremos, depois desse processo, fazer o EJA técnico. Nós vamos formar de forma massiva os camponeses na agroecologia. De forma massiva na administração, com ênfase nas empresas sociais, de associações e cooperativismo. E o Ceará é pioneiro nesse processo. Nós já temos hoje nas escolas do campo 68 cursos técnicos de agroecologia, de administração com ênfase nas organizações sociais e de informática. Porque a gente entende que o acesso à tecnologia é fundamental para a agricultura. Inclusive o MST agora criou a IARA, que é uma inteligência artificial para a agroecologia. Então a gente entende que nós temos que se atualizar. Então nós temos que ter os cursos técnicos de agronomia, de energias renováveis, de tudo, para pensar esse campo que nós queremos. Esse campo que nós queremos.

KR – Bem, para a gente já ir quase terminando, não sei se o Régis tem mais perguntas, mas eu tenho uma… É mesmo uma questão que eu queria que você me ajudasse a pensar. É possível a gente dizer que ainda existe fome no sertão? No semiárido? Se tem? O que seria a fome no semiárido hoje?

MJ – Olha, com os governos que nós temos hoje aqui no estado do Ceará, essa questão da fome, ela tem sido amenizada por essas políticas emergenciais, que eu considero o Bolsa Família uma política emergencial. Eu não considero uma política estrutural, nem conjuntural. Mas ela dá conta de atender às necessidades imediatas. Mas ela não dá conta da soberania alimentar. Que é essa questão da gente ter todos os alimentos da pirâmide. Ela não dá conta. Então, por isso a importância da reforma agrária. A reforma agrária é atual para o povo brasileiro. Ela, inclusive, está bloqueada pelo capital financeiro no Brasil. Porque hoje ela é um ativo financeiro à terra. A natureza hoje é uma grande, vamos dizer, commodity. Então, hoje o capital, o agronegócio no Brasil dependem dessa concentração da terra. Mas o povo brasileiro, para a gente ter uma soberania alimentar e para a gente superar as políticas emergenciais assistencialistas, nós precisamos de uma verdadeira reforma agrária no campo. E de uma reforma agrária que venha com políticas sociais, inclusive de um processo de educação na agroecologia. Porque a gente não pode pensar assim, aquele agricultor que foi o meu avô não existe mais. O meu pai. Não, aquele agricultor que tinha lá só o cabo da enxada. Não, só a enxada. Não. Hoje nós temos que pensar a agricultura com tecnologias adaptadas à agroecologia. Inclusive, tem muitos conhecimentos atuais dos bioinsumos. De máquinas adaptadas à agroecologia, faz toda a diferença. Então a gente tem que pensar isso e inserir a sucessão rural, a juventude da sucessão rural não vai ser mais aquela juventude que não sabe ler e escrever, vai ser a juventude técnica, agrícola. Em agroecologia, vai ser uma juventude com Agronomia, vai ser uma juventude com Pedagogia. Essa juventude é esse campo, um campo com pessoas com conhecimento. Isso eu vi em Cuba. Em Cuba eu encontrei atriz, que era atriz famosa na televisão nacional, mas agricultora. Encontrei professor universitário, famoso na academia, e agricultor. Então, essa dimensão do agricultor, que tem a preocupação com a sua reprodução social, mas dentro de um outro paradigma. Temos médicos aqui no Ceará, médico, agricultor, sem-terra, que trabalha na terra. Lá em Madalena, nós temos o Tatu, nós chamamos ele de Tatu. Faz gosto ver a plantação dele lá. E ele trabalha como médico na semana, mas sábado e domingo ele está dentro da roça dele. E assim nós temos vários que são desse jeito. Então essa é a nossa perspectiva. Porque a gente precisa construir um outro mundo possível. Não dá para a gente se conformar com essa decadência do capitalismo.

* Francisco Regis Lopes Ramos é Professor Titular do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Ceará (PPGH/UFC). Pesquisador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científi co e Tecnológico (CNPq) com bolsa produtividade (nível 2). Possui graduação em História pela UFC (1992), mestrado em Sociologia pela UFC (1996) e doutorado em História pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) (2000)

**Kenia Sousa Rios é Professora da graduação e do Programa de Pós-Graduação em História Social da Universidade Federal do Ceará (UFC). Coordena o grupo de pesquisa As formas da História: narrativa e estética na História da Fome no Brasil. E-mail: [email protected]

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